Somente nos primeiros oito meses do ano, Estado já tem 19 crimes confirmados
Onze anos após a tipificação do feminicídio no Brasil, a violência contra a mulher já deixou marcas em praticamente todo o território Sul-mato-grossense. Dos 79 municípios de Mato Grosso do Sul, 69 cidades já registraram ao menos um caso desde 2015, o que indica a prática do crime em 87,3% de todo o Estado. Até o momento, apenas 10 cidades seguem sem ocorrências do crime.
A lista de municípios sem registros ficou ainda menor em 2026. No início do ano eram 12 cidades, mas Paranhos e Selvíria deixaram de integrar o grupo após contabilizarem os primeiros feminicídios de suas histórias. Permanecem sem registros de feminicídio desde 2015 os municípios de Brasilândia, Bodoquena, Corguinho, Guia Lopes da Laguna, Jaraguari, Jateí, Paraíso das Águas, Rio Negro, Taquarussu e Vicentina.
O levantamento feito com base nos dados do monitor da violência contra as mulheres da Sejusp (Secretaria de Estado de Justiça e Segurança Pública de Mato Grosso do Sul) evidencia que o feminicídio deixou de ser um problema concentrado em grandes centros urbanos e passou a atingir praticamente todas as regiões do Estado, reforçando a dimensão da violência de gênero em Mato Grosso do Sul.
Nos últimos dias, o cenário confirmou que a violência contra as mulheres continua crescendo em Mato Grosso do Sul. Até os primeiros dias de agosto, 19 mulheres foram assassinadas em razão do gênero. As ocorrências foram registradas em Anastácio, Bela Vista, Campo Grande, Corumbá, Coxim, Dourados, Eldorado, Mundo Novo, Naviraí, Paranhos, Ponta Porã, Selvíria e Três Lagoas.
Campo Grande concentra o maior número de casos. A Capital registrou três feminicídios no primeiro semestre. A primeira vítima foi Marlene de Brito Rodrigues, de 59 anos, morta a tiros pelo então namorado, Gilberto Jarson. O segundo caso foi o de Fabíola Marcotti, de 51 anos, assassinada com um tiro na cabeça pelo marido. A terceira vítima foi Therezinha Nantes de Arruda, morta a facadas pelo companheiro no dia 28 de julho.
Os dados também mostram que julho foi o mês mais violento para as mulheres no Estado. Somente nesse período, cinco feminicídios foram registrados em cinco municípios diferentes, uma média de um caso por semana.
Agosto marcado pela dor
O cenário de violência se fez presente neste início de agosto. Com apenas três dias do mês, Mato Grosso do Sul já registrou mais um feminicídio. O crime aconteceu em Dourados e teve como vítima Rose Batista Cabreira, de 41 anos. Segundo as investigações, ela foi morta a facadas por Odete Benitas, que confessou o crime. Em depoimento à polícia, a autora afirmou que agiu por vingança, por acreditar que a vítima era responsável pela morte de seu irmão.
A Polícia Civil investiga se o homicídio foi planejado em conjunto com Renê de Souza, atual companheiro de Rose e ex-marido de Odete. Conforme o depoimento da suspeita, os dois tentaram executar a vítima no dia 26 de julho, nas proximidades de uma pedreira, mas a ação foi interrompida porque ela teria desistido.
Dias depois, o plano então teria sido colocado em prática. Segundo a polícia, Renê é apontado como cúmplice e pode ter levado Rose de motocicleta até o local combinado, onde Odete a aguardava. Assim que a vítima chegou, foi atacada com cerca de quatro golpes de faca. Mesmo ferida, ela ainda tentou caminhar por alguns metros, mas não resistiu.
O corpo apresentava múltiplas lesões, principalmente na região do rosto e da axila. Com informações de testemunhas, a Polícia Militar identificou Odete como autora do crime. Ela foi localizada pouco tempo depois, em casa, onde, segundo o boletim de ocorrência, estava tranquila e confessou o homicídio.
À polícia, Odete relatou que Renê presenciou o ataque e fugiu em seguida. O suspeito é considerado foragido. A autora também afirmou que entregou a faca utilizada no crime para a filha após o assassinato. A arma ainda não foi localizada.
O caso de Dourados eleva para 19 o número de feminicídios registrados em Mato Grosso do Sul em 2026 e reforça o cenário de violência contra as mulheres no Estado. Mesmo com a redução no número de municípios com ocorrências, os dados mostram que a quantidade de vítimas continua em alta.
Mais um?
Wandete Gois da Silva morreu após ser atropelada pelo marido na noite do último domingo (2). O fato aconteceu na BR-463, em Sanga Puitã, distrito pertencente à Ponta Porã, no sul do Estado. O homem, que dirigia um caminhão, fugiu.
Os dois estavam juntos em um encontro de caminhoneiros antes do atropelamento. Segundo testemunhas, o casal discutiu e deixou o local junto, mas os informantes não souberam dizer se ambos entraram no mesmo veículo.
Mais tarde, o caminhão do suspeito foi encontrado estacionado em frente à residência do casal e um pedaço de plástico do para-lamas do veículo encontrado pelos policiais na cena do crime era a mesma que estava faltando no automóvel estacionado.
Inicialmente, o boletim de ocorrência foi registrado como homicídio culposo na direção de veículo automotor e condução de automóvel sob o efeito de álcool ou outras substâncias. No entanto, estuda-se a possibilidade de mais um feminicídio em Mato Grosso do Sul.
Ontem, o marido da vítima apresentou-se na delegacia e disse em depoimento que Wandete atravessou a pista e que ele não a viu. Ele foi solicitado a fazer o teste do etilômetro, mas se recusou.
Até o momento, o caso segue na 1ª Delegacia de Polícia de Ponta Porã e continua sendo investigado pela Polícia Civil como um possível feminicídio. Se confirmado, este será o 20ª caso no Estado apenas em 2026.
Por Ian netto e Maria Gabriela Arcanjo
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