Menino de 9 anos morreu após diversas passagens pela UPA e Santa Casa e mãe tenta entender o ocorrido
As últimas semanas têm sido de dor e indignação para a família de João Guilherme Jorge Pires, de 9 anos, que morreu após passar por consultas médicas na UPA (Unidade de Pronto Atendimento) Universitário e na Santa Casa de Campo Grande em decorrência de uma fratura no joelho, que aconteceu enquanto ele jogava futebol. Até o momento, não há certeza da causa da morte e, embora um laudo ateste falha da entubação como motivo do óbito, uma série de negligências médicas levanta dúvidas e, para obter responsabilização de possíveis culpados, a família não descarta a possibilidade de exumar o corpo da criança.
Em entrevista ao jornal O Estado, a mãe do menino, Regiane Jorge, de 45 anos, conta que mesmo antes de ser entubado, os atendimentos realizados na UPA foram repleto de falhas, como um receituário em que consta o nome de outra pessoa e a aplicação de uma injeção se antes questionar ou testar a existência de alergia para a substância administrada.
“A gente foi na Santa Casa porque pediram para colocar tala na perninha dele e quando começou o procedimento ele ficou com dor no peito, mas me falaram que era ansiedade, disseram que era normal”, relembra a mãe, aos prantos.
Ela ainda lembra que, mesmo antes de ir ao hospital para imobilizar a perna, o menino já estava apresentando sintomas diferentes, como manchas vermelhas na pele do rosto e do corpo. “Era como se ele estivesse tendo uma reação alérgica, mas falaram que era só sinal de ansiedade”, afirmou Regiane.
O presidente da AVEM/MS (Associação das Vítimas de Erros Médicos de Mato Grosso do Sul), Valdemar Moraes de Souza, destaca que, embora a exumação para novo exame necroscópico seja uma possibilidade, ainda é necessário que a família tenha acesso ao prontuário e ao laudo, documentos que serão solicitados judicialmente.
“Não é só questão da negligência. Assim, há vários erros no procedimento, tanto da UPA como da Santa Casa. Então isso a gente vai buscar informações como horário de atendimento, se demorou para ser atendido entre as consultas, porque a Santa Casa liberou, sendo que não devia ter liberado antes dele ficar em observação, mesmo que fosse só para colocar a tala. Tudo isso vamos fazer constar no processo”, explicou Valdemar.
O presidente da instituição ressalta a importância da responsabilização dos profissionais que trabalharam no caso do menino João.
“Não podemos deixar na impunidade, tem que aparecer o erro, se foi no remédio, na intubação, porque precisou passar tantas vezes na UPA e na Santa Casa. Houve negligência, sim, descaso com o João Guilherme, e é isso que revolta a gente”, destacou.

Foto: Roberta Martins
Cronologia dos fatos
A mãe de João Guilherme conta que levou a criança ao UPA do Tiradentes após ele sofrer uma queda enquanto jogava bola. Lá, ele foi avaliado e liberado com prescrição de ibuprofeno e dipirona para beber em casa e, mesmo se queixando de dor, não houve realização de exames. A lesão no joelho foi detectada apenas na quarta ida ao UPA, dessa vez no Universitário, onde ele tinha sido levado pela mãe duas vezes anteriormente.
Após idas e vindas do UPA, o menino foi liberado para ir para casa com a orientação de que fosse na Santa Casa, na segunda-feira (6), para colocar uma tala na perna fraturada e, após o procedimento, ele foi liberado novamente, postura questionada pela AVEM/MS. No mesmo dia, a criança desmaiou e foi levada desacordada à UPA, onde chegou com uma cor arroxeada, especialmente nas pernas, sendo foi entubado e levado à Santa Casa pela segunda vez.
A família relata que a vítima foi levada em uma ambulância sem suporte avançado e, ao chegar na Santa Casa, os médicos tentaram o reanimar, mas ele não resistiu, vindo à óbito ainda na terça-feira (7).
Manifestação
Para chamar atenção para o caso para que seja investigado, a família, com o apoio da AVEM/MS realizará manifestação hoje (25), a partir das 8h30, no cruzamento da Avenida Afonso Pena e Rua 14 de Julho, no centro de Campo Grande.
UPA das Moreninhas vira alvo de denúncias por falta de leitos, médicos e insumos
Imagens divulgadas nas redes sociais na última quinta-feira (23) evidenciam a situação na UPA das Moreninhas, em Campo Grande. A publicação, feita pela irmã de um paciente, relata o desespero diante da falta de estrutura para atendimento, incluindo ausência de leitos e até de equipamentos básicos, como aparelho para aferição de pressão.
“Meu irmão, que é deficiente, idoso e epilético, está passando mal e não tem leito nem aparelho para medir pressão. Um descaso total com a população”, afirmou em publicação na internet.
Para verificar a denúncia, a reportagem do O Estado esteve na unidade na tarde de sexta-feira (24) e encontrou pacientes enfrentando demora e dificuldades no atendimento. A gestante Maria Luiza Araújo, de 18 anos, relatou espera prolongada e falta de médicos. “Passei pela triagem e estou aguardando. No início da semana, cheguei às 14h30 e só fui atendida às 18h. Precisei pedir ajuda à assistente social para ser atendida antes por estar grávida”, disse ela que precisou se deslocar do bairro Mário Covas, até as Moreninhas em busca de uma receita médica, já que afirma que na unidade do seu bairro não tem médico disponível.
Outra paciente, de 39 anos, que preferiu não se identificar, afirmou que a demora já virou rotina. “Passei pela triagem, aferiram minha pressão e estou esperando há quase duas horas. Da última vez, fiquei cinco horas aguardando atendimento”, contou.
Procurada, a Prefeitura de Campo Grande não respondeu aos questionamentos sobre a quantidade de profissionais, a falta de insumos e a demora no atendimento até o fechamento desta edição.
Ana Clara Julião