O desejo de alcançar um corpo considerado ideal é o ponto de partida para uma narrativa de terror psicológico em “Insaciável”, filme que estreia hoje (6) nos cinemas brasileiros. Dirigido por Natalie Erika James, o longa acompanha a trajetória de Hana (Midori Francis), uma estudante de Medicina que transforma a busca pelo emagrecimento em uma obsessão capaz de ultrapassar limites perigosos.
Com 1h52min de duração, a produção apresenta a história de uma jovem que, influenciada pelo resultado rápido por uma amiga, decide seguir um método extremo de perda de peso com o uso de pílulas de cinzas humanas. A tentativa de conquistar a aparência que considera perfeita leva Hana a enfrentar consequências irreversíveis, em uma trama que mistura elementos de terror com uma reflexão sobre imagem corporal e saúde mental.
O filme utiliza o horror como metáfora para discutir um problema presente na sociedade: a pressão estética e a normalização de comportamentos prejudiciais em nome da magreza. Ao mostrar uma personagem disposta a ignorar os riscos para atingir determinado padrão físico, a produção provoca uma reflexão sobre como a obsessão pelo corpo pode ser alimentada por influências externas, comparações e pela busca por aprovação.
Para ampliar o debate além da ficção, o Jornal O Estado conversou com profissionais da área da saúde para analisar os impactos psicológicos e nutricionais relacionados à busca acelerada pelo emagrecimento. A discussão aborda os perigos da glamourização dos transtornos alimentares, a influência de padrões de beleza divulgados por figuras públicas e como a pressão por uma transformação corporal rápida pode afetar a relação das pessoas com o próprio corpo e com a alimentação.

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Pressão estética
A psicóloga especialista em transtornos alimentares, Liliane Costa, explica que nem toda busca pelo emagrecimento tem a mesma origem. Segundo ela, enquanto algumas pessoas procuram tratamento em razão de doenças crônicas, como a obesidade, outras perseguem um padrão corporal imposto socialmente.
“É nesse contexto que a pressão estética e a busca por resultados imediatos podem favorecer o desenvolvimento de transtornos alimentares. Vejo pessoas que começam apenas querendo emagrecer, mas acabam desenvolvendo culpa ao comer, medo intenso de engordar e uma relação rígida com a alimentação. A neurociência mostra que o cérebro interpreta restrições prolongadas como uma ameaça à sobrevivência, tornando esse ciclo ainda mais difícil de ser sustentado”, afirma.
A psicóloga afirma que o uso das chamadas “canetas emagrecedoras” pode reforçar ou até mascarar transtornos alimentares em pessoas mais vulneráveis, especialmente quando a autoestima e a relação com o corpo já estão comprometidas. Para ela, o debate deve ir além do acesso ao medicamento e incluir os fatores emocionais envolvidos na busca pelo emagrecimento.
“A caneta pode ajudar no tratamento da obesidade, mas não trata a culpa, a vergonha, o perfeccionismo ou a necessidade de aprovação. O maior risco não é usar o medicamento para emagrecer, e sim acreditar que, quando o corpo mudar, todo o sofrimento emocional desaparecerá junto”, conta.
Liliane alerta que o principal sinal de atenção é quando o emagrecimento deixa de ser uma meta de saúde e passa a ocupar o centro da vida da pessoa. Segundo ela, comportamentos frequentemente vistos como disciplina ou força de vontade podem, na verdade, esconder o início de um transtorno alimentar.
“Na prática clínica, observo que o problema começa quando o peso passa a determinar a autoestima, os relacionamentos e a rotina. Medo de engordar, culpa ao comer, isolamento social e controle excessivo da alimentação são sinais que merecem atenção. Uma pergunta costuma ajudar: o emagrecimento ampliou a vida dessa pessoa ou começou a estreitá-la? Quando a busca por saúde passa a custar a própria saúde, é hora de olhar para esse processo com mais cuidado”, alerta.

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Influência midiática
A nutricionista Jacqueline destaca que a baixa autoestima pode aumentar a vulnerabilidade às comparações, especialmente em um cenário marcado pela exposição constante nas redes sociais. Segundo ela, esse comportamento tende a reforçar sentimentos de inadequação e pode agravar transtornos emocionais e alimentares.
“Quando uma pessoa não se sente bem consigo mesma, ela se torna mais vulnerável às comparações. Surge a impressão de que o corpo, a vida e o sucesso do outro são sempre melhores. Esse processo intensifica a autodepreciação, fortalece o sentimento de inadequação e pode agravar transtornos emocionais e alimentares já existentes”.
A especialista ressalta que, além dos impactos individuais, a influência dos padrões estéticos impostos pela sociedade também interfere na forma como muitas pessoas enxergam o próprio corpo. A comparação constante e a busca por uma aparência considerada ideal podem gerar frustração, insegurança e uma relação cada vez mais difícil com a alimentação.
“É importante compreender que cada pessoa possui uma história, um corpo e necessidades diferentes. Quando a alimentação passa a ser guiada pelo medo, pela culpa ou pela necessidade de atingir um padrão, ela deixa de cumprir seu papel de cuidado. O acompanhamento adequado é fundamental para reconstruir uma relação mais saudável com a comida e com a própria imagem”, complementa.

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A influência da mídia e das redes sociais contribui para a valorização excessiva do corpo magro como símbolo de saúde e sucesso. Segundo ela, a busca pelo emagrecimento precisa estar associada ao equilíbrio e à preservação da saúde, já que a perda de massa muscular pode trazer consequências para o funcionamento do organismo.
“A questão não é desejar emagrecer, mas fazer isso colocando o corpo em situações extremas e ignorando sinais de saúde e bem-estar. A sarcopenia, por exemplo, mostra que estar magro sem preservar músculos e funcionalidade não representa um benefício duradouro. O objetivo deve ser um corpo saudável, forte e capaz de proporcionar qualidade de vida ao longo dos anos”, finaliza.
Amanda Ferreira