Entrevista: Entenda como funciona a Síndrome de Rett e o possível diagnóstico

Aline Voigt Nadolni, mãe  de Maria Clara, 13 anos. Voluntária. Rio de Janeiro - Foto: Divulgação
Aline Voigt Nadolni, mãe de Maria Clara, 13 anos. Voluntária. Rio de Janeiro - Foto: Divulgação

Outubro é o mês internacional de conscientização sobre a Síndrome de Rett. Conheça um pouco do trabalho voluntário de famílias brasileiras e saiba por que ele é tão importante.

A entrevistada da semana de O Estado Play é Aline Voigt Nadolni, mãe de Maria Clara, 13 anos, voluntária, no Rio de Janeiro. que abordará o trabalho feito pela Abre-te (Associação Brasileira de Síndrome de Rett), no Rio de Janeiro, no auxílio a famílias de pessoas que passam por essa condição rara.

Entre o final dos anos 50 e início dos anos 60, os pediatras Andréas Rett (Áustria) e Bengt Hagberg (Suécia) começaram, de forma independente, a estudar uma condição que, mais tarde, viria a ser conhecida como a Síndrome de Rett. No final da década de 1970, eles se encontraram casualmente em um evento científico realizado no Canadá, o que permitiu o desenvolvimento do primeiro relato sobre a síndrome em língua inglesa. Este relato foi publicado em 1983 por Hagberg e mais dois autores e amplamente divulgado para a comunidade científica.

No Brasil, os primeiros casos de Síndrome de Rett foram publicados pelo Dr. Sérgio Rosenberg e sua equipe (Santa Casa de São Paulo) em 1986. Impactados com o diagnóstico de sua filha Catarina, em 1987, e enfrentando o grande desconhecimento sobre a Síndrome de Rett, o casal Isis e Claudio Riechelmann conseguiu informação e apoio em uma associação internacional, fundada por uma também mãe de menina com Rett.

Na noite de ontem (26), o Cristo Redentor, localizado o Rio de Janeiro, ficou roxo em homenagem às pessoas com Síndrome de Rett Foto: Divulgação

O medo e a solidão deram lugar à resiliência e uma grande doação e, em 1990, Isis e Claudio fundaram a Abre-te (Associação Brasileira de Síndrome de Rett), no Rio de Janeiro. Hoje, com 31 anos, a Associação se mantém ativa através do esforço de voluntários, a maioria pais de pessoas com Rett e tem como missão o amparo às famílias; a disseminação de conhecimentos sobre a Síndrome e a busca de políticas públicas que suportem a qualidade de vida dos pacientes. Sua sede fica na cidade de São Paulo, mas a sua atuação é nacional, através de líderes regionais.

Confira a entrevista:

O Estado Play: O que é a Síndrome de Rett?

Aline Voigt: A Síndrome de Rett é uma severa desordem do neurodesenvolvimento, na maioria das vezes, causada por mutações em um gene específico. Apesar de ser classificada como rara, a Síndrome de Rett é a segunda principal causa genética de deficiência intelectual em meninas. A prevalência da Síndrome de Rett é de 1 em cada 10.000 a 20.000 pessoas do sexo feminino. Se formos considerar os nascimentos de pessoas do sexo feminino publicados pelo IBGE e a prevalência da Síndrome estima-se que, a cada 5 dias, nasça uma menina com Síndrome de Rett no Brasil. Entretanto, apesar de ter maior incidência em meninas, é sempre importante esclarecer que a Síndrome também pode afetar meninos.

O Estado Play: Qual é o gene que, se mutado, causa a Síndrome de Rett?

Aline Voigt: A grande maioria dos casos de Síndrome de Rett está associada a mutações em um pequeno gene, chamado de MECP2, localizado no cromossomo X. Este gene tem grande importância no controle de outros genes porque a proteína por ele produzida (chamada de MeCP2) atua como que “desligando” outros genes durante fases específicas do desenvolvimento neuronal, como um maestro de uma orquestra. Quando o gene MECP2 está mutado, ele vai produzir esta proteína defeituosa, incapaz de exercer adequadamente sua função. Assim, os genes que deveriam estar “desligados” durante determinadas fases do desenvolvimento dos neurônios permanecem “ligados”, resultando em prejuízos ao desenvolvimento do sistema nervoso central. Em uma parcela pequena das pessoas que preenchem os critérios clínicos para a Síndrome de Rett, a mutação no gene MECP2 não é identificada.

