Monólogo de Giovana Zottino traz significado e memórias ao percorrer a vida intensa da atriz Beth Terras
Entre risos, luzes e bastidores, o espetáculo ‘Atriz de Quinta – Beth Terras por Trás das Luzes’ percorre a vida e obra de Beth Terras, criadora do grupo ADOTE (Companhia Teatral Ator Domingos Terras), que possui mais de 50 anos de carreira e 65 de existência. O espetáculo realizado no dia 3 de maio no Teatro Aracy Balabanian, costura memórias, afetos e personagens que marcaram sua jornada, revelando não apenas a artista, mas a mulher por trás de cada papel.
A peça foi desenvolvida como um monólogo, ou seja, um tipo de texto interpretado ou enunciado por apenas uma pessoa, que neste caso, é conduzido pela atriz e amiga de longa data de Beth, Giovana Zottino, que revelou ao jornal O Estado como foi trasformar a biografia da atriz em um solo cênico, com diversas camadas emocionais.
“Construir esse solo foi muito emocionante, não só por revisitar a história da Beth, mas também por revisitar a minha história com ela. É um solo muito pessoal, porque todas as histórias que eu conto no solo, no monólogo, são histórias que a Beth me contou”.
Essas histórias, foram relatadas assim, sem pretenção nenhuma: tomando um café, no meio de uma conversa, ou até mesmo nas salas de ensaio. A atriz diz que não foi preciso pesquisa em livros, jornais ou entrevistas, tudo foi feito da memória pessoal.
“São histórias que eu guardei na minha memória, no meu coração e transformei em texto. E eu comecei a fazer esse solo em forma de cena curta no aniversário da Beth, para ela, em forma de homenagem”, revela.
A cena, fica ainda mais impactante quando a atriz relembra da primeira vez que mostrou o solo a amiga. “Foi muito emocionante. Ela riu, chorou e ficou muito tocada com a homenagem. E depois daquele dia eu pensei: eu nunca mais vou fazer essa cena. Porque essa cena foi para a Beth, e era engraçado porque eu tinha uma vontade muito grande de homenagear a Beth naquele ano e fazer aquela cena naquele ano, que foi o ano em que ela faleceu. E, quando ela faleceu, as pessoas começaram a me indagar do porquê de eu não continuar fazendo essa cena. Porque as pessoas precisavam conhecer a história da Beth, as tristezas, as alegrias de ser uma artista como ela foi”, disse.
Emoção em cada lembrança
Do nascimento à despedida, a narrativa transita entre o trágico e o cômico, celebrando o teatro como refúgio, ofício, resistência e amor.
Em cena, em um solo teatral, uma única atriz dá vida às figuras que atravessaram essa história, revisitanto encontros, perdas e transformações que moldaram uma existência dedicada aos palcos. Para interpretar tantas personas, não só a de Beth, Giovanna precisou estudar corpo, voz e trejeitos em dobro, desafio que foi cumprido ao lado de Rafa Oliveira, responsável por dirigeir a peça.
“É uma pessoa [Beth] com quem eu convivi, com quem tive uma relação profunda de intimidade, mas também preciso dar vida a essas outras personagens, que precisam ter vozes diferentes, corpos diferentes, trejeitos diferentes e formatos diferentes, né? Porque estamos falando de vários personagens da TV e do teatro, que têm seus formatos próprios”, explicou.
“Está sendo um processo muito desafiador fazer um solo pela primeira vez em toda a minha carreira artística de 11 anos. Essa é, com certeza, a minha maior loucura e o meu maior desafio. Mas o Rafa tem me ajudado em todo esse processo, para que a gente consiga entregar o melhor possível”, complementa.
