É de conhecimento comum que no Mato Grosso do Sul há mais cabeças de gado do que pessoas. Não é exagero, o que se vê, ao cruzar o estado, são usinas, frigoríficos e extensas plantações de monocultura que ilustram o famigerado “celeiro do mundo”. Aqui, o mar não é de água, é de soja.
A política, a economia e a mídia reduzem o estado à lógica do agronegócio, apagando a complexidade dos territórios, da biodiversidade e invisibilizando as vidas que sustentam a riqueza da região. Quando se afirma que “o agro é pop, o agro é tudo”, o que se está dizendo é que não há espaço para o diverso, para o múltiplo, para os povos que vivem aqui.
O verdadeiro Mato Grosso do Sul — assim como o Brasil real — está nas aldeias, nos quilombos, nas margens dos rios, pescando, plantando, semeando, tecendo e costurando formas de existir em meio ao desmatamento, às queimadas e à seca do Pantanal. Está na luta por terra e território, na defesa da água limpa, de um ar livre de agrotóxicos, em busca do reflorestamento da terra estuprada pela soja, no sonho do manejo sustentável para abrir espaço na mesa para a comida de verdade.
O cultivo tradicional, a sabedoria ancestral e a luta cotidiana por dignidade para as presentes e futuras gerações, conforme ensina a nossa Constituição de 1988, são um constante desafio para quem vive, com o mínimo — às vezes nem isso, observem os Kaiowá, que, dentro do próprio território, vivem sem o direito básico à água — por aqui.
Negar essa pluralidade é negar a própria história do Brasil. É tentar silenciar aqueles que resistem frente às queimadas no Pantanal, à seca imposta pela destruição ambiental, à especulação fundiária e imobiliária que expulsa povos e comunidades para fora de seus territórios.
O modelo de desenvolvimento que exalta o lucro em detrimento do bem viver do povo sul-mato-grossense aniquila quem educa, tece, planta, pesca e cuida. Transformar escassez em resistência, convivendo com a presente ausência do Estado, é o que impulsiona a luta coletiva por caminhos que buscam adiar o fim do mundo.
Formação Acadêmica
Bianca Cavalcante Oliveira é Professora no curso de Direito da UEMS e Assessora Jurídica no Núcleo Institucional de Promoção e Defesa dos Povos Indígenas e da Igualdade Racial, no âmbito da Defensoria Pública do Estado de Mato Grosso do Sul (NUPIIR/DPMS). E-mail: biancacavalcanteeoliveira@gmail.com.
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