Sesau aponta crescimento da demanda e especialista alerta para perda de controle, isolamento e prejuízos financeiros
O avanço dos jogos digitais e das apostas online já reflete diretamente na rede pública de saúde em Campo Grande. Dados da Sesau (Secretaria Municipal de Saúde) mostram que 68 atendimentos médicos relacionados ao uso problemático de jogos e apostas digitais foram registrados entre janeiro e março de 2026 nos CAPS (Centros de Atenção Psicossocial) da Capital.
Segundo a Sesau (Secretaria Municipal de Saúde), o acompanhamento é contínuo e realizado por equipes multiprofissionais. “A Sesau informa que tem acompanhado e prestado assistência às pessoas com sofrimento relacionado ao uso problemático de jogos e apostas digitais nos CAPS (Centros de Atenção Psicossocial) da Capital, onde já foram registrados 68 atendimentos médicos relacionados ao tema, de janeiro a março de 2026. O cuidado é realizado por equipes multiprofissionais, com acompanhamento contínuo e individualizado, considerando que se trata de um processo terapêutico de longo prazo”, informou em nota enviada ao jornal O Estado.
A pasta também destaca que ainda não é possível mensurar quantas pessoas deixaram o comportamento compulsivo. “O que impossibilita, neste momento, quantificar quantas pessoas deixaram o comportamento de jogo”, pontua.
Os dados são provenientes do PEC (Prontuário Eletrônico do Cidadão) e representam apenas parte dos casos. “Os dados disponíveis são provenientes do PEC, que representa apenas parte desse universo, sendo necessárias pesquisas mais aprofundadas para análises mais amplas sobre o perfil dos pacientes e evolução dos casos”, completou.
Crescimento preocupa saúde pública
O cenário local acompanha uma tendência nacional. Dados do Ministério da Saúde apontam crescimento nos atendimentos pelo SUS (Sistema Único de Saúde) relacionados ao jogo patológico entre 2018 e 2025, evidenciando o impacto do chamado transtorno de jogo, ou gaming disorder.
De acordo com o psiquiatra Eduardo Araújo, especialista em saúde mental, o problema vai além de um hábito recreativo. “Estamos falando de um padrão de comportamento progressivo, marcado pela perda de controle, em que o jogo passa a ter prioridade absoluta na vida da pessoa, mesmo diante de consequências graves”, explica.
Segundo o médico, o vício está diretamente ligado ao funcionamento do cérebro. A prática frequente estimula a liberação de dopamina, neurotransmissor associado à sensação de prazer. Com o tempo, o organismo passa a exigir estímulos cada vez maiores, favorecendo a compulsão.
Sintomas e impactos
O transtorno pode evoluir ao longo de seis a 12 meses e apresenta sinais claros. Entre os principais sintomas estão perda de controle sobre o tempo de jogo, isolamento social, irritabilidade, ansiedade, insônia e alterações no sono.
Em casos mais graves, o comportamento pode chegar a níveis extremos. “Quando há abstinência, o paciente pode apresentar tremores, irritação intensa, ansiedade e até comportamentos agressivos”, destaca o especialista.
Ainda segundo Araújo, há registros de pessoas que permanecem até 72 horas sem dormir, além de episódios de surto quando impedidas de jogar.
Nos casos relacionados às apostas online, o problema pode se agravar com impactos financeiros. Muitos pacientes recorrem a empréstimos, comprometem a renda e, em situações mais severas, colocam em risco o patrimônio familiar.
Tratamento e acesso
A Sesau (Secretaria Municipal de Saúde) orienta que a população pode procurar atendimento diretamente nos CAPS (Centros de Atenção Psicossocial), por demanda espontânea ou encaminhamento. “A população pode buscar ajuda diretamente em uma unidade CAPS, onde receberá acolhimento e orientação especializada”, informou.
O tratamento exige uma abordagem multidisciplinar, com acompanhamento psiquiátrico, terapia cognitivo-comportamental e, em casos mais graves, internação clínica.
Para o especialista, o processo vai além da interrupção do comportamento. “O tratamento é possível e eficaz, mas exige consciência do paciente e uma rede de apoio estruturada. Não se trata apenas de parar de jogar, mas de reconstruir a vida”, conclui.
Por Suelen Morales
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