“Vamos lutar até o fim”: famílias de vítimas protestam e cobram justiça por mortes após atendimentos em UPAs

Foto: reprodução
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Sob um céu encoberto e em meio à chuva da manhã de sábado (13), familiares de vítimas que morreram após passarem por unidades de saúde de Campo Grande transformaram a dor em manifestação. Reunidos na Avenida Afonso Pena, eles realizaram uma caminhada para pedir justiça e cobrar melhorias no atendimento das UPAs (Unidades de Pronto Atendimento) da Capital.

O movimento reuniu parentes de Hannah Julia Romero Nolasco, de 8 anos, João Guilherme Jorge Pires, de 9 anos, e Gabriella Vieira Alexandre, de 23 anos. Os três casos ocorreram em abril deste ano e, segundo as famílias, têm em comum a busca por atendimento médico antes das mortes.

Com cartazes e palavras de ordem, os participantes cobraram investigação dos casos e mudanças nos protocolos de atendimento.

“Era a nossa alegria”

Mãe de Hannah Julia, Sara Romeira relatou que procurou atendimento para a filha diversas vezes antes de morrer. Segundo ela, a menina apresentou sintomas gripais, febre alta e, posteriormente, dores pelo corpo.

A primeira busca por atendimento ocorreu na UPA Coophavila. Depois, a família retornou à rede pública em outras ocasiões, desta vez na UPA Leblon, onde o quadro da criança se agravou.
“Ela estava com quase 40 graus de febre. Voltamos várias vezes e ela continuava piorando. Quando retornamos na madrugada, ela já sentia dores nas pernas, nos braços e na nuca. Ficavam pedindo novos exames e não davam o atendimento que ela precisava. Minha filha praticamente morreu nos meus braços”, afirmou.

Emocionada, Sara lembrou da rotina da filha e da alegria que levava para dentro de casa. “Ela gostava de ir para a escola, adorava educação física, dançar e brincar. Era uma menina muito alegre. Era a nossa alegria. Agora ficou um vazio”.

Segundo a mãe, a manifestação representa a busca por respostas e o desejo de que outras famílias não enfrentem a mesma dor. “Não foi um caso isolado. Estamos unidos para buscar justiça. Vamos lutar até o fim”.

“Entramos com ela viva e saímos para o IML”

O pai da menina, Jeremias Rodrigues, também participou do protesto e descreveu o sentimento de revolta diante da perda da filha. “Entramos com ela viva para buscar socorro e saímos de lá para o IML. Isso acabou com a nossa vida”, declarou.

Segundo ele, Hannah apresentava sinais evidentes de agravamento quando foi levada pela última vez à unidade de saúde. “Ela estava pálida, vomitando, sem conseguir ficar em pé. Nós só queríamos que ela fosse atendida. O que vimos foi um total descaso”.

Jeremias afirmou ainda que a família busca esclarecimentos sobre procedimentos realizados durante o atendimento e sobre informações registradas nos documentos médicos. “Nós queremos a verdade. Nada vai trazer nossa filha de volta, mas queremos impedir que outras famílias passem por isso”.

Caso Gabriella

A manifestação também reuniu familiares de Gabriella Vieira Alexandre, de 23 anos, que morreu em 27 de abril após sofrer um aneurisma. A mãe da jovem, Carla Suelen Vieira Reginaldo, relatou que a filha havia procurado atendimento médico dias antes da morte reclamando de fortes dores de cabeça.

“Ela foi ao médico e recebeu remédio para dor. Dez dias depois estávamos enterrando minha filha. Se tivessem investigado melhor, ela poderia estar aqui hoje”, afirmou.

Segundo Carla, é necessário rever os protocolos adotados nos atendimentos de urgência. “No começo chegaram a investigar a morte da Gabriella como feminicídio porque ela foi encontrada em casa, mas os exames apontaram que a causa foi um aneurisma. Minha filha tinha apenas 23 anos, era uma jovem cheia de sonhos, trabalhava, era casada e tinha toda uma vida pela frente. Eu acredito que houve negligência médica”.
O marido de Gabriella, Samuel Gustavo Rodrigues Villalba, disse que a jovem procurou atendimento diversas vezes ao longo dos últimos anos, mas nunca realizou exames mais aprofundados. “Eram consultas, medicação e alta. Nunca pediram uma tomografia. O que queremos é que outras pessoas não morram da mesma forma”.

“Juntos estamos buscando justiça”

A cunhada de Gabriella, Isabely, de 17 anos, afirmou que o grupo pretende continuar mobilizado. “A gente ainda enfrenta a dor do luto, mas também precisa lutar por justiça. Quantas pessoas ainda vão precisar morrer para alguma coisa mudar?”, questionou.

O presidente da Associação de Vítimas de Erros Médicos de Campo Grande, Valdemar Moraes de Souza, acompanhou a manifestação e defendeu a apuração dos casos. Segundo ele, a entidade presta apoio às famílias e acompanha a documentação relacionada aos atendimentos realizados.

“As famílias querem respostas. É preciso que haja investigação e que os fatos sejam esclarecidos”.

 

Por Geane Beserra e Maria Gabriela Arcanjo

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