Força, foco e recomeço: mulheres transformam empreendedorismo em saída da violência doméstica

Gloria

Sobrevivente de tentativa de feminicídio, professora de educação física criou programa que une atividade física, acolhimento emocional e autonomia financeira para ajudar mulheres a romperem ciclos de violência

Entre pneus, pallets, garrafas plásticas, matérias recicláveis e exercícios ao ar livre, dezenas de mulheres seguem os comandos da professora de educação física Gloria Antunes em Ponta Porã, município na fronteira com o Paraguai e a 329 quilômetros de Campo Grande.

O que nasceu como uma renda extra depois do expediente no serviço público se tornou um espaço de recomeço para vítimas de violência doméstica.

Algumas chegam em busca de emagrecimento. Outras, tentando sobreviver emocionalmente. Foi observando as dores silenciosas das próprias alunas que Gloria percebeu que os treinos já não eram apenas sobre atividade física. “Quando a gente está dentro do contexto, não percebe que está sofrendo violência”, relembra.

Hoje, dez anos depois de sobreviver a uma tentativa de feminicídio, ela transformou a própria trajetória em um projeto de apoio a mulheres em situação de vulnerabilidade no município que faz fronteira com o Paraguai. O programa, que até então era chamado de “Você na Medida Certa”, reúne atividade física, desenvolvimento emocional, espiritualidade e educação financeira como ferramentas de reconstrução pessoal.

Mais do que incentivar hábitos saudáveis, a iniciativa tenta devolver autonomia para mulheres que chegaram ao limite da dependência emocional e financeira.

“Tudo começa quando a mulher passa a acreditar que não é capaz. O agressor convence-a de que vai passar fome, de que não consegue criar os filhos sozinha, de que não sabe fazer nada. O empreendedorismo ajuda justamente a reconstruir essa confiança”, afirma Gloria.

A história do programa começou de forma improvisada, muito antes de ganhar nome, identidade visual ou planejamento de negócio. Na época, Gloria trabalhava durante o dia no município, atuando com idosos na área do esporte.

À noite, atendia mulheres em uma academia como personal. Aos poucos, as próprias alunas começaram a divulgar o trabalho. Uma chamava a outra Chegou um momento em que eu não conseguia mais atender dentro da academia.”

Sem espaço para ampliar os treinos, ela decidiu levar as aulas para parques e áreas abertas de Ponta Porã. “Na academia, eu atendia no máximo oito mulheres. No ar livre, eu conseguia colocar 50, 80 mulheres treinando ao mesmo tempo. Foi ali que percebi que poderia alcançar mais gente.”

Mas foi justamente nesse período que as agressões físicas começaram. Ao tentar denunciar o então companheiro pela primeira vez, Gloria afirma ter encontrado despreparo no atendimento policial.

“O policial me deixou de lado para escutá-lo. Não fizeram registro de nada. Depois disso, fiquei mais quatro anos vivendo violência doméstica.”

Anos depois, já com mudanças na Lei Maria da Penha, ela conseguiu romper o relacionamento. Mas, meses após a separação, como em muitos dos casos, sem aceitar o fim, o ex-companheiro tentou matá-la.

“Foi quando entendi que precisava reconstruir minha vida em todas as áreas. Física, emocional, espiritual e financeira.”

Foi também nesse período que ela percebeu que muitas mulheres que participavam dos aulões carregavam dores parecidas.

“Elas chegavam destruídas emocionalmente, sem autoestima, sem acreditar que conseguiam sobreviver sozinhas.”

O que começou apenas como treino funcional passou a incorporar rodas de conversa, tarefas de desenvolvimento emocional, orientações espirituais e educação financeira.

“Eu perguntava: ‘o que você sabe fazer?’. Muitas respondiam que não sabiam nada. Mas sabiam fazer bolo, crochê, sobrancelha, maquiagem, doce. Só não conseguiam enxergar valor nisso.”

Segundo Gloria, o empreendedorismo começou a aparecer como ferramenta de transformação justamente porque muitas mulheres tinham medo de sair de relações violentas sem possuir renda própria.

“Tudo começa no financeiro e depois vira emocional. O agressor fala que ela vai passar fome, que não vai conseguir criar os filhos. A mulher deixa de acreditar nela mesma.”

Violência em números

A história de Gloria e da Maria se somam a uma estatística alarmante em Mato Grosso do Sul. Dados do Monitor da Violência contra a Mulher, da Secretaria de Estado de Justiça e Segurança Pública, apontam que o Estado já registrou 8.450 casos de violência doméstica apenas neste ano, até 22 de maio. Somente em Ponta Porã foram 237 ocorrências.

O número de medidas protetivas de urgência já ultrapassa 8 mil solicitações em 2026. O Estado também contabiliza 13 feminicídios neste ano.

Em 2025, Mato Grosso do Sul registrou 39 feminicídios, um dos maiores números desde o início da série histórica, em 2016, atrás apenas de 2020, com 40 casos, e de 2022, com 44 mortes.

Neste cenário, empreendedorismo e autonomia financeira passaram a integrar estratégias de fortalecimento e prevenção da violência.

