A partir desta quarta-feira (22), a Casa Amarela realiza em Campo Grande uma exposição cercada por memória, arte e experiência sensível, com a abertura do projeto ‘Pontes Imaginárias: Lídia Baís, e a arte de unir mundos’. A iniciativa marca os 126 anos de nascimento da artista e integra a progamação nacional que, neste ano, propõe o tema ‘Museus unindo um mundo dividido’.
A exposição segue aberta até o dia 23 de maio, com uma programação ampliada que transforma a Semana Nacional dos Museus em um verdadeiro mês de atividades na Casa Amarela, localizada na Rua dos Ferroviários, 118, região central da Capital.
O grande destaque é a apresentação pública na quarta-feira (22), às 18h, do catálogo original da única exposição realizada por Lídia Baís em vida, um documento raro, sem data precisa, mas que se estima ter sido produzido entre as décadas de 1930 e 1935. “Trata-se de uma peça histórica, que nunca havia sido exibida dessa forma. Ela revela não apenas a produção artística da pintora, mas também registros da cena cultural e das relações que atravessavam aquele período”, destaca a idealizadora do projeto, Tatiana De Conto.
“O público encontra não apenas estética de Lídia, encontra a história viva de Campo Grande em espelho, um espaço de reconhecimento interno e de conexão com aquilo que ainda busca nome”, complementa Tatiana, que é também arteterapeuta e uma das gestoras da Casa Amarela, ao lado do artista Guido Drummond.
Para Tatiana, a apresentação pública do catálogo original da única exposição realizada por Lídia Baís em vida carrega um profundo significado simbólico e histórico, por representar um resgate da memória e da autonomia da artista. “Apresentar esse catálogo é, antes de tudo, um gesto de restituição histórica. Trata-se de um material organizado pela própria Lídia Baís na década de 1930, para o que ela chamou de Museu Baís — um espaço que ficou aberto por pouquíssimo tempo, mas que revela sua autonomia, visão e desejo profundo de ser reconhecida como artista. Ao trazer esse documento ao público hoje, damos continuidade à resistência que ela mesma iniciou em vida”, explica.
“É também uma forma de reposicionar sua trajetória na história da arte, reconhecendo uma mulher que insistiu em criar e existir artisticamente, mesmo diante de silenciamentos. Vale lembrar que, após essa iniciativa, houve apenas outra exposição relevante em 1980, organizada por Glorinha de Sá Rosa — o que reforça ainda mais o valor histórico desse material”, complementa.
Lídia Baís: uma artista à frente de seu tempo
O poder da arteterapia
A programação marca o nascimento de Lídia Baís, no dia 22 de abril de 1900. A abertura às 18h, com a exposição do catálogo histórico e o sarau “Unindo Mundos”, também celebra o Dia do Arteterapeuta. Esse último conta com a parceria da AATEMS (Associação de Arteterapia do Estado de Mato Grosso do Sul).
“Nosso intuito é seguir por um mês com atividades que aprofundam o contato com o universo de Lídia. Tivemos a proposta ousada de estender a Semana dos Museus para um mês inteiro de programação, porque entendemos que uma semana seria muito pouco para trabalhar a vida da artista”, afirma Guido Drummond.
Ao longo de maio, nos dias 6,13 e 22, a programação inclui oficinas de arteterapia ministradas por Tatiana De Conto, baseadas em seu livro “Lídia Baís, uma mulher à frente de seu tempo”, lançado em 2023.
“A arteterapia utiliza processos criativos como forma de escuta e elaboração emocional. Nas oficinas, trabalhamos a partir da vida e da obra de Lídia para acessar questões internas, memória e identidade. São experiências que convidam à criação e ao encontro consigo e com o outro”, explica Tatiana.
Segundo Tatiana, a arteterapia é a base que sustenta toda a proposta do projeto, permitindo que o público vá além da compreensão racional da obra de Lídia Baís e a vivencie de maneira sensível e subjetiva. “A arteterapia é a espinha dorsal do projeto. Ela permite que o público não apenas compreenda a obra de Lídia racionalmente, mas que a vivencie de forma sensível e subjetiva. A trajetória da artista se torna um disparador de processos internos: suas imagens, símbolos e narrativas abrem caminhos para que cada participante acesse suas próprias histórias, emoções e memórias. Lídia deixa de ser apenas objeto de estudo e passa a ser presença mediadora, alguém que, através da arte, nos ajuda a elaborar o que muitas vezes não conseguimos dizer em palavras.”
As oficinas propõem experiências de criação a partir da escrita, da costura e da assemblagem, técnica artística que reúne diferentes materiais e objetos recicláveis, como caminhos de expressão e elaboração simbólica.
Toda a programação dialoga com a Semana Nacional dos Museus, realizada oficialmente em todo o Brasil entre os dias 18 e 24 de maio, mas que, na Casa Amarela, ganha uma dimensão ampliada.
“Antecipamos o início das atividades para abril e estendemos a Semana dos Museus – de 22 de abril a 23 de maio – porque entendemos que uma semana seria pouco para trabalhar a potência da obra de Lídia e a importância dessa data”, justifica Guido.
Além da programação com músicas, leituras e poemas, a finalização do projeto propõe um gesto coletivo e simbólico: a intervenção em um muro da Casa Amarela.
Esse momento marca a passagem da escuta para a ação. Depois de atravessar a obra e a vida de Lídia Baís, suas dores, sua força e sua resistência em existir como artista, o público é convidado a deixar sua própria marca no espaço.
O muro se torna, assim, um território de expressão compartilhada, onde memórias, sentimentos e reflexões ganham forma. Mais do que um encerramento, é a continuidade viva do projeto: uma ponte entre arte e vida, entre o individual e o coletivo, entre passado e presente.
Tatiana acredita que a experiência do público na exposição é “integral”, tanto pela arte quanto pela localização. “Estamos numa casa tombada do complexo ferroviário, aqui a memória está na madeira, no cheiro; há um contato histórico importante”, disse.
“Mas, sobretudo, é uma experiência pessoal e sensível. O público é convidado a se implicar, a sentir, a refletir. Não se trata apenas de conhecer uma artista, mas de se reconhecer a partir dela, de atravessar pontes internas e sair do encontro de alguma forma transformado.”, finaliza.
A iniciativa reforça ainda o papel da Casa Amarela como museu de território e arte urbana, um espaço que vai além da estrutura física e se conecta com as memórias e vivências da comunidade. Desde 2017, o local se tornou Museu de Arte Urbana (MUAU) e atua na valorização da arte e das narrativas que constroem a identidade cultural da Capital. A programação da Semana dos Museus está disponível pelo Instagram @casa.amarela.muau e as inscrições das oficinas pelo telefone (67) 9 9189-7034 – Whatsapp.
Programação:
22 de abril (quarta-feira)
* Abertura da exposição – Catálogo de obras de Lídia Baís (18h)
* Sarau “Unindo Mundos” – Dia do Arteterapeuta
6, 13 e 20 de maio (quartas-feiras)
* Oficina arteterapêutica “Tempos do feminino – pontes em Lídia Baís”
23 de maio (sábado)
* Exibição de documentários – Projeto Histórias do Tombamento do Complexo Ferroviário
Serviço: A exposição ‘Pontes Imaginárias: Lídia Baís e a arte de unir mundos, será realizada do dia 22 de abril a 23 de maio, na Casa Amarela – Rua dos Ferroviários, 118 – região central de Campo Grande (MS). A entrada para a exposição é de R$ 25.
Por Carolina Rampi
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