A peça transita entre o trágico e o cômico, jogando luz a mulher por trás da artista. Para Giovanna, a essa trasição a toca de forma profunda, tanto ao interpretar quanto ao lembrar de cada história contada pela amiga. Já a parte dos desafios, das tristezas e das lutas é muito tocante para mim, porque são histórias profundas e pesadas, de uma artista que tentou sobreviver em uma profissão tão árdua e difícil, e que viveu e morreu pensando e vivendo pelo teatro”, revela.
Os momentos de emoção também são compartilhados com o diretor, que foi aluno da ADOTE e fez parte de cada contação de histórias de Beth.
“É muito interessante construir esse espetáculo com o Rafa me dirigindo, porque ele também foi da ADOTE, conviveu por anos com a Beth e foi amigo dela. Muitas vezes, durante os ensaios, lembramos de algo que ela diria, de alguma informação que nos deu em vida, de um trejeito ou de um olhar. Isso torna o espetáculo muito mais vivo, real e também muito nosso. O espetáculo tem a nossa cara, porque a nossa escola foi a Beth Terras. Foi com ela que aprendemos a fazer teatro”.
Conexões
O espetáculo traz o teatro como refúgio, ofício, resistência e amor, o que dialoga com a vida e trajetória de Giovanna. “No palco, eu conto os desafios, as loucuras, as lutas, as alegrias e o amor de uma atriz pela sua profissão. Eu brincava com a Beth porque não conhecia ninguém que amasse tanto o teatro quanto ela, exceto eu mesma. Ela dizia que existe um ‘vírus do teatro’ e que, quando esse bichinho te pica, você nunca mais é o mesmo, você se torna um eterno artista. E eu sinto que o mesmo bichinho que picou a Beth me picou também”.
Com um espetáculo tão visceral, a atriz acredita que também coloca um pouco de si, mostrando sobre as lutas da profissão, os dias exaustivos, mas que não deixam de serem mágicos. “No palco, não coloco para fora apenas as queixas da Beth, mas as minhas também. Eu falo sobre o que é ser artista no Brasil e no Mato Grosso do Sul, sobre a dificuldade de montar espetáculos sem patrocínio, sem parcerias, sem apoio, de forma completamente independente”, desabafa.
“Esse espetáculo caminha entre os desabafos de Beth Terras e os meus, e também de todos que vivem da arte. É doloroso e, ao mesmo tempo, profundamente satisfatório continuar sendo artista, apesar da instabilidade e de todas as lutas que atravessamos para conseguir criar aquilo em que acreditamos”, complementa.
Ela ainda conta que a peça será um verdadeiro espetáculo sensorial para o público, com diversos elementos cênicos como dança, música, canto e uma utilização completa do cenário, além de interação com a platéia.
“A ideia é que o público sinta como se estivesse entrando no camarim de um teatro e conhecendo o que existe por trás das luzes, revisitando a história de uma pessoa tão importante para Mato Grosso do Sul e vivendo uma experiência realmente única”.
Além disso, a sessão acontece no dia 3 de maio, data do aniversário de Beth Terras, quando ela também celebrava o aniversário do grupo ADOTE e de um dos espetáculos mais marcantes da companhia.
“Por isso, além de tudo, é um espetáculo de aniversário. Celebramos não apenas a vida de Beth, mas tudo o que ela construiu a partir do ADOTE. Há referências ao grupo, aos espetáculos e à trajetória de 24 anos da escola desde a entrada do público no teatro. É um dia especial de comemoração, preparado com muito amor e carinho para que o público viva esse aniversário em forma de espetácul.
Serviço: O monólogo “Atriz de Quinta – Beth Terras Por Trás das Luzes’ é encenado pela atriz Giovanna Zottino, com direção de Rapha Oliveira, produção de Daniel Smidt e realização da Companhia Teatral Ator Domingos Terras (ADOTE) será realizado no dia 3 de maio, às 19h, no Centro Cultural José Octávio Guizzo / Teatro Aracy Balabanian, Campo Grande – MS. Os ingressos estão disponíveis no Sympla.
Por Carolina Rampi