Água virtual revela consumo invisível de milhares de litros por dia”

Foto: Masrcos Maluf
Foto: Masrcos Maluf

Ela não está apenas onde se pode ver, mas na produção de diversos processos ao longo da vida

Neste domingo (22), é celebrado o Dia da Água. A data, que é lembrada no mundo todo, foi oficializada pela Assembleia Geral da ONU (Organização das Nações Unidas) em 1993 e tem como objetivo colocar em foco as discussões sobre a preservação do recurso natural primordial à vida na Terra.

Para além da água que os seres humanos ingerem e percebem, há também um tipo de consumo que não é tão perceptível no dia a dia: o chamado ‘consumo invisível’ ou ‘água virtual’. A água é um elemento básico para a existência da vida no planeta Terra e faz parte do cotidiano, até mesmo quando não se dá conta.

Em entrevista ao jornal O Estado, o geógrafo e professor Marco Aurélio Plaça explica o que é esse conceito. “Consumo invisível de água é o que chamamos de ‘água virtual’. É toda a água gasta no processo produtivo, desde a matéria-prima até o produto final. Dentro desse processo, temos produtos que gastam milhares de litros de água e as pessoas não percebem”.

De acordo com o site do Governo Federal do Brasil, alimentos em natura, que significam que não foram alterados depois de deixarem a natureza, ou os minimamente processados, contêm alto teor de água, em sua maioria. Leite e muitas frutas possuem entre 80% e 90% de água, já verduras e legumes cozidos ou na forma de saladas costumam ter mais do que 90% do seu peso em água; carboidratos como macarrão, batata ou mandioca têm cerca de 70% de água e um prato de feijão com arroz é constituído de dois terços de água.

Aliado a isso, cria-se o conceito de ‘pegada hídrica’, que, em resumo, se trata de um indicador que mede o volume total de água doce que uma pessoa, empresa ou nação utiliza conforme seus hábitos de consumo.

Foto: Nilson Figueiredo

Para o profissional, a importância da conscientização está no fato da população começar a perceber não apenas sobre o gasto de água visível, mas também sobre a forma como o sistema produtivo opera.

E o MS?

O professor faz uma relação entre a exportação de produtos agrícolas e pecuários com o consumo invisível de água, já que Mato Grosso do Sul se apresenta como um ótimo agente nessa questão: quanto mais produção, óbvio, mais consumo de água virtual. Isso significa que o gasto hídrico varia entre regiões.

“O Mato Grosso do Sul tem um consumo de água virtual total considerável justamente pelo fato de que aqui a pecuária extensiva é muito forte”, afirma. Além disso, os frigoríficos que exportam, sobretudo, para o Oriente Médio e a produção de grãos no geral também desempenham altos números na chamada ‘pegada hídrica’.

Responsabilidade

Para quem pensa que pode resolver esse problema economizando água nas pequenas ações do dia a dia, Plaça é direto e sincero: “aquele papo de ‘faça xixi no banho’ e ‘feche a torneira na hora de escovar os dentes’ são economias muito pequenas e é muito mais didático do que prático. Na verdade, o que vai fazer você economizar água mesmo é mudar hábitos e comportamentos do dia a dia que são muito mais abrangentes”. Em suma, quanto mais você consome, mais água você gasta, mesmo que não perceba.

É claro que é possível reduzir os gastos, mas com movimentos para representar o próprio estilo de vida. Isso também está ligado à reciclagem, a reutilização de diversos itens também contribui para a economia de água.

O geógrafo comenta que em alguns países, a venda de cereais a granel, por exemplo, é um incentivo para a diminuição no consumo de água virtual. Nesse modelo a pessoa leva seu próprio recipiente de casa na hora das compras, a fim de reduzir as embalagens. “Isso gera uma economia enorme de consumo de água, porque não foi produzido um plástico nesse processo”.

Cadeia produtiva

Para Plaça, o grande vilão não é o indivíduo por si só. “É claro que as cadeias produtivas são as grandes responsáveis. As formas de produção precisam ser mais eficientes e precisam ter leis que pressionem a cadeia produtiva a se adequar a modelos que consumam menos água, isso o Brasil tem dificuldade de implementar e fazer valer”.

Dia Zero

O professor explica que se esse modelo de produção e consumo não mudarem, o ser humano está cada vez mais próximo do ‘estresse hídrico’: reservatório de água disponível insuficiente para a quantidade de habitantes em um determinado lugar.

Em anos não muito distantes, algumas cidades do mundo enfrentavam ameaças do que é chamado de ‘Dia Zero’: o momento em que os reservatórios não contêm mais água doce potável. Foi o caso da Cidade do Cabo, capital da África do Sul, em 2018. A região só foi salva por uma chuva que chegou antes do esgotamento parcial ou total.

Na produção de um único smartphone, são utilizados 12.760 litros de água, segundo o relatório Mind your Step, da Trucost.

A Waterfootprint revelou que uma única maçã, demanda 125 litros de água. Esse cálculo é feito levando em consideração a água da irrigação durante todo o seu cultivo.

Um levantamento da ONU mostra que uma pessoa consome de dois a cinco mil litros de água invisível contida nos alimentos que come, por dia.

A agricultura é responsável pelo maior consumo de água doce no mundo, de acordo com a ONU. No Brasil a irrigação consome cerca de 60% desse recurso natural, segundo a Agência Nacional das Águas.

A pecuária também é responsável por um alto consumo de água. Para cada quilo de carne bovina, são gastos mais de 15 mil litros de água. Dentro dessa quantidade está considerada não somente a água utilizada na hidratação do gado, mas todo o gasto com limpeza e resfriamento do frigorífico.

Uma calça jeans necessita de 10.850 litros de água para ser produzida, em média. Esse valor é o necessário para suprir o consumo residencial de uma pessoa por mais de três meses. Esse número leva em consideração os gastos em: irrigação do algodoeiro, matéria-prima utilizada para fabricar a peça e a confecção da roupa.

*Com informações do CEIVAP (Comitê de Integração da Bacia Hidrográfica do Rio Paraíba do Sul) e da AGEVAP (A Associação Pró-Gestão das Águas da Bacia Hidrográfica do Rio Paraíba do Sul)

Por Maria Gabriela Arcanjo 

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