No Dia dos Pais, o Jornal O Estado conversou com caminhoneiros que enfrentam a distância dos filhos enquanto percorrem as estradas do país à trabalho
Idealizada em 1953 pelo publicitário Sylvio Bhering, o Dia dos Pais nasceu com o objetivo de homenagear as figuras paternas existentes no Brasil, além de ser um incentivo para movimentar o comércio no segundo semestre do ano. Hoje, embora a data tenha virado um símbolo de mercado, a celebração ainda é mais sentimental para diversas famílias. Em algumas delas, a presença do pai não é possível, especialmente naquelas em que há caminhoneiros, que abrem mão de muitos momentos para levar à casa o sustento necessário.
Nas vésperas deste domingo, o Jornal O Estado percorreu algumas estradas no entorno de Campo Grande para conversar com motoristas e caminhoneiros que passam mais dias longe do que perto dos filhos. Na estrada, o tempo tem outra medida para eles. As horas são contadas pelo número de quilômetros percorridos, pelos postos onde é preciso parar e pelas cidades que ficam para trás.
Para quem vive ao volante, há coisas novas para conhecer todos os dias, mas a maior vontade é estar junto àquelas que já são conhecidas. A saudade de quem ficou em casa é o item que não sai da cabine dos veículos que dirigem para ganhar a vida, junto com a tristeza de perder momentos como o primeiro dia de aula, uma apresentação na escola, um aniversário ou até uma simples refeição em família. Tudo isso acontece enquanto os pais estão a centenas de quilômetros de casa.
Aos 52 anos, Edivaldo Antônio de Moura, caminhoneiro há cerca de 15, conhece de perto o peso de criar os filhos à distância. Pai de Jean, de 29 anos, e Úrica, de 28, ele conta que, quando os dois eram crianças, chegava a passar quase um ano inteiro longe de casa por causa do trabalho. “Não é nada bom, não. É muito triste, é saudade demais. A gente não passa nada com eles, nem Dia dos Pais, nem as datas comemorativas. Não passa nada, né?”, relata.
Edivaldo é de Picos, município de Piauí, e conheceu o verdadeiro Brasil sem fronteiras, percorrendo todo o país sob as várias rodas do caminhão. Hoje, morando no interior de São Paulo, em São Joaquim da Barra, ele relembra como foi difícil deixar os filhos apenas com a mãe em um momento crucial. “Eu saía no início e voltava no fim do ano, mais ou menos. Não era mês, não, era ano mesmo”.
O tempo longe de casa também significava perder etapas do crescimento dos filhos. “Você chega e acha tudo diferente”, conta. Em uma das vezes em que voltou para casa depois de um longo período, ficou surpreso ao perceber o quanto o filho havia crescido. “Inclusive o menino, né, que ele é mais maior do que eu. Ele é grandão, mas eu achei ele diferente assim”, comenta.
Hoje, a rotina é um pouco diferente. Edivaldo consegue voltar para casa de tempos em tempos, mas ainda passa de seis a oito meses longe da família. Além dos filhos, agora sente falta também dos quatro netos. “Eu falo com eles direto, mas dá saudade. Saudade grande mesmo. Muito, muita saudade”, diz.
A tecnologia tornou o contato mais fácil do que era no início da carreira. “Naquela época nem telefone direito tinha. Era mais difícil ainda. Agora está bom, você está no vídeo direto, está falando com eles. Agora é ótimo, mas primeiro era ruim demais, muito ruim”.
E a modernidade de fato ajuda a diminuir o espaço. Para Jessé Caetano dos Santos Júnior, de 33 anos, a distância é menor, mas não menos sentida. Caminhoneiro responsável pela entrega de chocolates para lojas e fábricas, ele percorre entre 70% e 80% do Estado e chega a passar até quatro dias fora de casa. Nesse intervalo, a principal companhia para amenizar a saudade é o celular e as mensagens da filha de seis anos, Melinda.
“Às vezes a gente fica olhando um pouquinho o celular para lembrar, para ver se ameniza um pouco, ou escuta alguma música que faz lembrar dela, às vezes até áudios que ela manda também, falando: ‘Ô, papai, cadê você? Papai, você não está aqui”, conta.
São poucos dias longe, se comparado ao tempo que Edivaldo passava em outros locais, mas suficientes para apertar o coração. “Um dia já dá para o coração já apertar”. Jessé, que vive com a filha e a esposa, explica que a rotina de trabalho nem sempre permite escolher quando estar em casa.
Neste Dia dos Pais, ele estará com Melinda, mas a próxima data importante já preocupa: o aniversário da menina, no dia 20 de agosto, pode ser o primeiro que ele passará longe dela. “Então, é o primeiro. Vamos ver, né? Vai ser uma experiência nova para mim. Vamos ver como é que vai ficar o coração”, diz.
Apesar da distância imposta pelo trabalho, Jessé acredita que a presença é uma escolha que os pais precisam fazer sempre que possível. Ao falar sobre a mensagem que deixaria para outros pais, ele resume a própria experiência: “Que sejam presentes, né? Sejam presentes, se apeguem, sejam próximos. Pais presentes, pais e mães presentes.”
As histórias de Edivaldo e Jessé mostram que não existe uma única medida para a distância. Para um, foram meses e até períodos de quase um ano longe dos filhos quando eles ainda eram pequenos. Para o outro, são alguns dias de cada vez, mas que já bastam para encher os olhos de lágrimas ao lembrar de quem fica para trás. Em comum, os dois carregam a mesma contradição: precisam estar longe para trabalhar e, ao mesmo tempo, gostariam de estar perto justamente de quem os motiva a seguir viagem.
No fim, cada viagem tem um motivo. O salário, as contas, a comida na mesa e a busca por uma vida melhor ajudam a explicar por que eles continuam pegando a estrada. O abraço? Fica para depois, já que, para esses pais, e tantos outros no Brasil, o calendário passa a ser marcado não apenas pelos dias que passam, mas pelos aguardados reencontros.
Maria Gabriela Arcanjo