Economista do Democracia Cristã defende revisão dos gastos públicos
Estreante em disputas eleitorais, o economista Renato Gomes, candidato ao Governo de Mato Grosso do Sul pelo DC (Democracia Cristã), aposta no discurso de renovação política e de revisão dos gastos públicos para conquistar o eleitorado nas eleições de 2026. Durante a Sabatina do Jornal O Estado, ele afirmou que sua decisão de entrar na disputa foi motivada pela insatisfação com casos de corrupção e pelo que considera distorções na aplicação dos recursos públicos.
Entre as principais propostas apresentadas está o combate aos chamados super salários no Executivo estadual. Segundo o candidato, os gastos com remunerações acima do teto constitucional chegam a cerca de R$ 2 bilhões e deveriam ser revistos para ampliar os investimentos em áreas como saúde.
Gomes também critica o modelo de desenvolvimento adotado em Mato Grosso do Sul e defende maior diversificação da produção, fortalecimento das cadeias produtivas locais e investimentos em ferrovias como alternativa ao transporte predominantemente rodoviário e diz que tem condições de uma boa gestão, mesmo sendo novato. “Eu conheço da economia regional, nacional, internacional, sou estudioso das finanças públicas do município, do Estado, das finanças do Brasil e me sinto capaz”.
Ao tratar da Rota Bioceânica, Gomes questiona a predominância do transporte rodoviário e afirma que Mato Grosso do Sul precisa avançar em projetos ferroviários e hidroviários. Na área ambiental, defende conciliar preservação e desenvolvimento econômico, considerando as características de cada região do Estado.
Confira a entrevista:
O Estado – Esta é a primeira eleição que o senhor disputa e já começa concorrendo ao cargo de governador. O que o credencia para governar Mato Grosso do Sul sem nunca ter exercido um mandato eletivo?
Renato Gomes – Sou um sul-mato-grossense indignado com tanto escândalo de corrupção nesse Estado. Como sul-mato-grossense estou, como tantos outros, indignado com tanta injustiça que se abate sobre o nosso povo. É um espírito de sobrevivência, é o que me move para oferecer as minhas qualificações, as minhas habilidades que me trouxeram até aqui ao longo de toda a carreira. Conheço da economia regional, nacional, internacional, sou estudioso das finanças públicas do município, do Estado, das finanças do Brasil e me sinto capaz, depois de ter atendido 300 empresários ao longo da minha vida, de oferecer esse trabalho para o povo do Mato Grosso do Sul.
O Estado – Como economista, o senhor tem feito críticas à condução fiscal do governo. Qual é, objetivamente, o principal erro que o senhor identifica hoje nas contas do Estado e qual seria a primeira medida econômica que tomaria para corrigi-lo?
Renato Gomes – Os erros, na verdade, não são erros, são crimes que acontecem no caixa do Estado e esses crimes têm sido revelados pela polícia. Agora, existem outros tantos erros de política orçamentária, problema dos supersalários do poder Executivo. Esses supersalários custam R$2 bilhões, o que daria para garantir o suprimento adequado a pelo menos 20 hospitais. Acima do que ganha o governador do Estado, que é R$35 mil, já é muito dinheiro, as pessoas estão ganhando de R$40 mil a R$190 mil todos os meses. Isso é muito grave, é muito injusto, quando a gente comenta isso com o povo do Mato Grosso do Sul, eles também concordam que é injusto. Então, vamos atacar esse que é um dos mais gravíssimos problemas orçamentários.
O Estado – Por que o eleitor deveria enxergar sua candidatura como um projeto efetivamente viável de governo, e não apenas como uma candidatura destinada a apresentar novas ideias ou marcar posição nesta eleição?
Renato Gomes – Porque estamos sendo roubados, estamos diante de um saque e os ladrões estão entrando pelos fundos e já estão assumindo toda a nossa casa. Se aquelas pessoas que se consideram aptas a reverter a situação de injustiça do nosso Estado não se insurgirem contra a malandragem, que tomou posse do patrimônio popular, vamos sucumbir a cada dia que passa. Todo cidadão do Mato Grosso do Sul, eu convoco a olhar e enxergar a possibilidade que temos nas nossas mãos de garantirmos aquela verdadeira esperança, a tão sonhada renovação política.
O Estado – Um dos principais problemas da saúde em Mato Grosso do Sul é o acesso a consultas, exames e atendimento especializado, principalmente para quem mora no interior. Qual é a sua proposta para reduzir as filas e fazer com que o paciente consiga atendimento especializado mais perto?
