Dados revelam gastos, concentração de verba e bastidores da disputa estadual
A disputa por cadeiras na Assembleia Legislativa de Mato Grosso do Sul começa a ganhar forma com um movimento que se repete em diferentes regiões: o avanço de candidaturas do interior e da faixa de fronteira, puxado por vereadores, lideranças locais e, principalmente, ex-prefeitos.
Em municípios estratégicos como Ponta Porã, na fronteira com o Paraguai, o cenário já é de pré-campanha. O vereador Puka Valdez, em terceiro mandato, aparece entre os nomes colocados. Ao lado dele, outras quatro lideranças locais também articulam candidaturas, reforçando o peso político da região na disputa estadual.
Esse movimento se repete em outras partes do Estado. Ex-prefeitos como Alan Guedes (Dourados), Hélio Peluffo (Ponta Porã), Marcelo Iunes (Corumbá), Rhaiza Matos (Naviraí) e Odilon Ribeiro (Aquidauana) aparecem como nomes cotados, apostando na força eleitoral construída em seus municípios para alcançar uma vaga no Legislativo estadual.
O cenário, com múltiplas candidaturas e diferentes perfis, mostra uma disputa mais ampla e distribuída pelo Estado. Mas, nos bastidores, uma pergunta se impõe: quanto custa, na prática, chegar à Assembleia?
Levantamento com base nas prestações de contas da última eleição (2022), disponíveis no DivulgaCand, mostra que campanhas vitoriosas para deputado estadual operam em um patamar elevado de investimento. Na prática, os valores variam de R$ 231.387,61 a R$ 1.196.531,35, com campanhas mais competitivas concentradas entre aproximadamente R$ 700.000,00 e R$ 1.100.000,00.
Esse custo está diretamente ligado à estrutura das campanhas. Os dados mostram que os principais gastos se concentram em três frentes: mobilização de rua, com cabos eleitorais e atividades presenciais; marketing, especialmente publicidade por materiais impressos e presença digital; e estrutura, que inclui equipe, assessoria jurídica e contábil.
Além disso, há despesas com deslocamento e logística, especialmente relevantes para candidatos do interior e da região de fronteira, onde a extensão territorial amplia o custo de campanha.
A origem dos recursos também ajuda a entender o cenário. A maior parte do financiamento vem de recursos públicos, por meio do fundo eleitoral e do fundo partidário, distribuídos pelos partidos. Em menor escala, aparecem recursos próprios dos candidatos e doações de terceiros.
É a partir desse modelo que se desenha o raio-x das campanhas vitoriosas.
Entre os maiores gastos, Mara Caseiro, lidera com R$ 1.196.531,35. Em seguida aparecem Jamilson Name, com R$ 1.114.522,40; Lia Nogueira, com R$ 1.050.000,00; Gerson Claro, com R$ 824.565,31; e Pedrossian Neto, com R$ 771.091,20.
O detalhamento dessas campanhas mostra estratégias distintas dentro de um mesmo padrão estrutural. Mara Caseiro concentrou grande parte dos recursos em despesas com pessoal, além de mobilização de rua e materiais impressos. Jamilson Name direcionou cerca de 79.64% do orçamento para militância e mobilização de rua.
Lia Nogueira investiu principalmente em publicidade por materiais impressos e equipe. Gerson Claro priorizou mobilização de rua como principal eixo, enquanto Pedrossian Neto teve maior peso em despesas com pessoal.
A distribuição dos recursos também aparece concentrada. Mara Caseiro recebeu R$ 1.100.000,00; Lia Nogueira, R$ 1.050.000,00; e Jamilson Name, R$ 1.010.000,00, com valores repassados pelas direções partidárias, que podem variar entre instâncias nacionais e estaduais.
Na outra ponta, campanhas mais enxutas também resultaram em eleição. Gleice Jane, declarou gastos de R$ 231.387,61; Lucas de Lima, R$ 250.024,60; e Paulo Corrêa R$ 294.390,29.
A diferença entre os valores evidencia uma característica central da disputa: os candidatos não partem das mesmas condições. O volume de recursos influencia diretamente na visibilidade, na capacidade de mobilização e no alcance das campanhas.
Modelo de financiamento de campanha
Em entrevista ao jornal O Estado, o advogado especialista em direito eleitoral Vinícius Monteiro Paiva explica que essa desigualdade é reflexo do próprio modelo de financiamento. “O fundo eleitoral é distribuído aos partidos conforme critérios legais, mas a divisão interna entre os candidatos é definida pelas próprias legendas”, afirma.
“O partido direciona recursos com base em estratégia política e viabilidade eleitoral, considerando histórico, base e desempenho”, acrescenta. “É comum haver variações significativas entre candidatos do mesmo partido. Isso faz parte da estratégia e não configura irregularidade”.
“As campanhas hoje se estruturam principalmente em mobilização de rua, equipe, material gráfico e presença digital”, diz. “Recursos próprios são permitidos e podem aumentar a competitividade, especialmente para quem recebe menos verba partidária”.
“Campanhas com baixo investimento tendem a ter mais dificuldade de alcançar visibilidade suficiente”, afirma. “A região não define o repasse, mas candidatos do interior e da fronteira enfrentam custos maiores com deslocamento e alcance”, conclui.
Por Danielly Carvalho
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