Vasculhando o fundo de armários e remexendo nos meus alfarrábios, encontrei uma pasta com 7 matérias que publiquei no Jornal da Cidade, de Campo Grande, em 1983. Esse órgão de imprensa não existe mais há décadas.
Eu tinha pouco mais de 20 anos na época e ainda não tinha morado no Rio de Janeiro para fazer o bacharelado em piano no Conservatório Brasileiro de Música, nem tinha ainda sido apresentado aos paradigmas da etnomusicologia.
Tinha acabado de concluir o curso de Direito na Fucmt (hoje UCDB), trabalhava como técnico judiciário concursado no Tribunal de Justiça e estudava piano com a profa. Marina Rêgo Lopes. De forma que, escrever aquelas linhas, refletiu o momento em que eu vivia: um jovem vivendo no interior do país e cheio de inquietações quanto ao rumo que queria dar para a sua vida.
Sob o título “Música erudita ou música popular”, fiz considerações sobre os rótulos “erudição” e “popular” para os produções musicais. Lendo hoje o que escrevi, percebo que essa dicotomia já me causava questionamentos diversos.
Mas o corpo da matéria em geral traz um discurso que hoje me faz querer enterrar a cabeça na terra de tanta vergonha… Refletindo sobre indústria cultural midiática e a tradição musical escrita européia, deixei escorrer vários conceitos ingênuos e completamente ultrapassados hoje, revelando uma mentalidade eurocêntrica, essencialista e até mesmo preconceituosa. Mea culpa, mea máxima culpa! Era o que tinha prá ontem…

Arquivo Pessoal
Na segunda matéria, relatei o primeiro concerto da Orquestra Filarmônica de Mato Grosso do Sul feito no Teatro Glauce Rocha. Essa orquestra (e coro) havia sido criada há dez meses pela Fundação Barbosa Rodrigues, que trouxe o maestro português Vitor Marques Diniz (então regente da Orquestra Sinfônica do Espírito Santo) para dirigi-la.
Conforme o texto, antes desse concerto, o grupo, formado por músicos e cantores amadores, já havia feito cinco apresentações e gravado um especial de Natal para a televisão, com “arranjos simples de canções folclóricas, cânones e peças cantadas em uníssono pelo coro”.
O concerto no Glauce Rocha, porém, teve um “repertório mais trabalhado”, “apresentado de forma didática” em que “já foi possível notar um melhor aproveitamento técnico e, em alguns momentos, uma bela transparência sonora”. Boa parte do escrito teceu duras críticas às condições acústicas e técnicas do Glauce Rocha. Na época, ainda não havia sido feita a reforma que nivelou o palco.
Concebido como um cine-teatro, o espaço tinha um palco de dois metros de altura e um outro palco em frente com um metro de altura, improvisado sobre o que seria talvez um espaço para orquestra nos moldes dos teatros de ópera barrocos.
Nada de caixa cênica, varas de iluminação, refletores adequados, tratamento de som, nada… No texto também fiz menção à Sociedade Pró-Música, grupo de músicos e amantes da música de Campo Grande, fundado pelo professor José Tarcísio Leal uns anos antes, e que movimentou a vida artística local, produzindo inclusive um show e programa para TV intitulado “Do barroco ao barracão”.
Na matéria “Revendo Baptista Siqueira”, fiz considerações sobre o compositor paraibano falecido em 1992. Irmão do também compositor José Siqueira, Baptista estreitou laços com Campo Grande ao vir, em 1980, acompanhar as provas do Concurso de Piano Baptista Siqueira promovido pela Sociedade Pró-Música. No texto relatei também que, em 1981, a soprano Yvone Fraiha apresentou, em recital, a primeira audição de sua canção “Teus Olhos”.
Na matéria seguinte, relatei a experiência de espectador de dois shows de Tetê Espíndola: um em Campo Grande, e outro na Sala Funarte no Rio de Janeiro. Já falei sobre isso quando publiquei aqui em “Doutora Tetê Espíndola: a feiticeira de Mato Grosso do Sul”. Audácia das audácias, desci a lenha na jornalista Maria Helena Dutra, do Jornal do Brasil, que havia publicado uma crítica nada amigável ao show do Rio de Janeiro. Falou mais alto minha indignação e orgulho sul-mato-grossense!…
Na matéria “A quantas anda o movimento musical em Cuiabá”, fiz críticas aos órgãos culturais do então jovem Mato Grosso do Sul e enalteci o trabalho feito em Cuiabá, especialmente na Universidade Federal de Mato Grosso, que levou daqui, nomes importantes da música como o violinista Cézar Wulhynek, o violista José Lourenço Parreira, o violoncelista Conrado Correa Ribeiro, o regente coral Peter Ens, as cantoras Noeme Busto Gama, Elizabeth Gama Simões e Lídia Ens, além da pianista e professora Cássia Virgínia Coelho de Souza.
Todos “músicos que lutaram durante muito tempo em nossa cidade para manter de pé um mínimo de atividade musical”, contratados pela UFMT com salários dignos e “dos melhores em termos de Brasil”.
Na penúltima matéria da série, relatei um concerto com a Academia de Música de Câmara da Fundação Barbosa Rodrigues, realizado como atração local em um dos circuitos da Rede Nacional de Música da Funarte, que, na época, cumpria uma agenda de shows, concertos e workshops em Campo Grande, misturando artistas da cidade com nomes importantes da cena musical brasileira.
Curioso que, no texto, eu já fazia menção a termos como “mentalidade colonizada e imperialista” e afirmava que “estas terras não podem mais ser relegadas à condição de simples comunidade bovina”…
Na última matéria, relatei um concerto do duo de música de câmera formado por Eugen Ranevsky e Violetta Kundert (cello e piano) apresentado no Teatro Glauce Rocha em promoção da UFMS e Fundação Barbosa Rodrigues. Indignado, manifestei meu incômodo pela “absoluta falta de ‘desconfiômetro’ das emissoras locais de televisão”.
Conforme a narrativa, duas equipes de televisão fizeram filmagens durante o recital, atrapalhando a concentração dos artistas e dos ouvintes, bem como “à movimentação e fashes incômodos de um fotógrafo de um jornal local”. Terminei com: “em resumo, durante quase todo o recital, os músicos se sentiram irritados e a platéia incomodada, não havendo margem para um maior envolvimento musical”…
Fragmentos de memória. Documentos de mais de 40 anos. Interessante revisitar esses escritos depois de tanto tempo e constatar que muita coisa – felizmente – mudou em minhas concepções de mundo. Ainda bem que tenho o hábito de guardar coisas e papéis velhos…
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