“O agressor convence a mulher de que ela não consegue sobreviver sozinha. O empreendedorismo ajuda justamente a reconstruir essa confiança” – Gloria Antunes

A virada que transformou o projeto em negócio

Durante quase dez anos, Gloria manteve os encontros de forma informal. O projeto ainda não possuía estrutura empresarial definida, apesar de já mobilizar dezenas de mulheres.

A mudança começou em 2023, durante um evento do Sebrae-MS voltado ao empreendedorismo.

Na ocasião, Gloria contou ao público sobre os treinos e o trabalho desenvolvido com mulheres em situação de vulnerabilidade. Ao fim da palestra, foi procurada por um consultor da instituição.

“Ele falou: ‘Você já tem um produto pronto nas mãos. Só precisa organizar e estruturar isso’.”

A conversa marcou o início de uma nova etapa. Com apoio do Sebrae, Gloria passou a participar de mentorias, consultorias e capacitações voltadas ao desenvolvimento do projeto. O programa ganhou identidade mais definida, planejamento estratégico e passou por um processo de reposicionamento.

Foi nesse momento que nasceu oficialmente o “Mulheres na Medida Certa”. “O projeto já existia, mas eu ainda não o enxergava como um negócio escalável.”

Além da mudança no nome, a iniciativa também ganhou nova identidade visual, reformulação metodológica e iniciou o processo de digitalização.

“Antes era algo muito presencial, muito intuitivo. O Sebrae ajudou a organizar tudo.”

Atualmente, Gloria trabalha na construção da plataforma online do programa. Os conteúdos estão em fase de gravação e alimentação do sistema, que reunirá aulas físicas, materiais de desenvolvimento emocional, educação financeira, empreendedorismo e espiritualidade.

A ideia é ampliar o alcance do projeto para mulheres de diferentes cidades e até outros países. “Hoje eu consigo atender mulheres de Campo Grande, Ponta Porã, Curitiba e até do Paraguai. Com a plataforma, o objetivo é alcançar muito mais gente.”

O programa terá duração de 18 meses e funcionará por assinatura mensal. “Eu sempre falo para elas: empreender não é ter coragem e largar tudo sem planejamento. É construir com responsabilidade.”

Enquanto grava vídeos para a nova plataforma, Gloria diz enxergar sentido no sofrimento que viveu. “Hoje eu entendo que tudo aquilo teve um propósito. Eu as ensino a transformarem dor em recomeço.”

Muito além da renda

Hoje, Gloria acompanha mulheres presencialmente e também de forma online. Algumas vivem em Mato Grosso do Sul. Outras, em diferentes estados e até fora do país. Mais do que atividade física, ela diz que tenta reconstruir perspectivas.

“Todas as mulheres chegam mortas em alguma área. Algumas na parte emocional. Outras na financeira. Outras na espiritual. O nosso trabalho é mostrar que elas podem recomeçar.”

Ao olhar para trás, Gloria diz enxergar no empreendedorismo a possibilidade que muitas mulheres procuram para sobreviver.

“Quando uma mulher entende que consegue sustentar os filhos e reconstruir a própria vida, ela finalmente percebe que pode sair daquele ciclo.”

Da violência à independência financeira

Maria*, 38 anos, mãe de um menino autista, prefere não revelar a identidade por ainda temer represálias do ex-companheiro. Com medida protetiva em vigor, ela afirma que a autonomia financeira foi decisiva para conseguir romper o relacionamento abusivo.

Hoje atuando na área da estética, ela atribui parte dessa transformação ao apoio recebido no programa coordenado por Gloria Antunes.

“Eu não sabia fazer nada. Foi com o apoio da Gloria que comecei a fazer cursos gratuitos na área da estética, como design de sobrancelhas e lash designer. Há pouco mais de um ano conquistei minha independência financeira e consegui sair do relacionamento”, relata.

Segundo Maria, o processo de reconstrução ainda está em andamento.

“Não foi fácil. Ainda tenho medo do meu ex-companheiro e por isso tenho medida protetiva. Mas hoje consigo me sustentar e cuidar do meu filho.”

Embora já atenda clientes regularmente, ela ainda trabalha na informalidade. A próxima meta é formalizar o próprio negócio.

“Quero ter meu CNPJ. Estou me organizando para que isso aconteça o mais rápido possível.”

*Nome fictício para preservar a identidade da entrevistada.

Crescimento do empreendedorismo feminino

Dados da Receita Federal apontam que Mato Grosso do Sul possui atualmente 160.087 mulheres empreendedoras. Elas representam cerca de 42% dos empresários do Estado.

Segundo a coordenadora de Atendimento e Relacionamento com o Cliente do Sebrae-MS, Lucielle Lima, o Estado aparece entre os destaques nacionais na abertura de pequenos negócios liderados por mulheres. Cerca de 41,9% dos novos empreendimentos abertos em Mato Grosso do Sul foram iniciados por mulheres.”

Apesar do crescimento, ela afirma que desafios ainda dificultam a consolidação desses negócios. “Acesso ao crédito, dupla jornada, insegurança financeira e dificuldade de acesso a mercados ainda são obstáculos importantes. Muitas mulheres conseguem abrir negócios, mas ainda enfrentam dificuldade para mantê-los sustentáveis no médio e longo prazo.”

