De funcionária a empreendedora: história de esteticista reflete boom do empreendedorismo feminino no Brasil

Foto: reprodução/redes sociais
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Conheça a trajetória da empreendedora que deixou a indústria farmacêutica e recomeçou do zero em Campo Grande

 

Sonhos, necessidades, coragem, determinação e sorte são alguns dos fatores que têm encorajado milhares de brasileiros, sobretudo as mulheres, a abandonarem o regime de trabalho CLT (Consolidação das Leis do Trabalho) e se tornarem empreendedores. De pequenos a grandes, o surgimento de empresas tem batido recordes em todo o Brasil.

O empreendedorismo feminino bateu recorde no Brasil. Mais de dois milhões de pequenos negócios foram abertos por mulheres em 2025, com destaque para os setores de serviços, comércio e indústria.

De acordo com uma pesquisa do Sebrae (Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas), a abertura de pequenos negócios pelo público feminino bateu recorde em 2025. Foram mais de 2 milhões de MEIs e micro e pequenas empresas. O número supera em 320 mil o registrado em 2024 e representa 42% do total das empresas abertas no país nessas modalidades.

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A indústria, seguida de perto pelos serviços e comércio, são os setores mais procurados por elas. Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul e São Paulo lideram o ranking dos estados com mais abertura de empresas por mulheres. Mato Grosso do Sul ocupa o sétimo lugar, com 41,9% de participação feminina na abertura de empresas.

Em Campo Grande, o empreendedorismo feminino cresce copiosamente em bairros residenciais, distante do Centro da cidade, de shoppings e de endereços badalados e, muitas vezes, impulsionado por histórias de superação, coragem e reinvenção.

E é nesse cenário que a esteticista Edi Loureiro construiu seu negócio, partindo praticamente do zero até consolidar sua clientela na capital sul-mato-grossense. A curitibana de 40 anos, de sorriso contagiante e muita simpatia, chegou a Campo Grande em 2022, deixando para trás uma carreira consolidada na indústria farmacêutica em São Paulo para apostar em um novo caminho.

A mudança de Edi para Campo Grande foi motivada inicialmente pelo casamento. Na bagagem, além da mudança, ela trouxe sonhos, grandes expectativas e desafios inesperados.

“Levei um choque cultural quando cheguei. Em São Paulo, percebia mais valorização do profissional. Aqui, precisei conquistar esse reconhecimento”, relata.

Formada em Estética e Administração e atualmente cursando Biomedicina, Edi sempre conciliou o trabalho CLT com atendimentos autônomos. Antes de se tornar empreendedora, atuou em grandes empresas como O Boticário, Sephora, Biolab e Cimed, onde ocupou cargos de liderança.

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Apesar do crescimento profissional, a rotina intensa e a pressão por metas cobraram um preço alto.

“Eu vivia viajando, sem rotina, sem tempo de conseguir realizar cuidados básicos com a saúde. O cargo que eu exercia exigia dedicação full time. Até que, após percorrer três estados em uma semana, tive um colapso e fiquei 46 horas sem memória. Precisei descer até a recepção do hotel para saber em que cidade eu estava. Ali entendi que precisava parar e me cuidar”, conta.

A partir desse momento, Edi pediu demissão e abandonou o regime CLT, decisão que marcou o início da jornada empreendedora. Enquanto morou em São Paulo, abriu uma clínica em sociedade com uma amiga biomédica e farmacêutica. O negócio deu certo e, em pouco tempo, conquistou muitos clientes. Mas, no roteiro da vida, havia chegado a hora de iniciar um novo capítulo. Então, pouco depois, já casada, Edi se mudou para Campo Grande e precisou recomeçar.

Sem rede de contatos na cidade, Edi chegou a Campo Grande já com o intuito de ter seu próprio negócio e apostou em estratégias simples, porém, na maioria das vezes, certeiras: produziu panfletos e contou com a ajuda do marido, que trabalhava em um escritório e, nas horas vagas, como motorista de aplicativo, para distribuí-los. A empresária percorreu bairros e parques da capital oferecendo seus serviços diretamente ao público.

