Nova adaptação de leva clássico político ao universo da animação infantil, reacendendo debates sobre cinema, crítica social e os limites entre o lúdico e o político.
Das teorias, do humor complexo, sátiras e crítica social que reverbera até hoje, mesmo que tenha sido lançado em 1945. O clássico ‘ A Revolução dos Bichos’, do escritor britânico George Orwell surge novamente nas rodas culturais, dessa vez repaginado em forma de animação, com o longa de mesmo nome, lançado nesta quinta-feira (28).
Do livro clássico para a animação
Dirigido pelo ator e cineasta britânico Andy Serkis – sim, o Gollum, de Senhor dos Anéis, e o César, de Planeta dos Macacos – o longa vem com um elenco de peso, para honrar a obra em que se baseia: Seth Rogen (O Estúdio), Gaten Matarazzo (Stranger Things), Iman Vellani (Mrs Marvel), Laverne Cox (Orange is The New Black), Jim Parsons (The Big Bang Theory), Kieran Culkin (Succession), Steve Buscemi (Fargo), Woody Harrelson (The Hunger Games), Glenn Close (Atração Fatal).
O longa é ambientado em uma fazenda, onde um movimento em busca de igualdade é sistematizado pelos animais. Inspirado na obra de Orwell, a história mostrará as maquinações de revolução e poder, onde sob o comando dos porcos, uma fazenda perde parte de sua rivalidade. Entrando em uma ditadura implacável, os animais se reúnem para lutar pelos próprios direitos.
Uma fábula política para crianças?
Parece até difícil imaginar uma animação infantil unir tantos elementos complexos, de um livro escrito há mais de 80 anos…mas esse é o poder de Hollywood!
Em entrevista ao jornal O Estado, o crítico de cinema Clayton Sales pontuou como o cinema e a literatura possuem linguagens distintas, mas acabam em fins semelhantes: contar histórias e transmitir mensagens, de diversas naturezas, incluindo política. Ele afirma que o grande desafio das adaptações está justamente em utilizar o “idioma cinematográfico” para reinterpretar a mensagem original da obra.
“O livro, em especial a literatura de ficção, normalmente é uma vivência individual, introspectiva e totalmente dependente do imaginário. Lemos na solidão completa. Já filme, série ou telenovela são vivências de massa, mesmo que estejamos sozinhos diante da tela em casa ou numa sessão vazia do cinema. A imagem em movimento preenche em poucos frames de segundos o que um livro pode levar páginas e minutos de leitura para suprir”.
Para ele, transformar “A Revolução dos Bichos” em uma animação infantil é um desafio justamente por equilibrar o aspecto lúdico da obra com suas críticas políticas profundas. Segundo Clayton, o livro de George Orwell é “uma fábula, gênero literário mais lúdico, pois ele insere características humanas em animais”, o que naturalmente aproxima a narrativa do público infantil. Clayton acredita que foi nesse potencial visual e divertido que o diretor Andy Serkis enxergou a possibilidade da adaptação animada.
Apesar disso, ele destaca que permanece a dúvida sobre como o filme irá tratar temas como autoritarismo e abuso de poder. “A nova adaptação parece que vai modernizar a história. Tem mais leveza que as outras, mas fica a dúvida: vai suavizar a crítica à perversão do poder e ao autoritarismo em nome do lúdico para crianças do século 21 ou vai botar a garotada — e os pais da garotada também — no debate político?”, questiona.
A força simbólica da animação
A cineasta e produtora Ara Martins, responsável pela animação sul-mato-grossense ‘+Forte’, destaca que as animações operam por meio de um regime de realismo próprio, mesmo quando trabalham com personagens estilizados, fantásticos ou animais antropomorfizados.
“Ela continua sendo capaz de produzir identificação emocional, tensão dramática e reflexão crítica. Em alguns casos, inclusive, a animação consegue abordar temas políticos e sociais complexos de maneira ainda mais potente, porque utiliza uma linguagem visual mais simbólica, lúdica e acessível”, explicou em entrevista ao jornal O Estado.
“Isso permite que obras como A Revolução dos Bichos atinjam públicos muito diversos ao mesmo tempo. A metáfora visual criada pela animação reduz certas barreiras de entrada que o realismo tradicional às vezes impõe, sem enfraquecer a crítica política. Pelo contrário: o distanciamento simbólico pode até intensificar a reflexão do espectador sobre temas como autoritarismo, manipulação e disputa de poder”, completa.
Pesquisadora e atualmente escritora de um artigo voltado para a linguagem da animação, e como ela pode estabelecer conexões profundas com o público, sem depender do realismo do live action, Ara acredita que a força da metáfora em ‘A Revolução dos Bichos’ vem, principalmente, da capacidade que a animação tem de humanizar os animais de maneira extremamente expressiva.
“A animação consegue fazer com que bichos assumam expressões faciais humanas, gestos, olhares, posturas corporais e modos de fala capazes de gerar identificação emocional imediata no público, sem perder sua natureza simbólica. Além disso, existe o contraste entre uma aparência aparentemente inocente ou até “fofa” e a violência do autoritarismo que vai surgindo ao longo da narrativa. E a própria liberdade visual da animação permite exagerar símbolos de poder, expressões, sombras e composições de cena de maneira muito impactante e simbólica”.
Para o crítico, conquistar tanto os fãs de George Orwell quanto um público que nunca leu a obra é uma tarefa complicada, mas que não deve ser a principal preocupação dos realizadores. Segundo ele, leitores mais assíduos costumam sentir falta de elementos do livro nas adaptações cinematográficas, mesmo quando elas são bem avaliadas. Para ele, o mais importante é captar a essência da obra original. No caso de “A Revolução dos Bichos”, acredita que a nova animação pode funcionar se conseguir aproximar as novas gerações da crítica política presente no livro. “Se a nova animação ‘Fazenda dos Animais’ conseguir desenvolver a mensagem política da obra de Orwell para crianças da geração alfa e jovens da geração Z, que costumam ter uma relação desiludida com os sistemas políticos tradicionais, pode até dar certo”, afirma.
Quando a animação vai além do infantil
Na visão da cineasta, esse movimento também ajuda a ampliar a percepção do público sobre o potencial da animação como linguagem artística. Ela explica que, historicamente, as animações foram associadas a narrativas infantis, principalmente no cinema comercial ocidental, mas destaca que produções independentes e animações japonesas já utilizam esse formato há muito tempo para abordar temas políticos, sociais e existenciais complexos.
“Acredito que produções como A Revolução dos Bichos, por serem obras comerciais, ajudam ainda mais a romper essa ideia de que animação seria uma linguagem restrita ao público infantil. Ela consegue tratar temas difíceis de maneira artisticamente sofisticada, visualmente impactante e emocionalmente muito potente”
A reflexão dialoga com a análise de Clayton, que aponta justamente a expectativa em torno da nova adaptação de Orwell: equilibrar o aspecto lúdico da animação sem suavizar as críticas políticas presentes na obra original.
Carolina Rampi
Acesse as redes sociais do Estado Online no Facebook e Instagram.