No cargo há dois anos, o Sul-mato-grossense afirma que acesso efetivo à educação é fator determinante para o futuro de jovens indígenas
Rompendo barreiras estruturais, culturais, sociais e tantas outras invisíveis aos olhos de quem está de fora, Fernando Júnior é o primeiro indígena de Mato Grosso do Sul a tornar-se Promotor de Justiça e, apesar de atuar no Pará, leva consigo a ancestralidade Terena da terceira maior população indígena do Brasil. Para ele, ter chegado a um cargo de decisão e poder não é apenas sobre carreira profissional, mas também sobre abrir caminhos para tantos outros que virão.
Lembrando do caminho vivido até alcançar a tão sonhada aprovação no concurso para promotor, em 2024, aos 27 anos, Fernando afirma que não foi um percurso feito de uma solitária e não chegou sozinho neste lugar. De acordo com ele, além do apoio da família e da sua comunidade, ter acesso às políticas públicas voltadas para as comunidades indígenas foi determinante em sua jornada.
“Eu não me vejo como alguém que ‘chegou sozinho’. Carrego comigo a história da minha família, da minha comunidade, das pessoas que acreditaram na educação mesmo diante de tantas dificuldades, antes de mim. Ser o primeiro Promotor de Justiça indígena de origem Sul-mato-grossense, é sobre abrir caminho. É sobre mostrar que aquele espaço, que antes parecia distante, também pode pertencer aos povos indígenas”, disse.
Criado na RID (Reserva Indígena de Dourados), Fernando ressalta que ocupar o cargo de Promotor de Justiça é muito mais que uma representatividade simbólica, sendo, também, uma oportunidade de pensar políticas públicas e agir de forma a melhorar a vivências e a chegada das políticas públicas nas aldeias, fator que ainda precisa de aperfeiçoamento para que atenda de forma mais efetiva as comunidades.
“Quando uma pessoa indígena ocupa um espaço de poder permite que políticas públicas deixem de ser pensadas ‘de fora para dentro’ e passem a considerar a realidade de quem vive nas aldeias.”, declarou.
Egresso da Escola Indígena Tengatui Marangatu, que funciona dentro da RID, Fernando ressalta que, para além da garantia de acesso, é preciso pensar na permanência dos jovens nas escolas e nas universidades, fazendo com que esses locais sejam acolhedores com as especificidades indígenas, como cultura e língua.
“Eu costumo dizer que dentro das aldeias existem muitos que são pessoas extremamente capazes, inteligentes, criativas, que só precisavam de oportunidade. Acreditem na educação”, pontuou.
Violação de direitos fundamentais
Em Dourados, um dos fatores apontados como fundamentais para a escalada da chikungunya nas aldeias é falta água encanada, situação que obriga famílias a armazenam água, que é distribuída por caminhão-pipa, em tonéis, sem qualquer tipo de tratamento, transformando o improviso em criadouros de Aedes Aegypti. mosquito vetor da doença, que já matou seis indígenas na cidade.
Diante desse cenário, Fernando ressalta que tal situação é inadmissível, uma vez que ela só existe, porque direitos básicos estão sendo negados aos indígenas, que vivem sem sistema de saneamento, mesmo após tantos anos de reivindicações.
Tendo passado a maior parte da sua vida na RID, Fernando aponta que, até hoje, as políticas públicas que chegam às comunidades ainda não são suficientes, sendo preciso diversas melhorias para que o que é entregue na prática acompanhe as expectativas do que está previsto.
“Houve avanços, sem dúvida, mas ainda existe uma distância grande entre o que está previsto e o que efetivamente chega às aldeias. É preciso acompanhamento contínuo, escuta das comunidades e adaptação das políticas à realidade local”.
Dia de reflexão
Embora guardem certas diferenças, uma vez que cada povo tem sua própria identidade, história e formas próprias de organização, Fernando lembra que indígenas de Mato Grosso do Sul, onde nasceu e cresceu, e do Pará, onde agora é sua morada, são unidos por uma lutas em comum pelo território, para serem reconhecidos com dignidade e terem suas culturas respeitadas, sendo demarcação de terras a maior delas.
“A demarcação de terras não é apenas uma questão jurídica, é uma questão de sobrevivência cultural e física dos povos indígenas. O território é onde estão a identidade, a espiritualidade, a história e o futuro dessas comunidades”, disse.
Reforçando a união entre os povos pelas suas reivindicações em comum, o Dia dos Povos Originários, celebrado este domingo, é um momento de celebração, mas também de reflexão sobre os avanços, a resistência e atuação para o futuro.
“Celebramos a resistência, a cultura, a diversidade e a história dos povos indígenas, que continuam vivos e atuantes. Mas também é um momento de olhar para o presente e reconhecer que ainda há muito a ser feito. Não é uma celebração que ignora os desafios, é uma celebração que reafirma a luta”, declarou.
Por Ana Clara Julião
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