Edi com suas funcionárias, Priscila e Patrícia – Foto: reprodução /redes sociais

“Vim para Campo Grande durante a pandemia, com a cara e a coragem, com muita vontade de trabalhar e fazer dar certo e, mesmo sabendo que não seria fácil, nunca pensei em desistir, porque tinha um objetivo, que felizmente alcancei”, explica.

O primeiro passo foi trabalhar como secretária em uma clínica de estética, com o objetivo de entender o mercado local. Em pouco mais de um mês, tomou uma decisão arriscada: alugou uma sala própria, mesmo sem ter renda suficiente garantida. “Era mais caro que o meu salário, mas eu sabia que precisava me dedicar 100%”, lembra.

A estratégia deu resultado e, em poucos dias, conquistou as primeiras cinco clientes, que seguem com ela até hoje. O crescimento veio no famoso boca a boca, com indicações e atendimentos personalizados.

“Caminhei muito em casas, prédios, durante caminhadas pelo Parque das Nações e, graças a Deus, dois dias depois, já tinha minhas primeiras cinco clientes, que estão comigo até hoje. Em três meses, precisei aumentar os dias de locação do espaço, porque o fluxo de clientes aumentou”, diz Edi.

Depois de seis meses, e com cada vez mais clientes, contratou a primeira funcionária e, atualmente, a equipe conta com três colaboradoras.

Desafios: cultura, valorização e investimento

Entre os principais obstáculos enfrentados, Edi destaca a adaptação ao comportamento do público local, especialmente em relação à valorização dos serviços. “Não é só uma massagem. Existe toda uma estrutura, investimento e preparação. Muitas vezes, isso não é percebido”, afirma.

Outro momento decisivo foi a necessidade de investir em equipamentos. Para ampliar os serviços, recorreu a empréstimos e adquiriu seu primeiro aparelho, avaliado em cerca de R$ 30 mil. Além disso, enfrentou questionamentos relacionados ao fato de ser mulher à frente do próprio negócio.

“Já perguntaram se era meu marido quem cuidava da gestão. Existe uma certa desconfiança, mas hoje não me abala mais. A formação em administração veio pela necessidade de desenvolver meu trabalho e obter crescimento profissional e, sem dúvidas, foi uma escolha acadêmica acertada. Ser administradora me permitiu chegar a grandes cargos em todas as empresas onde trabalhei como CLT, como gerência, supervisão e coordenação de equipe. E me ajudou muito a partir do momento em que me tornei empreendedora. Sempre tive a liderança dentro de mim e gosto de sempre fazer mais e me desafiar, mas ter conhecimento para isso é primordial”, diz.

Economista Daniela Teixeira Dias – Foto: arquivo pessoal

Para a economista Daniela Teixeira Dias, o avanço do empreendedorismo feminino em Mato Grosso do Sul reflete uma mudança estrutural no perfil das famílias e da economia. De acordo com ela, o crescimento é puxado principalmente pelos microempreendimentos individuais e está fortemente ligado à necessidade de geração de renda.

“A gente nota um aumento significativo do número de empreendimentos femininos, principalmente entre os microempreendimentos individuais”, afirma.

Apesar do avanço, a economista aponta desafios importantes, especialmente na gestão e no acesso a recursos de quem quer se tornar empreendedor. Segundo ela, a mistura entre contas pessoais e empresariais é um erro recorrente e está entre as principais causas de fechamento precoce dos negócios.

“Ainda falta bastante planejamento financeiro, e esse é um dos principais gargalos. Muitos empreendimentos acabam não tendo sustentação no longo prazo por conta dessa falta de separação”, alerta.

Daniela também chama atenção para desigualdades no acesso ao crédito, influenciadas pela renda historicamente menor das mulheres. “Isso pode indicar maiores riscos para as instituições financeiras e, consequentemente, tornar o crédito mais caro”, pontua. A informalidade, segundo ela, ainda é uma etapa comum no início dessas atividades, funcionando como alternativa imediata de renda antes da formalização.

No cenário macroeconômico, a orientação é de cautela, embora existam oportunidades. Daniela explica que, apesar de indicadores controlados, há fatores inflacionários em itens essenciais que impactam diretamente o orçamento das famílias.

