Das salas de aula de MS para festival Nacional, cordelista douradense Aurineide Alencar será homenageada em Pernambuco
A cordelista douradense de coração Aurineide Alencar será reconhecida por seu trabalho de difusão da literatura de cordel no XIV Festival Vamos Fazer Poesia, no Sesc Serra Talhada, em Pernambuco, nos dias 25 e 26 de abril. O evento reúne poetas de diferentes regiões do pais, e é reconhecido pela valorização da cultura nordestina e da literatura de cordel, e Aurineide será responsável por representar Mato Grosso do Sul no festival.
A organização é dos produtores culturais Iranildo Marques e Evânia Marques. Desta vez, a viagem tem um significado especial. Pela primeira vez, Aurineide participa presencialmente do festival e será homenageada pelo trabalho que desenvolve em Mato Grosso do Sul com a Cordelteca Itinerante Cantinho do Cordel, iniciativa que transformou leitura em estrada e verso em encontro. “Eu sempre acompanhei de longe, participando de antologias e assistindo pela internet. Agora vou viver isso de perto”, afirma.
Começo de tudo
Foi na infância, em meio a rimas e vozes familiares, que Aurineide começou a sua jornada no cordel. “Eu nasci em uma região onde o povo respira o cordel. A gente brincava fazendo trovas, aprendia ouvindo os mais velhos. Sempre tinha um violeiro, um repentista por perto”, relembra. Em 1990 ela escolheu o município de Dourados para chamar de lar e com a mudança, trouxe seu conhecimento em cordel.
Foi na sala de aula, já como professora, que percebeu a força daqueles versos como ferramenta de ensino. “Eu aprendi a ler com o cordel. Então comecei a transformar conteúdos em rima, e as crianças aprendiam com mais facilidade”, diz.
Em 2019, essa relação ganhou estrada. Aurineide colocou em circulação a Cordelteca Itinerante, uma Kombi vermelha adaptada como espaço cultural móvel. No interior do veículo, mais de três mil títulos de cordel, entre clássicos e contemporâneos, percorrem escolas, praças e comunidades, ampliando o acesso à leitura e preservando a tradição. A Cordelteca é reconhecida como Biblioteca Comunitária de Mato Grosso do Sul, cadastrada no Sistema Nacional de Bibliotecas.
“Cordel é como música para os ouvidos. Traz alegria, prende a atenção. Às vezes a gente está com um problema, mas quando escuta um cordel, parece que tudo fica mais leve”, resume.
‘Cordel Conta o Conto’
Aurineide também é responsável pelo projeto ‘Cordel Conta o Conto’, que transformou clássicos da literatura em obras acessíveis e cheias de identidade cultural. O projeto contempla a produção e impressão de uma coleção infantil com dez releituras de contos populares no formato de literatura de cordel, além da gravação de todos os títulos em vídeos com recursos de acessibilidade, como legendas e interpretação em Libras.
O material audiovisual foi lançado nas redes sociais e no YouTube em formato de videobook, tornando o projeto acessível também para crianças com deficiência auditiva ou visual.
A proposta do projeto ‘Cordel Conta o Conto’ nasceu de uma vivência mais pessoal: proporcionar a acessibilidade para a netinha. “Tenho uma neta com deficiência auditiva e percebi como é difícil encontrar literatura acessível. Com esse projeto, queremos romper barreiras e mostrar que o cordel também pode abraçar a diversidade. É uma forma de garantir que todas as crianças tenham acesso à poesia, à cultura popular e à fantasia dos contos”, afirma.
“Vejo o cordel como uma literatura que se atualiza, então por que não passar isso para os vídeos, fazer um vídeo-book, já que hoje em dia isso está sendo mais atualizado? Quase não se vê crianças com livros nas mãos, mas sim com o celular, então pensei: ‘será mais fácil elas assistirem a um vídeo’”, reflete.
A coleção inclui os seguintes títulos: Os três porquinhos, O patinho feio, João e o pé de feijão, O Mágico de Oz, A festa no céu, Cachinhos de Ouro, Chapeuzinho Vermelho, As sapatilhas de Sofia, João e Maria e O Gato de Botas, todos adaptados em versos rimados no estilo tradicional do cordel.
Local de fala
A cordelista também acredita que o videobook irá facilitar a vida das colegas de profissão. “Eu já fui professora de anos iniciais e sei muito bem como é. Muitas vezes não estamos disponíveis para uma contação de histórias que chame a atenção das crianças. Então esse vídeo vai fazer esse papel. Quem já teve acesso me relatou que chamou a atenção dos pequenos do início ao fim”, revela. “E as crianças que ainda não aprenderam a ler poderão ver o vídeo sozinhas, aprender sozinhas”.
O cordel, mesmo que crescendo, ainda é pouco difundido em Mato Grosso do Sul. Para Aurineirde, o formato lúdico e rimado pode ser a porta de entrada ideal para que crianças sul-mato-grossenses conhecer o gênero.
“Sempre defendi a tese – inclusive no meu mestrado – de que as crianças aprendem melhor quando é através do texto, com poesias, com musicalidade, e sempre utilizei disso para facilitar as minhas aulas. Tenho até hoje livros escritos com os cordéis que fazia para meus próprios alunos. A literatura de cordel continua hoje no nordeste mais atuante do que nunca. É a nossa cultura. Eu, como uma professora aposentada que eu sou, eu faço esse trabalho de ir às escolas simplesmente por amor à literatura de Cordel”.
Parada importante
Antes de chegar ao palco de um dos maiores encontros da poesia popular brasileira, a cordelista Aurineide fez uma parada que ajuda a entender a própria essência de sua caminhada. Partindo de Dourados, ela percorreu mais de 3 mil quilômetros até Juazeiro do Norte, no Ceará, onde esteve diante da imagem de Padre Cícero, figura central da religiosidade popular nordestina, para agradecer. Agora, segue viagem por mais aproximadamente 180 quilômetros até Serra Talhada, em Pernambuco.
Conhecido carinhosamente como “Padim Ciço”, Padre Cícero é um dos personagens mais emblemáticos do Nordeste brasileiro. Sacerdote, líder espiritual e símbolo de fé para milhões de devotos, ele transformou Juazeiro do Norte em um dos principais destinos de peregrinação do país. Ao longo de gerações, sua imagem atravessou estados, inspirou histórias, cantigas e também a literatura de cordel, tornando-se presença constante no imaginário popular.
Para Aurineide, a passagem por Juazeiro não foi apenas uma parada no trajeto, mas um gesto necessário. “Passei por lá para agradecer ao meu Padim Padre Ciço. Era algo que eu precisava fazer antes de seguir viagem”, conta. A devoção, segundo ela, acompanha sua trajetória desde cedo e se mistura com a própria vivência no universo do cordel, onde fé e cultura caminham lado a lado.
Serviço
O XIV Festival Vamos Fazer Poesia e a homenagem à artista poderão ser acompanhados ao vivo pelo canal YouTube, na TV Poesia da Gente, pelo https://www.youtube.com/@tvpoesiadagente2340
Por Carolina Rampi