Renato Gomes – Minha proposta é orçamentária em primeiro lugar, porque se o Hospital de Ponta Porã se tornou uma grande unidade de atendimento, de encaminhamento para outros hospitais. Se o Hospital de Corumbá não funciona, isso significa que existe uma ausência de suprimento para servir essas instalações. Essa ausência acontece porque o governo gasta tanto com assuntos paralelos, que falta o orçamento necessário para garantir a operação dessas instalações. Eu garantirei o suprimento de medicamentos, luvas, lençóis, ventiladores, fitas de glicose, o contingente de técnicos de enfermagem, de enfermeiros, de médicos e o concurso necessário para esses agentes tomarem posse dos seus cargos. Garantindo o orçamento necessário que o povo precisa.
O Estado – Qual será sua prioridade para melhorar a qualidade da educação estadual e, ao mesmo tempo, preparar os estudantes para o mercado de trabalho que está surgindo em Mato Grosso do Sul?
Renato Gomes – Preparar os jovens para o mercado de trabalho é uma tarefa que envolve um encadeamento. Nas escolas, nós precisamos garantir que haja ordem, disciplina, mas que haja humanidade e suprimento de alimentação. O governador tem que se aproximar dos professores, diretores, inspetores, e também dos jovens e alunos. Além de garantir as instalações que são necessárias para os professores desempenharem o seu bom papel, tem que garantir uma política salarial, principalmente da base, que seja mais condizente com aquilo que o DIEESE nos mostra, que é o salário de dignidade, que é o que calcula a cesta básica do país. E temos que levar essa base do governo para próximo do salário de R$ 7 mil, calculado pelo DIEESE.
As crianças precisam aprender a ler bem, escrever, se expressar bem, calcular e conhecer as artes. Se conduzirmos esse projeto, será muito mais fácil delas desempenharem o papel de terem um avanço cognitivo para serem bons trabalhadores. Da mesma forma, os jovens, se forem bem preparados. Mas se o Estado não estiver oferecendo oportunidade de emprego, de nada adianta, ele vai embora daqui, ocupar uma carreira em outro lugar. O nosso Estado precisa garantir também essa oferta de bom trabalho.
O Estado – MS tem uma extensa faixa de fronteira e convive com tráfico de drogas e armas e atuação do crime organizado. Qual será a prioridade do seu governo na segurança pública e o que pretende fazer para reforçar o combate ao crime organizado e a proteção da população?
Renato Gomes – A folha salarial de cabos e soldados nos custa R$ 200 milhões, mas o andar de cima nos custa R$2 bilhões. É perfeitamente possível que o contingente da polícia seja gradualmente estabelecido para aquilo que é necessário para a proteção das nossas vidas. Eu fui atendido por um policial que redigia o depoimento no editor de texto do Word, sem um padrão a ser seguido, até mesmo estético. Eu vi aquela situação e pensei – isso é muito precário, muito artesanal. O governo precisa garantir tecnologia, precisa garantir que o depoimento seja gravado e transcrito imediatamente. O policial pode ficar de braço cruzado fazendo interrogatório e ao final da conversa sai toda a transcrição por texto. Isso tudo pode acontecer, tecnologias de suprimento de armamento, de munição, de investigação, suprimento de gasolina, isso tudo precisa estar bem orçado, com o verdadeiro cuidado da segurança pública dos seus cidadãos.
O Estado – O Estado vive um ciclo de expansão do agronegócio e da indústria, mas também abriga Pantanal, Cerrado, Serra da Bodoquena e importantes recursos hídricos. Como o seu governo pretende conciliar a expansão econômica e a atração de novos empreendimentos com a preservação ambiental?
Renato Gomes – Não há problema em construir uma ferrovia no Pantanal, desde que haja equilíbrio entre a preservação ambiental e a condição econômica e social das comunidades. Precisamos cuidar da natureza, mas também garantir que as famílias que vivem nessas regiões não sejam abandonadas. Eu defendo a reativação das ferrovias, porque há 12 anos nada é feito. Mato Grosso do Sul precisa de um projeto de logística que sirva ao seu povo, aos comerciantes, distribuidores, passageiros e à economia como um todo, e não apenas a determinados conglomerados. Por isso, minha candidatura é de esperança e renovação, para buscarmos um novo caminho.
O Estado – O que o seu governo fará para transformar a Rota Bioceânica em emprego, renda e novos negócios, principalmente nos municípios diretamente impactados pelo corredor?