“O cenário exige prudência, principalmente pelos impactos no poder de compra”, afirma. Ainda assim, ela vê o empreendedorismo feminino como um motor importante para a economia. “Ele gera efeitos multiplicadores, fortalecendo não só a renda, mas também a comunidade”, destaca. Para os próximos anos, a tendência é de estabilidade econômica, com crescimento moderado no estado, impulsionado por investimentos e pelo agronegócio. “Mesmo em um cenário de cautela, existem oportunidades, e planejar é essencial para aproveitá-las”, conclui.

Profissionalização e gestão

Para estruturar melhor o negócio, Edi buscou apoio no Sebrae, onde recebeu orientação em gestão financeira e precificação.

“Procurei o Sebrae em 2025 para a questão administrativa, porque domino bem a parte comercial. Eu sabia vender, mas não sabia calcular corretamente meus custos. A orientação que obtive por meio do Sebrae fez toda a diferença. Tive assessoria para processos e financeira e, a partir daí, vi os resultados da empresa melhorarem”, explica.

Sebrae/MS, em Campo Grande – Foto: reprodução

Mato Grosso do Sul contabiliza atualmente 355.199 empreendedores formalizados, somando MPE (Micro e Pequenas Empresas) e MEIs (Microempreendedores Individuais), segundo levantamento da Receita Federal atualizado em março de 2026. No universo das MPEs, são 176.040 sócios, dos quais 70.601 são mulheres, representando 40,1%. Já entre os MEIs, o total chega a 179.967 empreendedores, sendo 80.715 do público feminino, o equivalente a 44,8%.

Somente em 2026, foram abertas 21.721 micro e pequenas empresas no estado. Apesar do desempenho positivo, a tendência é de desaceleração no ritmo de novos registros ao longo dos próximos meses, após um começo de ano mais aquecido, especialmente em janeiro.

Para o diretor-superintendente do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas em Mato Grosso do Sul, Claudio Mendonça, o acompanhamento técnico faz diferença para quem deseja iniciar um negócio.

Claudio Mendonça

Foto: Divulgação/Sebrae

“A orientação antes de iniciar um negócio é fundamental para transformar um sonho em um projeto viável. Empreender sem planejamento pode trazer riscos que poderiam ser evitados com o apoio certo”, afirma.

Ele destaca que o Sebrae disponibiliza capacitações, cursos e consultorias que acompanham o empreendedor desde a fase inicial da ideia até a consolidação do empreendimento.

Dados da Receita Federal também apontam que os segmentos com maior concentração de pequenos negócios no estado são o comércio varejista de vestuário e acessórios, com 18.721 empresas, seguido por atividades de cabeleireiros, manicure e pedicure (13.801), obras de alvenaria (11.981), promoção de vendas (11.531) e transporte rodoviário de carga (8.592). Mesmo com a desaceleração gradual na abertura de empresas, Mato Grosso do Sul mantém potencial de crescimento, impulsionado pelo cenário econômico recente e pela facilidade no processo de formalização.

Sede do CRA-MS – Foto: divulgação

O crescimento do empreendedorismo feminino em Mato Grosso do Sul tem evidenciado a importância da gestão estruturada para garantir a sustentabilidade dos negócios. De acordo com a presidente da Comissão ADM Mulher do CRA-MS (Conselho Regional de Administração de Mato Grosso do Sul), administradora Elaine Padilha Barreto Alves, muitas empreendedoras conseguem bons resultados em vendas, mas ainda enfrentam dificuldades na condução estratégica das empresas. “O que mais se observa não é falta de ideia ou de venda. Muitas empreendedoras vendem bem. O problema está na gestão do que acontece depois da venda”, afirma. Ela ressalta que princípios como planejamento, organização e controle são fundamentais, já que “sem esses pilares, o negócio depende da rotina e do cansaço da dona. Com eles, passa a ter clareza, controle e capacidade de se manter e crescer com segurança”.

