Município vira epicentro da doença em 2026 enquanto autoridades intensificam ações e iniciam vacinação piloto
Dados do Painel de Monitoramento das Arboviroses do Ministério da Saúde mostram que Dourados, em Mato Grosso do Sul, concentra 42% das mortes por chikungunya registradas no Brasil em 2026. A doença é transmitida pelo mosquito Aedes aegypti, responsável também pela dengue e zika.
Até 17 de abril, o país contabilizava 19 óbitos pela arbovirose, sendo 12 no estado. Destes, 8 ocorreram em Dourados. Entre as vítimas estão dois bebês indígenas, de um e três meses.
Conforme noticiado anteriormente pelo Jornal O Estado, o município recebeu apoio do Governo Federal, por meio da Força Nacional do SUS. A força-tarefa realizou 2.500 atendimentos, 130 remoções, 358 visitas domiciliares e 804 exames.
Ainda no início de abril, foram contratados 50 novos agentes de combate às endemias. Com apoio do Exército Brasileiro, eles atuaram nas aldeias Jaguapiru e Bororó. A ação alcançou 1.900 residências e resultou na eliminação de 575 focos do mosquito.
Neste sábado (25), foi inaugurada uma unidade móvel do programa Agora Tem Especialistas, com o objetivo de ampliar a oferta de atendimentos clínicos, vacinação, pré-natal, testes rápidos e exames para diagnóstico da chikungunya em território indígena.
Além disso, Dourados e Itaporã foram incluídos na estratégia piloto de vacinação contra a doença do Ministério da Saúde. A imunização começa nesta segunda-feira (27) e segue modelo já adotado em dez municípios do país, distribuídos entre São Paulo, Ceará, Sergipe e Minas Gerais.
Diferentes doenças, um mesmo transmissor
Em entrevista ao Jornal O Estado, o infectologista Rivaldo Venêncio explicou alguns dos fatores que contribuem para a proliferação da chikungunya e como um mesmo mosquito pode ser o transmissor de diferentes arboviroses.
“A dengue, a chikungunya e a zika são causadas por vírus distintos. Se a fêmea do mosquito Aedes aegypti estiver infectada com o vírus da dengue, a doença a ser provocada é a dengue. Se estiver infectada com o vírus da chikungunya, a doença causada será a chikungunya, que possui características clínicas distintas da dengue. Se a fêmea estiver infectada com o vírus zika, causará zika na pessoa, também com suas próprias características clínicas. A febre amarela segue a mesma lógica: se a fêmea estiver infectada com o vírus da febre amarela, causará a doença em pessoas não vacinadas”, explicou.
Segundo ele, embora raro, há registros de mosquitos com mais de um vírus. “Cada mosquito pode portar apenas um vírus por vez, embora pesquisas demonstrem que em raros casos podem ser identificados mais de um vírus no mesmo mosquito, como Zika e dengue, ou dengue e chikungunya”, destacou.
Em Dourados, um dos desafios no início da epidemia foi a confusão no diagnóstico. Pacientes chegaram a ser tratados como casos de dengue quando, na verdade, estavam com chikungunya. O especialista avalia que a situação está ligada à falta de experiência prévia com a doença e à semelhança dos sintomas iniciais.
“A chikungunya é uma doença relativamente nova no Brasil, introduzida em 2014, e mais recentemente no Mato Grosso do Sul, e ainda mais recentemente em Dourados. Os profissionais de saúde, portanto, podem não ter a experiência necessária para identificá-la de imediato. Além disso, na fase inicial dessas doenças, os sintomas podem ser semelhantes, como febre, mal-estar, dores de cabeça e dores musculares, dificultando o diagnóstico preciso”, pontua.
Ele destaca que a demora na identificação pode impactar o tratamento, especialmente no início da epidemia. No entanto, avalia que o cenário vem melhorando. “A demora no diagnóstico pode, em princípio, influenciar no resultado do tratamento. No entanto, com a crescente divulgação nos meios de comunicação e o aumento da familiaridade dos profissionais com a chikungunya, creio que essa confusão diagnóstica esteja diminuindo”, contou Venâncio que acrescenta que assim como a dengue, a chikungunya pode levar a óbito.
Venêncio ressalta ainda que, assim como a dengue, a chikungunya pode levar à morte. Além disso, pode evoluir de forma prolongada, com sintomas que persistem por semanas, meses e, em alguns casos, até anos, causando sofrimento significativo aos pacientes.
Michelly Perez e Ana Clara Julião