Renato Gomes – A Rota Bioceânica é uma grande promessa, mas é um projeto mal concebido. Em primeiro lugar, porque esse grande projeto rodoviário é muito caro, o transporte rodoviário é caro. Um projeto que se pretende ser transnacional, transcontinental, atravessar, cortar o continente, ele precisa ser um projeto mais eficiente, mais barato, ou seja, hidroviário e ferroviário. Ele foi concebido do ponto de vista subótimo que a gente chama de economia, é uma concepção que me parece que foi destinada a servir poucos interesses. O que precisamos ter para garantir uma real eficiência para esse Estado, do ponto de vista transcontinental, é um projeto ferroviário, e isso não foi feito.
O Estado – Qual é a sua estratégia para transformar os novos investimentos em empregos de qualidade e aumento real da renda da população?
Renato Gomes – A gente não aproveita nem a mão de obra local, praticamente, são muitos moradores que vêm da região do Nordeste. O que está acontecendo, na verdade, é uma grande distorção da economia do Mato Grosso do Sul para conglomerados empresariais que não pretendem desenvolver a cadeia produtiva dentro do Mato Grosso do Sul. Se o grupo é de fora, a preocupação tem que ser com o real desenvolvimento econômico dentro do Estado. Precisamos na agricultura, diversificar o nosso portfólio agrícola para garantirmos a segurança alimentar do Estado, para que tenhamos autossuficiência alimentar, significa redução do risco da atividade produtiva da agricultura. Se tivermos uma diversificação do nosso portfólio, se não formos apenas refém da floresta, do projeto florestal, do milho e da soja, acabou. Teremos um Estado muito mais seguro, mais rico, inclusive, porque as famílias serão mais independentes.
O Estado – Que setores o seu governo pretende priorizar para diversificar a economia e fazer com que uma parcela maior daquilo que Mato Grosso do Sul produz seja industrializada e gere riqueza dentro do próprio Estado?
Renato Gomes – Precisamos diversificar o portfólio da agricultura, precisamos ser donos do nosso próprio abate. Nas cooperativas, existem linhas muito bem-sucedidas no Brasil, e cabe ao governo de Estado dar o ponto de partida. Precisamos garantir a autonomia, a autossuficiência, precisamos enfrentar a nossa autossuficiência energética. Hoje somos reféns de um outro conglomerado, que é a Energisa, que tem um serviço totalmente insatisfatório. Você tem em Campo Grande uma prestação de serviço que deixou uma cidade de mais de 60 horas sem energia, em muitos pontos da cidade. A autossuficiência energética poderá ser garantida com investimentos trazendo energia proveniente da conversão do lixo, trazendo energia fotovoltaica, fazendo parcerias eventualmente público-privada, onde o governo entra com propriedade de terra, seja propriedade imobiliária rural ou urbana.
É necessário uma política tributária no comércio que seja progressiva e que atenda mais à essencialidade e menos àquilo que é supérfluo. Ou seja, precisamos extrair a arrecadação menos da energia elétrica, menos da água, menos da gasolina, menos do gás de cozinha, menos da cesta básica e mais de outros bens menos indispensáveis. Vamos fazer com que as pessoas sintam um efeito de poder de compra e o comércio vai agradecer.
O Estado – Se eleito, quais serão as três prioridades do seu primeiro ano de governo e de onde virão os recursos para colocá-las em prática?
Renato Gomes – A prioridade número um é restabelecer a dignidade do setor da saúde desse Estado. O cidadão Sul-Mato-Grossense vem sendo humilhado nas unidades de atendimento de saúde. Vale dizer que o Hospital Regional recebe uma tabela SUS, dez vezes superior ao que recebe a Santa Casa. Eu não consigo entender como a Santa Casa é muito mais eficiente do que o Hospital Regional, mas o Hospital Regional é muito mais modesto, muito mais tímido à operação regional do que a da Santa Casa. Então, vai ser uma grande força tarefa dos 100 primeiros dias e também ao longo do ano, para que as UPAs tenham o necessário suprimento de materiais, de recursos humanos, inclusive com concursos que são necessários e projetar tudo isso no orçamento.
Na infraestrutura, vamos revisar os contratos que estão postos sobre nossas estradas, eventualmente fazer como fez o governo do estado do Mato Grosso, criou uma empresa de participação, resgatou o poder de controle das estradas, cuidou e deu manutenção, retirou da iniciativa
privada, que estava apenas explorando aquele povo. E, claro, os recursos sairão de diversos lugares.
Por Fernanda Sá e Brenda Leitte