Lucielle destaca que a dependência financeira continua sendo um fator determinante para permanência de mulheres em relações violentas. “Sem renda própria, muitas permanecem em relações abusivas por falta de alternativas para recomeçar. Por isso, empreendedorismo, capacitação e geração de renda têm papel fundamental no fortalecimento da autonomia feminina.”

Segundo ela, o Sebrae percebe aumento na procura por capacitações entre mulheres em situação de vulnerabilidade social. “Esse movimento acompanha uma tendência global, em que mulheres buscam cada vez mais qualificação e empreendedorismo como caminho de autonomia e reinserção econômica. O empreendedorismo sozinho não resolve o problema da violência, mas pode ser um elemento decisivo dentro de uma rede de apoio mais ampla.”

“Sem renda própria, muitas mulheres permanecem em relações abusivas por falta de alternativas para recomeçar” – Lucielle Lima, coordenadora do Sebrae-MS

Rede de apoio e capacitação

Em Campo Grande, a Semu (Secretaria Executiva da Mulher) mantém uma rede de capacitação voltada ao público feminino, com cursos, consultorias e encaminhamento para qualificação profissional. Há um ano, a estrutura passou a contar também com a Sala da Mulher Empreendedora, criada em parceria com o Sebrae-MS.

Desde a inauguração, em maio do ano passado, até dezembro, a Sala realizou 301 atendimentos. Neste ano, entre janeiro e 27 de maio, outras 201 mulheres já buscaram apoio no espaço.

Segundo Waleska Borges, responsável pela Sala da Mulher Empreendedora, muitas dessas mulheres chegam sem qualquer informação sobre formalização ou independência financeira.

“Elas acham que abrir um negócio é burocrático ou caro demais. Muitas não sabem que conseguem abrir um MEI gratuitamente.”

As áreas mais procuradas são estética, beleza e alimentação. “Grande parte busca uma forma rápida de gerar renda.”

Boa parte das mulheres atendidas pela Sala chega encaminhada pela Escap (Escola de Capacitação para Mulheres). Segundo a coordenadora da escola, Rafaela Maia, mais de 1,6 mil mulheres passaram pelos cursos desde março de 2025.

Pela experiência em sala de aula, ela afirma que a maioria das participantes carrega algum histórico de violência.

“Pela experiência nas salas de aula, cerca de 70% das mulheres atendidas já passaram por algum tipo de violência, seja psicológica, emocional, patrimonial ou física.”

Segundo Rafaela, muitas ainda não conseguem identificar que vivem em relações abusivas.“Às vezes a violência aparece na insegurança, na dependência emocional ou financeira. Muitas chegam sem acreditar na própria capacidade.”

Na prática, Waleska afirma que a autonomia financeira costuma ser determinante para o rompimento do ciclo de violência. “De todos os casos que a gente soube que envolviam violência, elas falavam a mesma coisa: se tivessem independência financeira, teriam saído antes. Muitas permanecem até conseguirem alguma renda ou uma forma de sustento para recomeçar.”

“A mulher deixa de se enxergar sem valor”

Para a psicóloga Fernanda Camargo, a dependência financeira ainda aparece como um dos principais mecanismos de controle dentro das relações abusivas.

“A autonomia financeira, para mulheres que vivenciam violência doméstica, é muito mais do que sair da dependência econômica do agressor. É uma trajetória de reconstrução da autoestima, da liberdade e da identidade”, afirma.

Segundo ela, muitas vítimas permanecem nas relações violentas por medo de não conseguirem sustentar os filhos ou reconstruir a vida sozinhas.

“O agressor utiliza a dependência financeira como instrumento de manipulação. Isso reforça o ciclo da violência e dificulta o rompimento da relação.”

Fernanda explica que o empreendedorismo pode representar um ponto de virada emocional para essas mulheres.

“Quando elas encontram uma forma de gerar renda, passam a desenvolver sensação de competência, autonomia e capacidade produtiva. Depois de anos sendo desvalorizadas, voltam a acreditar que conseguem escrever a própria história.”

A psicóloga ressalta ainda que os impactos alcançam os filhos.“Quando uma mulher conquista autonomia, ela transforma também a realidade das futuras gerações.”

“Quando a mulher gera renda própria, ela amplia sua capacidade de decisão e ganha liberdade para reconstruir a vida” – Fernanda Camargo, psicóloga

Violência contra mulheres em Mato Grosso do Sul

• 8.450 casos de violência doméstica registrados em 2026
• 237 ocorrências em Ponta Porã
• Mais de 8 mil medidas protetivas solicitadas
• 13 feminicídios registrados neste ano
Fonte: Sejusp-MS

Mulheres avançam nos pequenos negócios

• 160.087 mulheres empreendedoras em MS
• Elas representam 42% dos empresários do Estado
• 41,9% dos novos negócios abertos em MS foram criados por mulheres
• Mulheres representam cerca de 38% dos donos de negócios no Estado
Fonte: Receita Federal / Sebrae-MS / GEM

 

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