Com 80% das falhas de energia atribuídas às árvores pela concessionária, Simpósio debate o conflito entre arborização e rede elétrica
Quedas de árvores sobre a rede elétrica, galhos enroscados na fiação e bairros sem energia têm sido problemas recorrentes em Campo Grande, principalmente durante temporais. Dados da Concessionária Energisa indicam que cerca de 80% das interrupções no fornecimento estão relacionadas à vegetação. Diante desse cenário, a Capital sedia o SBASE 2026 (Simpósio Brasileiro de Gestão de Árvores e Sistemas Elétricos), que reúne especialistas para discutir soluções para o conflito entre arborização urbana e rede de energia.
Segundo o CBMMS (Corpo de Bombeiros Militar de Mato Grosso do Sul), somente neste ano, já atendeu mais de 210 ocorrências de queda de árvores na Capital.
Para o diretor-presidente da Energisa em Mato Grosso do Sul, Paulo Roberto dos Santos, o problema envolve diferentes atores e exige maior integração entre os responsáveis. “Essa questão envolve concessionária, prefeitura, Ministério Público e Defesa Civil. A importância do evento é justamente reunir todos para discutir um problema comum, que é o manejo adequado da nossa vegetação”, afirma.
O diretor também destaca a necessidade de maior planejamento por meio de um plano diretor de arborização. “Precisamos definir quais espécies plantar, onde plantar e como fazer esse manejo, além de escolher árvores adequadas para conviver com a rede elétrica. Hoje, quase 80% das faltas de energia estão relacionadas à vegetação, com árvores tocando na rede e prejudicando a qualidade do serviço”, explica.
Segundo ele, é necessário estabelecer responsabilidades claras. “É preciso definir quem responde por cada etapa e desenvolver um programa que reduza os impactos para a população, especialmente em períodos de eventos climáticos”, completa.
A necessidade de organização e definição de papéis também é apontada pelo titular da Semades (Secretaria municipal de Meio Ambiente, Gestão Urbana e Desenvolvimento Econômico, Turístico e Sustentável), Ademar Silva Júnior. Segundo ele, o simpósio deve contribuir para a construção de diretrizes mais claras. “A ideia é reunir todos os agentes envolvidos para discutir uma solução bem estruturada, com responsabilidades definidas, para que o cidadão saiba a quem recorrer”.
O secretário destaca que a arborização, embora seja uma marca da cidade, também traz desafios. “Campo Grande é reconhecida pela arborização, o que traz bônus, mas também ônus. Neste ano, por exemplo, tivemos volumes de chuva atípicos, o que aumenta a ocorrência de quedas de árvores, interferências na rede elétrica e reclamações da população”.
Segundo ele, o simpósio surge justamente como espaço para alinhar responsabilidades e buscar soluções conjuntas. “A proposta é reunir todos os atores envolvidos para construir uma solução estruturada, com regras claras e definição de responsabilidades, para que o cidadão saiba a quem recorrer”.
O secretário também detalha como funciona atualmente o atendimento das ocorrências na cidade. “Recebemos muitas denúncias de árvores com risco de queda. Nesses casos, a equipe técnica avalia a situação. Se estiver em área pública, a remoção é feita pelo município; em área privada, a responsabilidade é do proprietário. Já em situações de risco, a Defesa Civil e o Corpo de Bombeiros podem ser acionados”.
Ele acrescenta que, quando há interferência direta com a rede elétrica, a atuação muda. “Quando envolve a fiação, a intervenção precisa ser feita pela concessionária, já que o município não pode atuar diretamente onde há rede energizada”.
Soluções passam por manejo e integração
A diretora regional Centro-Oeste da SBAU (Sociedade Brasileira de Arborização Urbana), Gisseli Giraldelli, afirma que o debate ganha relevância diante do aumento de eventos climáticos extremos. “Existem diversas soluções, desde o planejamento do plantio até a adaptação das redes elétricas. Onde esse trabalho é feito de forma integrada, a incidência de problemas é menor”, pontua.
No caso de Campo Grande, ela destaca que os impactos já podem ser percebidos na prática, especialmente durante temporais. “Sempre que há vendavais, é comum essa interação entre árvores e rede elétrica, o que evidencia a necessidade de manejo adequado. Nos locais onde esse trabalho já é realizado, os problemas são significativamente menores”.
Entre as alternativas, ela cita tanto o manejo correto das espécies quanto a modernização da rede. “Há iniciativas que envolvem desde a escolha adequada das árvores até a substituição gradual das redes por sistemas mais compactos e cabos ecológicos, que reduzem a interferência”.
Para Gisseli, o principal entrave ainda não é a falta de soluções, mas a forma como elas são aplicadas. “Soluções existem, o que falta é cultura de planejamento e investimento contínuo. Muitas vezes, as ações só avançam após eventos extremos, quando os impactos já foram sentidos pela população”.
Ela destaca ainda que o simpósio deve resultar em diretrizes práticas para municípios e concessionárias. “A proposta é reunir diferentes setores e consolidar um documento com recomendações que possam orientar políticas públicas e ações integradas”.
Por Geane Beserra