Na avaliação da especialista, a profissionalização passa pelo uso consistente de ferramentas básicas de gestão. “O primeiro é o controle de fluxo de caixa. Sem isso, ela não sabe se está tendo lucro ou só movimentando dinheiro”, destaca. Elaine também aponta a precificação correta, o planejamento de metas e a organização de processos como pontos-chave para que os negócios deixem a informalidade e se tornem competitivos. A ausência desse conhecimento, segundo ela, compromete o crescimento: “Mesmo com potencial de mercado, a empresa trava porque não tem estrutura para suportar o crescimento”. O CRA-MS, inclusive, identifica lacunas frequentes na formação administrativa, o que reforça a necessidade de capacitação contínua.

Apesar dos desafios, o cenário é de avanço. O empreendedorismo feminino segue em expansão no estado, com participação significativa na abertura de novas empresas. Para os próximos anos, a tendência é de fortalecimento de negócios com propósito e maior presença feminina em áreas estratégicas. Ainda assim, Elaine pontua que é preciso avançar em equidade no ambiente empresarial. “A equidade precisa ser tratada como um tema de gestão, e não apenas como discurso institucional”, enfatiza. Como mensagem às mulheres que desejam empreender, ela orienta: “Busquem conhecimento técnico, pois reduz o medo do desconhecido. Procurem redes de apoio e façam planejamento”.

Qualidade de vida e propósito

Se antes a rotina era marcada por pressão e exaustão, hoje a empreendedora destaca a qualidade de vida como uma das principais conquistas.

Em quatro anos de empreendimento, Edi está no terceiro endereço, atualmente localizado no Jardim São Bento, e pontua a mudança brusca de vida profissional. Mais do que isso, Edi encontrou propósito no trabalho.

“Não é fácil empreender. Eu estava habituada a uma rotina intensa de viagens internacionais, hotéis, benefícios como cartão corporativo, altos salários, e a atual realidade é desafiadora, mas, para quem gosta, dá para superar tudo. Hoje tenho liberdade para cuidar de mim, organizar meus horários e estar presente em momentos importantes. Com meu trabalho, não vendo apenas um procedimento, eu proporciono bem-estar, cuidado. Meu propósito é servir as pessoas”, define.

Foto: reprodução/redes sociais

Planos para o futuro

A satisfação profissional da esteticista Edi Loureiro se sobrepôs a todas as adversidades que surgiram ao longo da jornada. E hoje, ao empreender, ela afirma que percebe cuidar do outro de forma eficaz. Entre os próximos passos, estão a abertura de um espaço próprio e o investimento em novas tecnologias, com foco em tratamentos corporais. Um dos projetos envolve a aquisição de um equipamento avaliado entre R$ 70 mil e R$ 80 mil.

“Daqui para frente, o meu desejo é conquistar um espaço próprio e continuar investindo em tecnologia, para somar ao que já entregamos para os pacientes. Sobretudo, aqui vai um spoiler [risos]: uma tecnologia de ultrassom, afinal, estamos em uma era pós-Mounjaro, para tratar as pacientes que emagreceram demais e ficaram com flacidez”.

Para quem sonha em ter o próprio negócio, Edi é direta:

“Comece com o que você tem. Não espere o momento perfeito. Vai ser difícil, mas desistir não é uma opção! Estude sempre, se atualize, tenha domínio na sua área de atuação. A partir do momento que você descobre qual é o seu propósito, a jornada fica um pouco mais leve. Felizmente, consigo realizar isso na minha profissão. Quando comecei, não tinha nem jaleco para usar, mas até isso foi providencial: ganhei o primeiro de uma cliente. Eu acredito que o meu propósito é servir o outro. Trabalhei horas e horas de graça para apresentar meu trabalho, e a cliente marcava mais sessões, indicava para outras pessoas e foi dando certo.”

“O meu maior desafio foi a troca de estados, quando vim de São Paulo para Mato Grosso do Sul: a adaptação, o conhecer os costumes locais, o ritmo da cidade e o valor comercial dos procedimentos que oferecemos. Hoje, quatro anos depois, me sinto orgulhosa por ter conquistado meu espaço no mercado campo-grandense, buscando sempre oferecer o melhor, agregar qualidade e tecnologia para meus clientes e poder olhar orgulhosa para o negócio como um todo e ver que consigo gerar empregos e viver do que amo. Nada veio fácil, mas tudo valeu a pena.”

 

 

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