A cooperação entre a Universidade do Minho e a UFMS mostra como a educação patrimonial pode unir ciência, comunidade e infância na construção de cidadania cultural.
Quando universidades de dois continentes se unem em torno das crianças, o património deixa de ser apenas herança e torna-se futuro. A parceria entre a Universidade Federal de Mato Grosso do Sul e a Universidade do Minho, materializada no projeto Património Vivo para a Infância, mostra como a cooperação acadêmica internacional pode produzir impacto social, educativo e científico concreto. Mais do que um acordo institucional, trata-se de uma convergência de concepções sobre patrimônio, infância e educação, que reposiciona o papel das universidades diante dos desafios contemporâneos da cidadania cultural.
Inserido no campo da Educação Patrimonial com e para crianças, o projeto rompe deliberadamente com modelos tradicionais, marcados por uma lógica adultocêntrica e transmissiva. Aqui, as crianças não são apenas ouvintes ou visitantes: são participantes ativas, curiosas, intérpretes e cocriadoras de sentidos sobre o património. Ao reconhecê-las como sujeitos de direitos, portadoras de agência e produtoras legítimas de conhecimento, o “Património Vivo para a Infância” propõe uma inversão epistemológica profunda: o patrimônio deixa de ser apenas algo a ser explicado às crianças e passa a ser construído com elas. Essa mudança não é apenas metodológica, mas política e social, pois redistribui o lugar da voz infantil nos processos educativos e reafirma o direito das crianças à participação plena na vida cultural.
A experiência desenvolvida no Teatro Romano de Braga evidencia de forma contundente essa perspectiva. Ao envolver crianças de contextos socialmente vulneráveis em práticas arqueológicas, jogos lúdicos, registros visuais e narrativas próprias, o projeto transforma o sítio arqueológico em um espaço vivo de aprendizagem, escuta e pertença. O patrimônio arqueológico, frequentemente associado a discursos técnicos ou a uma fruição distante, torna-se um acontecimento educativo sensível, no qual memória, imaginação e experiência corporal se entrelaçam. Nesse processo, o passado romano não é apresentado como herança estática, mas como campo aberto à interpretação, à curiosidade e ao encantamento infantil.
Do ponto de vista institucional, essa parceria se sustenta em bases sólidas e estrategicamente articuladas. O projeto integra um Projeto de Extensão da UFMS, e está vinculado ao Acordo de Cooperação firmado entre a UFMS e a Universidade do Minho. Esses instrumentos asseguram não apenas a legalidade da iniciativa, mas reforçam seu caráter estruturante no âmbito da internacionalização universitária, da formação discente e da produção de conhecimento socialmente comprometido.
A organização do Património Vivo para a Infância revela ainda uma articulação interinstitucional exemplar, envolvendo o Departamento de História do Instituto de Ciências Sociais, o Instituto de Educação, a Casa do Conhecimento, a Unidade de Arqueologia da Universidade do Minho, o LAB2PT-IN2PAST, além do Laboratório ATRIVM, vinculado ao PPGAS, à RECMA/UFMS e ao CNPq. Somam-se a essa rede parcerias fundamentais o PROFHIST/UEMS, o MuArq, o projeto Trilha Rupestre UFMS, bem como o apoio da FUNDECT-MS e do próprio CNPq. Essa rede institucional evidencia que o projeto não é isolado, mas parte de um ecossistema acadêmico voltado à integração entre ensino, pesquisa, extensão e impacto social.
No plano pedagógico, os resultados do Património Vivo para a Infância reforçam a centralidade da ludicidade como linguagem epistemológica da infância. Brincar, desenhar, fotografar, escavar e narrar não aparecem como atividades periféricas, mas como modos legítimos de produzir conhecimento histórico e patrimonial. As crianças mobilizam seus repertórios culturais, familiares, mediáticos e cotidianos, para ressignificar moedas romanas, estruturas arquitetônicas e práticas arqueológicas, demonstrando que o capital cultural infantil não empobrece a experiência patrimonial, mas a enriquece e a complexifica.
Sob essa perspectiva, a parceria UFMS–UMINHO projeta um modelo de internacionalização que se afasta de uma lógica meramente burocrática ou elitizada. Trata-se de uma internacionalização solidária, comprometida com a formação cidadã, com a democratização do acesso ao patrimônio e com a valorização de sujeitos historicamente silenciados, neste caso, as crianças. Ao investir em práticas educativas participativas e em metodologias como a Investigação-Ação Participativa, o projeto afirma que a produção de conhecimento acadêmico pode, e deve, caminhar lado a lado com a transformação social.
Em suma, o Projeto “Património Vivo para a Infância” demonstra que a cooperação entre a UFMS e a Universidade do Minho ultrapassa o plano formal dos acordos institucionais e se concretiza como prática viva de educação patrimonial, consciência histórica e cidadania cultural. Ao escutar as vozes infantis e incorporá-las como coautoras do processo educativo, essa parceria reafirma o papel público das universidades e aponta caminhos possíveis para uma Arqueologia e uma Educação Patrimonial mais democráticas, inclusivas e socialmente relevantes.
Prof. Dr. Carlos Eduardo da Costa Campos (Lab. ATRIVM/PPGAS/UFMS; PROFHIST/UEMS; CNPQ). E-mail: carlos.campos@ufms.br
Profa. Dra. Fernanda Eugénia Puga Magalhães (Lab2PT / UMinho – PT). E-mail: fmagalhaes@uaum.uminho.pt
Prof. Dr. Dhemy de Brito (CIEC / UMinho – PT). Email: dbrito@ie.uminho.pt
Este artigo é resultado da parceria entre o Jornal O Estado de Mato Grosso do Sul e o FEFICH – Fórum Estadual de Filosofia e Ciências Humanas de MS.
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