O ministro do STF (Supremo Tribunal Federal), Alexandre de Moraes, afirmou nesta segunda-feira (1º) que as grandes empresas de tecnologia utilizam dados e algoritmos para promover uma “verdadeira lavagem cerebral nas chamadas bolhas” digitais. A declaração foi feita durante participação no Fórum de Lisboa, realizado em Portugal.
Ao participar do painel sobre democracia, populismo e polarização ideológica, Moraes defendeu a criação de uma regulamentação internacional das redes sociais e alertou para o poder crescente das plataformas digitais sobre a formação da opinião pública.
Segundo o ministro, as chamadas big techs acumulam informações sobre hábitos, preferências e comportamentos de bilhões de usuários em todo o mundo, formando o que classificou como “o maior banco de dados da humanidade”.
De acordo com Moraes, o uso dessas informações aliado a algoritmos que, segundo ele, não são neutros, permite influenciar a forma como as pessoas recebem e interpretam conteúdos.
“Se faz uma manipulação de dados para se realizar uma verdadeira lavagem cerebral nas chamadas bolhas”, afirmou durante a palestra.
Crítica à neutralidade das plataformas
O ministro também avaliou que governos, instituições e autoridades subestimaram o alcance e a influência das plataformas digitais ao longo dos últimos anos.
Para ele, houve a crença equivocada de que as redes sociais funcionariam como ambientes neutros para o debate público. Moraes ressaltou que as empresas de tecnologia possuem interesses econômicos legítimos, mas não podem ser tratadas como agentes imparciais dentro do ambiente digital.
Durante a exposição, o magistrado voltou a defender a necessidade de regras internacionais capazes de estabelecer limites e responsabilidades para as plataformas que operam em diversos países simultaneamente.
Alerta sobre soberania nacional
Outro ponto abordado pelo ministro foi o impacto do avanço tecnológico sobre a soberania dos Estados. Segundo Moraes, atualmente os países ainda possuem mecanismos para determinar o bloqueio de plataformas que descumpram decisões judiciais, mas essa capacidade pode ser reduzida no futuro diante da evolução das tecnologias digitais.
Na avaliação do ministro, a discussão sobre a regulação das redes sociais deve ser tratada como uma questão de preservação das instituições democráticas e da autonomia dos países.
Referência ao papa
Durante a palestra, Moraes citou trechos da encíclica *Magnifica Humanitas*, do Leão XIV, para ilustrar os riscos que, segundo ele, as plataformas digitais podem representar para a sociedade.
Ao mencionar o documento, o ministro fez uma brincadeira ao comentar as críticas frequentemente direcionadas aos defensores da regulação das redes sociais.
“Não se pode dizer que o papa é comunista”, afirmou, em referência aos argumentos utilizados por setores contrários a qualquer tipo de regulamentação das plataformas digitais.
As declarações ocorreram no primeiro dia do Fórum de Lisboa, evento promovido pelo ministro Gilmar Mendes, que reúne autoridades, juristas, acadêmicos e representantes da sociedade civil para debater temas relacionados à democracia, governança e desafios institucionais contemporâneos.
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