Campo Grande está entre capitais menos endividadas do País, mas famílias relatam dificuldades para fechar as contas

Foto: Marcello Casal jr/Agência Brasil
Foto: Marcello Casal jr/Agência Brasil

Moradores da Capital afirmam que alta dos preços, juros e custo de vida têm levado ao controle rígido dos gastos

Campo Grande aparece entre as capitais brasileiras com menor nível de endividamento das famílias, segundo aponta a pesquisa chamada de ‘Radiografia do Endividamento’, divulgado pelo Fecomércio SP. O estudo mostra que a capital sul-mato-grossense mantém índices abaixo da média nacional, cenário que contrasta com o avanço das dívidas em outras regiões do país.

Rita Spampinato é dona de casa e mora com o marido em uma fazenda próxima à Capital. Ela conta que, devido aos altos preços, tem controlado os gastos familiares para evitar dívidas futuras.

“Então, não estamos comprando mais nada. Nesses tempos agora, estamos evitando fazer dívida e mantendo só o básico mesmo. Eu tenho quase 30 animais para sustentar, então, se eu comprometo a renda da minha casa com esses custos, isso afeta eles”, afirma a dona de casa.

Após problemas anteriores com bancos, ela também relata que, adecidiu abandonar o uso do cartão de crédito. “Eu já tive problema também com banco e não estou tendo cartão de crédito agora. É para evitar outro problema também”, conta Rita.

Os dados reforçam uma tendência observada nos últimos anos. Entre 2022 e 2024, Campo Grande já figurava entre as capitais com menor crescimento da inadimplência no Brasil, ao lado de cidades como Goiânia, Salvador e Belém.

Em março deste ano, o índice chegou a 70,1%, segundo a Peic (Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor). O levantamento considera contas como cartão de crédito, financiamentos, empréstimos e carnês de lojas.

Mesmo com o crescimento recente, especialistas avaliam que Campo Grande ainda apresenta situação mais equilibrada em relação a outras capitais brasileiras. O cartão de crédito segue como principal responsável pelas dívidas das famílias, principalmente entre consumidores de maior renda. Já entre as famílias com menor poder aquisitivo, os carnês de lojas continuam sendo a modalidade mais comum.

Outro indicador que chama atenção é o avanço das contas em atraso. Dados divulgados neste ano mostraram crescimento de 18,82% no volume de dívidas vencidas em Campo Grande na comparação anual, acima da média regional. A faixa etária entre 30 e 39 anos concentra o maior número de inadimplentes.

Gasto apenas com o necessário

Ainda assim, economistas apontam que o controle do endividamento em Campo Grande está relacionado ao perfil de consumo mais conservador das famílias e ao crescimento econômico registrado em Mato Grosso do Sul nos últimos anos, impulsionado principalmente pelo agronegócio e pelo setor de serviços.

A assistente educacional, Edithe de Souza, explicou a reportagem que administra cuidadosamente a renda familiar para evitar futuras dívidas.

“A gente vai vendo o que pode comer hoje, o que pode comprar amanhã, o que é necessário, se realmente precisa dentro de casa ou não. Porque o nosso dia a dia está cada vez mais difícil. Cada dia que a gente acorda, já pensa no que vai comer amanhã. É preocupação o tempo todo: com dívidas, saúde, casa, família e remédios. Se a gente não se organiza e não separa o que é de cada coisa, acaba criando mais dívidas”, afirma Edithe.

Ela conta que, mesmo evitando o cartão de crédito, acaba utilizando a modalidade em compras de valores mais altos, mas sempre observando a quantidade de parcelas e os juros.

“Hoje eu prefiro não parcelar e comprar à vista. Quando é algo de valor maior, no máximo eu parcelo em três vezes. Porque são tantos juros que, no fim, você acaba pagando o dobro”, explica a assistente.

Já para Eneir da Silva, assistente social e recrutadora, mesmo quando as promoções parecem atrativas, é preciso repensar antes de comprar.

“A gente olha as promoções e parece que vai ser legal, mas, quando para para fazer a conta, vê que está tudo caro e que não vale a pena”, explica a assistente social.

Eneir afirma que, para ter uma qualidade de vida confortável, seria necessário receber acima de três salários mínimos. Ainda assim, segundo ela, as dívidas continuam presentes na rotina de muitas famílias.

“Para viver bem, com conforto, teria que ganhar mais de três salários mínimos. Abaixo disso, a pessoa acaba precisando trabalhar em dois empregos para dar conta. E, mesmo assim, para manter um padrão de vida, você acaba se endividando. Parece que nunca consegue dar um passo além daquilo que precisa para sobreviver”, conclui.

Apesar do desempenho considerado positivo em comparação com outras capitais, o endividamento dos moradores da Capital apresentou aumento gradual nos últimos anos. Pesquisa da CNC (Confederação Nacional do Comércio) apontou que, em dezembro de 2024, cerca de 65% das famílias campo-grandenses tinham algum tipo de dívida parcelada. Já no fim de 2025, esse percentual subiu para 68,6%.

Por Ian Netto

 

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