Maternidade: mães na escala 6×1 não têm pausa entre o trabalho e a casa

FOTO: NILSON FIGUEIREDO
FOTO: NILSON FIGUEIREDO

Trabalhadoras dizem que a jornada não termina no expediente e que a folga semanal é ocupada por tarefas domésticas

“No domingo ainda tem casa para limpar, roupa e organização. O tempo com os filhos fica muito curto”, diz a comerciante Vitória Viltorje, 26, que trabalha no comércio desde os 19. A rotina que ela descreve é a da escala 6×1, modelo predominante em setores como comércio, limpeza, hotelaria e serviços, onde a presença feminina é majoritária.

Na prática, são seis dias de trabalho remunerado e um dia de folga. Para muitas trabalhadoras, esse intervalo não representa descanso. Ele é ocupado por tarefas domésticas, cuidados com filhos e organização da casa. A jornada se estende para além do expediente e avança sobre o tempo que seria de recuperação.

Vitória relata que trabalha em feriados e datas comemorativas. “A gente trabalha em todas as datas: Natal, Ano-Novo, Páscoa. E quando chega o domingo, ainda tem tudo para fazer em casa”, afirma. Mãe de quatro filhos, diz que o tempo com a família se concentra entre uma tarefa e outra.

Entre trabalhadoras do comércio, a percepção se repete. “O sábado e o domingo deveriam ser para descanso e família”, afirma Andrea Elizabeth, que atua na divulgação de uma loja. Ela defende mudança na organização da jornada e avalia que o modelo atual reduz o tempo fora do trabalho. “Com seis dias de trabalho, sobra pouco tempo para a gente mesma”, diz.

Neste domingo, de Dia das Mães a data ganha ainda mais destaque: quando muitas mães se quer celebram a data ao lado de quem deu esse título à elas.

Já Yasmin Loureiro, 18, que trabalha em uma ótica e estuda, relata dificuldade para conciliar as atividades. “No domingo a gente quer descansar, mas não dá tempo”, afirma. Segundo ela, o único dia livre não é suficiente para recuperar a rotina nem acompanhar os estudos.

Debate no Congresso
O tema da jornada de trabalho foi discutido em audiência pública na Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher da Câmara dos Deputados. Parlamentares e representantes de entidades sindicais trataram dos efeitos da escala 6×1 sobre saúde, tempo livre e permanência das mulheres no mercado de trabalho.

Segundo estimativas apresentadas no debate, a soma entre trabalho remunerado e tarefas domésticas pode ultrapassar 67 horas semanais. O dado foi usado como referência para discutir a sobrecarga entre mulheres em diferentes ocupações.

A deputada Erika Hilton (Psol-SP) afirmou que o aumento da participação feminina no mercado de trabalho não foi acompanhado por mudanças na estrutura das jornadas. “Não adianta aprovar a escala 6×1 numa perspectiva igualitária e manter uma lógica em que a mulher não consegue usufruir do tempo fora do trabalho”, disse.

Trabalho dentro e fora de casa
Na audiência, foi destacado que a folga semanal, quando existe, é em grande parte ocupada por tarefas domésticas. Isso reduz o tempo de descanso contínuo e reforça a sensação de jornada permanente.

Representantes de entidades sindicais apontaram impactos na saúde física e mental das trabalhadoras, com relatos de estresse e uso recorrente de medicamentos. A avaliação é de que a dupla jornada, no trabalho e em casa, permanece como um dos principais fatores de sobrecarga.

O debate também chamou atenção para a composição do mercado de trabalho. Mulheres negras e pardas são maioria em atividades domésticas e em funções de base no comércio e nos serviços, setores marcados por maior informalidade e menor proteção trabalhista.

Jornada em discussão
No Congresso Nacional, uma comissão especial analisa propostas de redução da jornada semanal para 36 horas, com possibilidade de adoção de modelos de quatro dias de trabalho por semana. As propostas são discutidas em audiências com trabalhadores, empregadores e especialistas.

Defensores da mudança afirmam que a redução da jornada pode contribuir para diminuir o adoecimento e reorganizar o tempo de vida das trabalhadoras. Representantes do setor produtivo defendem avaliação dos impactos sobre custos e funcionamento das atividades econômicas.

Por Djeneffer Cordoba

 

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