Em um congresso, enquanto mediava uma mesa redonda, uma debatedora iniciou sua fala com as seguintes palavras: “Primeiramente, quero agradecer aos integrantes da mesa e à plateia por cederem aquilo que é mais sagrado no cosmo: o seu tempo”. A frase me deteve. Não pelo protocolo, mas pela profundidade filosófica que carregava. Essa inquietação tinha uma razão própria: conduziu-me à reflexão sobre algo que todos possuímos, mas cuja importância raramente percebemos: o tempo. Uma palavra que atravessa séculos e ainda nos escapa entre os dedos como areia fina.
Frei Antônio das Chagas, frade franciscano português do século XVII, já havia capturado essa angústia num soneto que permanece atual. Em seus versos, o poeta lamenta: “Deus pede hoje estrita conta do meu tempo. E eu vou, do meu tempo, dar-Lhe conta. Mas como dar, sem tempo, tanta conta. Eu, que gastei, sem conta, tanto tempo?” O jogo entre “conta” e “tempo” não é apenas um recurso retórico, é uma meditação sobre a responsabilidade existencial diante do que nos é dado viver. O tempo, para Frei Antônio, é um bem que exige prestação de contas. Sagrado, portanto.
Mas o tempo não é apenas uma categoria espiritual ou poética. É também uma categoria filosófica de primeira ordem. Victor Goldschmidt, ao distinguir tempo histórico e tempo lógico na interpretação dos sistemas filosóficos, nos mostra que um sistema filosófico pode ser interrogado seja sobre sua verdade, seja sobre sua origem, pedindo-lhe razões ou buscando suas causas. Essa tensão entre o tempo que flui nos acontecimentos e o tempo que estrutura o pensamento revela que toda compreensão humana é, ela mesma, uma experiência temporal. Não há saber fora do tempo.
E o que faz a modernidade com o tempo? O trabalho, especialmente após a Revolução Industrial, tornou-se o elemento que demarca a estruturação dos quadros temporais das sociedades, sendo a atividade laboral o referencial para a organização de todo o restante do tempo humano. O tempo livre, o ócio e o lazer tornaram-se, nesse contexto, zonas residuais, ou até mesmo suspeitas. A escola, dentro de uma concepção moderna, está profundamente marcada pelo paradigma da produção industrial, preparando crianças e jovens para a vida adulta moldada pelo trabalho, mas sem orientação para o uso adequado do tempo de ócio, fator de vital importância para a edificação de um indivíduo equilibrado.
Nesse ponto, temos um paradoxo: vivemos numa civilização que colonizou o tempo, fragmentou-o em horas produtivas e horas desperdiçadas, e esqueceu que o tempo, como nos lembrou aquela debatedora, é, antes de tudo, sagrado. Não porque pertença a um Deus, mas porque pertence, necessariamente, a quem o vive. Cada minuto cedido a outro é um gesto de confiança e generosidade que nenhuma moeda pode pagar.
Agora, agradeço você, leitor, por dedicar-se à leitura deste texto, escrito para refletirmos sobre esse ente que é tão sagrado: o nosso tempo.
Elieverson Guerchi Gonzales é licenciado em Física, doutor em Educação para a Ciência e docente da Graduação e do Programa de Pós-Graduação em Ensino de Ciências da UNIDERP. E-mail: gonzales.eg@outlook.com
Este artigo é resultado da parceria entre o Jornal O Estado de Mato Grosso do Sul e o FEFICH – Fórum Estadual de Filosofia e Ciências Humanas de MS.
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