Neste 21 de abril, o Brasil homenageia Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes, patrono das polícias Civil e Militar
Servir e proteger é mais do que um lema carregado pelas forças de segurança pública; é a tradução de um trabalho realizado diariamente por cidadãos que dedicam suas vidas à sociedade. Para quem veste a farda ou atua nos bastidores da investigação, a missão vai muito além de uma profissão: é um compromisso diário com a população.
Neste 21 de abril, quando o Brasil homenageia Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes, patrono das polícias Civil e Militar, também se celebra o Dia das Polícias, instituições responsáveis pela manutenção da segurança pública.
O Jornal O Estado conversou com profissionais que representam diferentes frentes dessa atuação. Histórias como a da escrivã Ana Maria Vieira e do primeiro sargento Fabiano Marçal dos Santos revelam os desafios da carreira e as motivações que sustentam esses profissionais no dia a dia.
A rotina começa cedo e, muitas vezes, não tem hora para terminar. Entre ocorrências, elaboração de documentos e decisões que exigem rapidez e precisão, o cotidiano é marcado por pressão constante, responsabilidade e exposição ao risco.
“Realização de um sonho”
Escrivã da Polícia Civil aposentada desde 2001, Ana Maria Vieira ingressou na carreira aos 17 anos e define sua trajetória como “a realização de um sonho”.
Vinda de uma família com tradição na segurança pública, ela integra a terceira geração de policiais civis. Antes do concurso, começou como servidora administrativa em 1975, na Delegacia Central de Campo Grande, e foi ali que descobriu sua vocação. “Eu via o escrivão trabalhando, sempre achei bonito e pensava: quero fazer esse trabalho, ter essa autoridade. Comecei ajudando, ouvindo e fui gostando de interrogar”, relembra.
Aprovada no primeiro concurso estadual para escrivão da Polícia Civil, em 1983, atuou em diversas unidades, como Delegacia Especializada de Roubos e Furtos, IML (Instituto Médico Legal), Delegacia da Mulher — onde permaneceu por dez anos — e, por fim, na Delegacia de Homicídios, onde se aposentou.
Ao longo da carreira, acumulou casos marcantes. Entre eles, investigações de feminicídio e crimes contra crianças. “São situações que marcam porque a gente vive aquilo junto com as vítimas”, afirma. Para ela, o trabalho policial vai além da função técnica. “A gente se envolve, sofre junto, comemora quando dá certo. Não dá para desligar quando sai da delegacia”.
Ana Maria também destaca o desafio de ser mulher em um ambiente historicamente masculino. Ana Maria destaca o sentimento de conquista. “Eu me sinto realizada, era uma conquista estar ali. Sempre procurei fazer meu trabalho bem feito”. Foi reconhecida pelo tempo de serviço prestado com uma medalha pela Polícia Civil.
Conciliar a profissão com a maternidade também foi um desafio. Durante plantões, chegou a levar a filha pequena para a delegacia. “Eu subia para vê-la, descia para atender ocorrência, e assim passava a noite inteira. Não era fácil”, recorda.
Mesmo após a aposentadoria, mantém o vínculo com a profissão. Em 2019, coordenou um projeto voluntário com outros policiais aposentados para auxiliar a Delegacia da Mulher, ajudando a reduzir a demanda de atendimentos.
Para ela, a sociedade ainda desconhece a dimensão do trabalho policial. “Muita gente não sabe diferenciar polícia civil e militar, nem entende o que cada uma faz. E também não vê o quanto a gente se dedica. A gente só é lembrado quando precisa”.
Apesar das dificuldades, nunca pensou em deixar a carreira. “Era minha vida. Eu gostava do que fazia. Não me via em outro lugar”.
A quem deseja seguir na profissão, ela deixa um conselho direto: “Tem que gostar de gente e ter amor pela causa”.
“Um chamado para servir”
Com 18 anos de carreira, o primeiro-sargento da Polícia Militar Fabiano Marçal dos Santos será condecorado na próxima quinta-feira (23) com a Medalha Tiradentes da PMMS, uma das principais honrarias da corporação, concedida a profissionais que se destacam pela dedicação e pelos serviços prestados à segurança pública.
A trajetória do militar começou no interior do Estado e, ao longo dos anos, chegou à Capital, passando por diferentes funções dentro da corporação. “Eu ingressei na Polícia Militar em 2008, no curso de formação de soldado, e me formei em 2009, em Aquidauana. De lá fui destacado para o Distrito e, depois, retornei para Aquidauana, onde trabalhei a maior parte do tempo entre Aquidauana e Anastácio”, relembra.
Durante esse período, o sargento atuou em diferentes frentes operacionais. “Trabalhei no trânsito, na rádio patrulha — que é o carro-chefe da Polícia Militar — e também no Getam. Depois passei por Anastácio e Miranda, onde permaneci por cerca de dois anos”.
A mudança para a Capital marcou uma nova fase na carreira. “Depois de Miranda, vim para Campo Grande. Estou aqui há cinco anos. Trabalhei na 11ª Companhia, na região do Copa Sul e Nova Lima, e há um ano estou na assessoria de comunicação da PMMS. Foi uma carreira que começou no interior e que hoje continua aqui na Capital”.
Apesar das diferenças estruturais, ele destaca o contato com a população como um dos aspectos mais marcantes da profissão. “No interior, você tem uma relação muito próxima com as pessoas, principalmente na zona rural. Já na Capital, há mais oportunidades de cursos e crescimento profissional. Cada lugar tem sua importância”.
A escolha pela carreira veio de casa. “Era um sonho do meu pai seguir carreira militar. Ele não pôde continuar, e esse sonho acabou se realizando em mim”.
Ao longo da trajetória, enfrentou momentos difíceis, principalmente durante a pandemia. “Foi um período muito desafiador. Trabalhei em barreiras sanitárias, vi companheiros adoecerem e perderem a vida”.
Ainda assim, o que o mantém na profissão é o senso de missão. “É desafiador, mas também recompensador. Muitas vezes parece que estamos enxugando gelo, mas não podemos parar. Se a gente não fizer, quem vai fazer? A gente é a última defesa da sociedade contra o crime”.
O reconhecimento com a Medalha Tiradentes veio de surpresa. “Eu estava escalado para trabalhar no evento e descobri que, na verdade, iria receber a medalha. Fiquei sem reação. É minha primeira medalha, e logo uma honraria tão importante. É um marco na vida do policial”.
Ele também destaca a motivação que vem da família. “A gente tenta dar o exemplo. Meus filhos me veem como referência, e isso fortalece ainda mais o compromisso com a profissão”.
Para ele, o lema da corporação é vivido na prática. “Servir e proteger não é só uma frase. Quando acontece uma situação de risco, as pessoas fogem. O policial vai em direção ao problema, mesmo com o risco da própria vida”.
Aos que desejam seguir carreira, deixa um conselho direto: “Tem que ter disciplina e propósito. Vale muito a pena, mas é preciso querer de verdade. Não é uma profissão para qualquer um”.
Geane Beserra