Mesmo com o voto facultativo para pessoas com 70 anos ou mais, os idosos seguem como o grupo mais presente no processo eleitoral brasileiro. No Estado, esse perfil representa uma parcela expressiva do eleitorado e continua participando das eleições, ainda que com variações relacionadas à idade, condições de saúde e mobilidade.
Conforme dados coletados através do portal do TRE-MS (Tribunal Regional Eleitoral de Mato Grosso do Sul), há aproximadamente 466,6 mil eleitores com 60 anos ou mais, o que corresponde a cerca de 23% do eleitorado total. O levantamento também mostra crescimento contínuo do segmento. Somadas as faixas de 56 a 69 anos e de 70 anos ou mais, o número passou de 523.687 eleitores em 2022 para 574.469 em 2026, alta de aproximadamente 9,7%.
O avanço é mais expressivo entre os eleitores com 70 anos ou mais, que passaram de 171.739 em 2022 para 196.793 em 2026, crescimento de cerca de 14,6%. Já a faixa de 56 a 69 anos também apresentou aumento, passando de 351.948 para 377.676 no mesmo período.
Os dados evidenciam o impacto do envelhecimento populacional no cadastro eleitoral e a consolidação desse grupo como uma fatia relevante do eleitorado sul-mato-grossense.
Especialista aponta limites do impacto político direto
Para o cientista político, Daniel Miranda, o aumento do número de eleitores idosos não significa, automaticamente, maior influência política nas eleições.
Segundo ele, o principal fator que interfere nesse impacto é a abstenção, que tende a ser mais elevada entre os mais velhos. “Se considerarmos idosos pessoas 60+, é preciso lembrar que o voto se torna facultativo para maiores de 70 anos. O que significa que o aumento da expectativa de vida vai elevar o número de pessoas desobrigadas de votar. E, de fato, pelas estatísticas eleitorais, os idosos são a faixa etária com maior abstenção eleitoral”, explica.
Ele avalia que, apesar do crescimento populacional, isso não necessariamente altera o peso eleitoral do grupo. “Embora haja um crescimento da população idosa no Brasil, seu peso demográfico não deve refletir, a princípio, em maior peso eleitoral por causa do desconto resultante da abstenção”, completa.
Sobre a atuação dos partidos políticos, o especialista afirma que ainda não há mudanças estruturais voltadas especificamente para esse público. “Eu não vejo, neste momento, alteração na dinâmica do eleitorado ou nas estratégias dos partidos. Exceto se considerarmos campanhas de redução da abstenção. Mas não tenho recordação de muitas propagandas focadas no público idoso”, diz.
Participação ainda relevante, apesar das limitações
Mesmo com o voto facultativo a partir dos 70 anos, a participação desse público segue considerada relevante pela Justiça Eleitoral. O TRE-MS aponta que eleitores dessa faixa etária continuam comparecendo voluntariamente às eleições e exercendo papel importante no processo democrático.
Além disso, o órgão destaca que há demanda constante por serviços eleitorais entre idosos, como revisão e atualização cadastral, transferência de domicílio eleitoral, regularização da situação eleitoral, emissão de certidões e coleta biométrica.
Para o especialista, a participação tende a ser afetada não apenas pela legislação, mas também por fatores práticos do envelhecimento. “A participação eleitoral é decrescente conforme a idade, não apenas porque o voto é facultativo, mas também devido a dificuldades de locomoção e outras limitações inerentes à idade”, observa.
Ainda assim, ele reforça que o comportamento político desse grupo tende a ser mais estável ao longo do tempo. “Pessoas mais idosas tendem a ter valores mais consolidados e difíceis de alterar. Nesse sentido, são mais conservadoras no sentido de estabilidade de convicções”, explica.
“A gente quer mudança, mas nem sempre vê resultado”
Nas ruas, os relatos mostram um eleitorado ativo, que mantém o hábito de votar, mas também expressa frustrações com a política.
A autônoma Ivanete, de 60 anos, afirma que continua vendo o voto como instrumento de mudança. “A gente busca a transformação, a gente sabe que precisa votar. É um direito nosso, é um dever”, diz. Ela, no entanto, reconhece a frustração com o processo. “A gente espera por mudanças, mas acaba decepcionada”, completa.
Ela também defende maior participação da própria faixa etária. “A nossa geração precisa ser mais participativa, mais ativa no grupo político. Porque, ultimamente, as pessoas acima de 60 anos estão sendo excluídas”, afirma.
João Gomes da Silva, de 71 anos, autônomo, relata envolvimento direto com a política e já foi candidato a vereador. “Eu participo, com certeza. Já saí em três eleições”, conta. Ele diz acompanhar a política diariamente. “Eu acompanho todos os dias, leio jornal, procuro saber o que está acontecendo no Brasil e no mundo”, afirma.
Mesmo assim, demonstra insatisfação com o sistema político. “A gente vota por obrigação, mas não sente que o voto é valorizado. Nosso voto não tem o reconhecimento que deveria”, diz. Para ele, a solução está na continuidade da participação. “Enquanto eu estiver vivo, eu vou votar. Quem não vota, depois não pode reclamar”, completa.
João também critica a falta de desenvolvimento. “Eu quero ver um Brasil melhor, um país para frente, desenvolvido, onde as pessoas tenham oportunidade de crescer financeiramente, no estudo e em tudo. Isso a gente não vê hoje”, afirma.
A pensionista Antônia Selvina, 74 anos, também mantém participação ativa nas eleições e reforça o voto como forma de cobrança. “Eu voto pela melhoria da cidade. A gente precisa saber escolher uma pessoa boa para ficar no meio de nós”, diz.
Mesmo sem acompanhar a política diariamente, reforça que sempre comparece às urnas. “Eu nunca parei de votar”, diz.
Por Danielly Carvalho e Lucas Artur
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