Fotoreportagem: Marcos Maluf
— QAP?
A pergunta rompe o silêncio dentro da ambulância.
— QAP.
A resposta vem sem hesitação.
O giroflex ainda está apagado quando o rádio transmite as primeiras informações: mulher, 34 anos, possível vítima de agressão, rebaixamento do nível de consciência. O motorista gira a chave. O enfermeiro confere a mochila de atendimento pela última vez.
Ninguém pergunta o que vai encontrar. Ninguém pode saber.
Do lado de fora, a cidade continua seguindo seu ritmo. Um ônibus para no semáforo. Alguém atravessa a rua carregando pão. Crianças voltam da escola. A rotina segue indiferente.
Enquanto isso, dentro daquela ambulância, uma contagem invisível já começou.
Cada segundo perdido pode significar menos tempo, menos chances, menos vida.
Quando a equipe finalmente chega ao endereço, ainda não existem exames. Não há tomografia, prontuário ou diagnóstico.
Existe apenas uma pessoa e existem as mãos da enfermagem.
A mulher vítima de violência sendo acolhida pelo profissional de enfermagem. O rosto parcialmente oculto pela sombra do enfermeiro preserva sua identidade e reforça que o protagonista da imagem é o cuidado.
A fotografia revela esse encontro sem expor a vítima. O rosto marcado pela violência aparece apenas parcialmente, protegido pela sombra e pela presença do profissional de enfermagem. Não há espetáculo. Há dignidade.
Antes de qualquer medicamento, antes de qualquer procedimento, existe algo que nenhuma tecnologia consegue substituir: o acolhimento.

O pronto atendimento exige uma leitura rápida entre cenário e paciente, que muitas vezes não está consciente. Foto: Marcos Maluf
É nesse instante que a enfermagem assume um papel que raramente aparece nos protocolos. O de transmitir segurança quando tudo parece desmoronar. O de manter a calma quando o medo ocupa todos os espaços. O de oferecer presença quando as palavras já não bastam.
É justamente nesse primeiro contato que, para o Cofen (Conselho Federal de Enfermagem), se revela uma das dimensões mais importantes da profissão.
“A enfermagem é absolutamente essencial em toda a cadeia de atendimento às urgências e emergências. Pode-se afirmar, sem qualquer exagero, que a enfermagem é uma das principais protagonistas da Rede de Atenção às Urgências. São profissionais que permanecem ao lado do paciente durante todo o processo assistencial, desde o primeiro contato até a estabilização, recuperação ou encaminhamento para continuidade do tratamento”, destaca o Cofen.

Um dos poucos procedimentos que não tem dia, hora ou local marcados. Foto: Marcos Maluf
Depois do primeiro olhar, chegam as decisões. Cada equipamento utilizado, cada avaliação clínica e cada procedimento representam escolhas que precisam ser feitas em poucos segundos.
Enquanto o paciente ainda tenta compreender o que aconteceu, a enfermagem já organiza prioridades, estabiliza, monitora e prepara o caminho para que o atendimento continue.
A técnica aparece. Mas o cuidado permanece sendo o centro de tudo.

Cada atendimento carrega o cuidado daqueles que escolheram amar ao próximo. Foto: Marcos Maluf
A paciente sendo conduzida até a ambulância ou recebendo assistência já no interior da viatura, mostrando a continuidade do cuidado.
Do outro lado de cada chamado existe alguém vivendo, talvez, o pior dia de sua vida.
E existe uma equipe que chega sem saber quem encontrará, mas sabendo exatamente qual é sua missão: cuidar.
Quando as portas da ambulância se fecham, a cidade volta ao seu ritmo.
Para quem está do outro lado do chamado, porém, a missão está apenas começando.
Esta fotoreportagem inaugura uma série que percorre os bastidores da enfermagem em Campo Grande-MS. Clique aqui e acesse a segunda reportagem.
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