QAP Capítulo II — Onde o tempo perde o direito de esperar

Um desastre assustador em uma imagem cheia de entrelinhas. As flores emolduraram socorristas, coincidência ou não, um nome bíblico compõe o salvamento realizado com sucesso em uma capotagem. Foto: Marcos Maluf
Um desastre assustador em uma imagem cheia de entrelinhas. As flores emolduraram socorristas, coincidência ou não, um nome bíblico compõe o salvamento realizado com sucesso em uma capotagem. Foto: Marcos Maluf

Fotoreportagem: Marcos Maluf

Nem sempre o rádio conta a história inteira.

Capotamento.

Vítima encarcerada.

Acidente com múltiplas vítimas.

As informações chegam em poucas palavras. O restante será descoberto quando a equipe alcançar o local.

Quando a ambulância para, o silêncio desaparece. Há ferragens retorcidas, vidro espalhado pelo asfalto, veículos destruídos e pessoas tentando compreender o que acabou de acontecer.

É nesse instante que a enfermagem entra em cena.

Não há tempo para hesitar. Há vidas esperando por decisões tomadas em segundos.

No atendimento pré-hospitalar ninguém trabalha sozinho. Enfermeiros, técnicos, médicos, bombeiros e equipes de resgate formam uma única corrente.

Cada profissional ocupa seu lugar. Cada movimento precisa acontecer no momento exato.

Enquanto alguns estabilizam a vítima, outros organizam o acesso, monitoram sinais vitais, protegem a coluna, controlam hemorragias e preparam o transporte.

Em um cenário onde tudo parece caos, existe método.

Existe ciência.

Existe treinamento.

E existe confiança.

Cada procedimento segue protocolos construídos para preservar vidas e garantir que o cuidado comece ainda no local da ocorrência. O Cofen (Conselho Federal de Enfermagem) reforça que essa atuação é uma das bases do atendimento pré-hospitalar.

“Nos serviços móveis, como o SAMU 192 e outras equipes de resgate, os profissionais de enfermagem realizam avaliação clínica, monitorização, intervenções terapêuticas, administração de medicamentos, suporte avançado à vida, organização da assistência e coordenação do cuidado, sempre em atuação integrada com as demais profissões”, afirma o Conselho.

Socorristas retiram uma vítima das ferragens como quem desentrelaça um emaranhado de nós sem romper nenhuma fibra. Sucesso e alegria de quem saiu cheio de vida. Foto: Marcos Maluf

Nenhum resgate acontece apenas com força. É preciso coordenação, comunicação e técnica. Às vezes, dezenas de mãos trabalham para salvar uma única vida.

E nenhuma delas disputa protagonismo.

O objetivo é sempre o mesmo:

fazer com que aquela pessoa tenha uma chance de voltar para casa.

 Uniforme e maca se transformam em símbolos de vida. Foto: Marcos Maluf

Quem observa de fora enxerga sirenes.

Quem está dentro da ocorrência enxerga prioridades.

Cada minuto altera um diagnóstico.

Cada decisão pode significar preservar um órgão, evitar uma sequela ou impedir uma perda irreversível.

A urgência não permite pausas.

Mas, às vezes, a própria cena convida todos a um instante de silêncio.

 A fé também se manifesta. Às vezes faz questão de mostrar que também participa. Foto: Marcos Maluf

Entre ferragens retorcidas, vidros quebrados e o som incessante das sirenes, alguns detalhes parecem desafiar a lógica.

Uma Bíblia repousa sobre um carro destruído.

Para alguns, um símbolo de fé.

Para outros, de esperança.

Há quem veja apenas um objeto.

Cada olhar encontra um significado diferente.

Enquanto isso, a equipe permanece concentrada naquilo que está ao seu alcance: preservar vidas.

 

Há imagens que não precisam explicar nada.

Elas apenas convidam quem observa a refletir.

Se alguns enxergam coincidências, outros encontram esperança.

Independentemente daquilo em que cada um acredita, existe uma certeza compartilhada por todas as equipes de resgate:

enquanto houver uma possibilidade, haverá alguém tentando salvá-la.

 

Nos lugares mais inacessíveis. Eles surgem como num passe de mágica e estão prontos para transportar a vítima. Foto: Marcos Maluf

Quando o atendimento termina, as sirenes se afastam.

O trânsito volta a fluir.

Os curiosos seguem seus caminhos.

A cidade retoma sua rotina.

Para a enfermagem, porém, nenhuma ocorrência termina quando a ambulância deixa o local.

O rádio permanece ligado.

Porque o próximo chamado pode acontecer antes mesmo que a adrenalina do último tenha ido embora.

Esta é a segunda fotoreportagem de uma série que percorre os bastidores da enfermagem em Campo Grande-MS.  Clique aqui e confira o capítulo anterior  e aqui para conferir a próxima edição onde o cuidado se manifesta de formas distintas, mas com o mesmo propósito: preservar vidas.

 

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