Explosão do uso de emagrecedores provoca falta de seringas para insulina em farmácias de Campo Grande

Teve unidade na CapItal
que vendeu mais de 30
seringas por dia neste ano - Foto: Allan Gabriel
Teve unidade na CapItal que vendeu mais de 30 seringas por dia neste ano - Foto: Allan Gabriel

Alta na procura por medicamentos para perda de peso, especialmente no mercado clandestino, pressiona estoques e impacta pacientes que fazem tratamentos contínuos

 

O aumento expressivo no consumo de emagrecedores tem provocado um efeito colateral inesperado em Campo Grande: a escassez de seringas para insulina nas farmácias da Capital. O utensílio, utilizado para aplicação subcutânea e para dosagem de medicamentos, tornou-se item raro nas prateleiras.

De acordo com dados do setor farmacêutico, o uso de medicamentos voltados à perda de peso cresceu 88% no Brasil em 2025, movimentando cerca de R$ 9 bilhões em importações. O avanço acelerado da demanda, impulsionado principalmente por promessas de emagrecimento rápido, tem gerado preocupação entre autoridades de saúde.

A Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) proibiu a fabricação, distribuição, importação e comercialização de determinadas canetas agonistas de GLP-1 sem registro sanitário. Segundo o órgão, esses medicamentos não passaram por avaliação de qualidade, eficácia e segurança no país.

Atualmente, cinco medicamentos são autorizados no Brasil para tratamento da obesidade e perda de peso:
Mounjaro (tirzepatida), da Eli Lilly; Olire (liraglutida), da EMS; Poviztra (semaglutida), da Novo Nordisk; Saxenda (liraglutida), da Novo Nordisk; Wegovy (semaglutida), da Novo Nordisk.

Diferentemente dos produtos legalizados, que já vêm com aplicador próprio e sistema de dosagem acoplado, os medicamentos adquiridos no mercado clandestino não acompanham o dispositivo adequado. Assim, consumidores recorrem à compra de seringas para insulina avulsas para realizar as aplicações — prática que, além de ilegal, pode trazer riscos à saúde, como contaminação, dosagem incorreta e efeitos adversos graves.

A equipe de reportagem do Jornal O Estado visitou três farmácias de Campo Grande que confirmaram a escassez. Na rede Drogasil, um funcionário que preferiu não se identificar relatou que a procura começou a aumentar em outubro de 2025. “Posso afirmar que em toda a rede da Capital não há seringas em estoque. Assim que o produto chega, acaba. Temos clientes que pedem para ser avisados quando houver reposição”, afirmou.

Segundo ele, a falta do item tem prejudicado principalmente pacientes com diabetes e pessoas que realizam reposição hormonal. “Afeta diretamente. Já tivemos pacientes diabéticos e outros que utilizam seringas regularmente e não encontraram o produto.”

Na Farmácia Freire, o cenário é semelhante. No início de janeiro, a farmácia recebeu um lote de 500 unidades de seringas, esgotado em apenas 16 dias, uma média de 31 unidades vendidas por dia. Com a alta demanda, o preço também subiu cerca de 30%.

Outra rede consultada foi a Pague Menos. Funcionários afirmaram que a empresa tentou adotar um protocolo de controle na venda, questionando a finalidade do produto, mas a medida tem sido contornada pelos clientes.

“Começamos a perguntar para que seria a seringa. Muitos dizem que é para amigos, colegas ou outras utilidades. Já houve quem afirmasse que tem estoque em casa. Eles evitam dizer que é para aplicar essas canetas emagrecedoras”, relatou um vendedor. Na unidade visitada, também não havia estoque disponível, nem previsão de reabastecimento.

Especialistas alertam que o uso indiscriminado de medicamentos para emagrecimento, sem prescrição e acompanhamento médico, pode causar efeitos colaterais como náuseas, vômitos, hipoglicemia e até complicações pancreáticas. Além disso, a compra de produtos irregulares amplia os riscos sanitários e contribui para o desabastecimento de insumos essenciais à população que depende deles para tratamentos contínuos.

O cenário evidencia como a busca por soluções rápidas para perda de peso tem gerado impactos não apenas individuais, mas também coletivos, afetando diretamente o acesso a produtos básicos de saúde.

 

Ian Netto

 

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