O Estado Play: O que a Síndrome de Rett causa no indivíduo?

Aline Voigt: Os bebês nascem saudáveis sem quaisquer intercorrências e o desenvolvimento precoce é aparentemente normal. As primeiras manifestações da Síndrome de Rett ocorrem, tipicamente, entre o 6º e o 18º mês de vida, quando começa a ocorrer uma parada no progresso do desenvolvimento e se observam alguns atrasos nos marcos de desenvolvimento infantil, como se sentar sozinho ou engatinhar. Em seguida, se observa uma fase de regressão, com perdas de habilidades já adquiridas, como a capacidade de manusear objetos e a perda da linguagem falada, nos casos em que a criança chegou a desenvolver uma linguagem inicial na forma de palavras ou frases simples. Na fase de regressão, também, existe uma perda do contato social da criança, o que pode levar a um diagnóstico incorreto de autismo. Também estão presentes crises de choro inconsoláveis, aparentemente sem motivo.

Ainda nesta fase, surgem os movimentos estereotipados das mãos, que são a “marca registrada” da forma clássica da doença. Esses movimentos, geralmente, são como bater, lavar ou torcer as mãos, apertar ou bater as mãos em alguma outra parte do corpo e levar às mãos à boca e são não intencionais, se intensificando quando a criança está feliz ou irritada. Após o período de regressão, ocorre uma fase de estabilização com evidente melhora na interação, na socialização e no contato visual. A partir dos 10 anos de idade, podem, em alguns casos, ser observadas perdas motoras tardias, como a perda da capacidade de andar e redução da destreza corporal. O resultado desta evolução da Síndrome é que a pessoa com Rett normalmente não é capaz de falar e ter uso funcional das mãos, comumente são incapazes de andar e são dependentes de atenção 24 horas por dia. Outras manifestações incluem: bruxismo, distúrbios do sono, distúrbios de movimento, escoliose, disfagia, osteopenia, epilepsia, refluxo gastroesofágico e distúrbios respiratórios como hiperventilação e apnéia. Todos estes aspectos afetam profundamente a qualidade de vida da pessoa com Rett e de sua família.

Ludmilla Motta Domingues, mãe de Eduarda Motta Domingues , 31 anos, de Maceió -Alagoas

O Estado Play: A Síndrome de Rett é hereditária?

Aline Voigt: Cerca de 99,5% dos casos de Síndrome de Rett são esporádicos, ou seja, sem antecedentes familiares. São mutações genéticas chamadas de mutações “de novo”, que surgem num indivíduo sem que nenhum dos seus genitores apresente a mesma alteração. Nos raros casos hereditários, a mutação é herdada da mãe, que não apresenta o quadro clínico de Síndrome de Rett.

O Estado Play: Como é possível, nestes casos, a mãe não ter os sinais da Síndrome?

Aline Voigt: As mulheres possuem, em todas as suas células, dois cromossomos X. Um deles ativo e outro inativo. É possível que a mãe tenha uma inativação favorável do cromossomo X mutado a ponto de não manifestar Síndrome de Rett. Outra possibilidade é a ocorrência do que se chama de mosaicismo gonadal, quando o cromossomo X mutado é encontrado apenas nas células da linhagem germinativa materna, ou seja, nos óvulos. Apesar dos casos hereditários serem bastante raros (0,5%), indicamos às famílias que desejam ter mais filhos, que busquem aconselhamento genético, para avaliar esta possibilidade de recorrência.

O Estado Play: Por que a Síndrome de Rett acomete mais meninas?

Aline Voigt:: Porque a grande maioria das mutações do tipo “de novo” do cromossomo X tem origem no espermatozoide. Como os pais dão um cromossomo X às filhas e um cromossomo Y aos filhos, a mutação MECP2 em um espermatozoide só pode ser transmitida de pai para filha.

O Estado Play: Como é o diagnóstico de Síndrome de Rett?

Aline Voigt:: O diagnóstico é feito com base na clínica da pessoa e, por isso, sua história é muito importante quando se investiga a Síndrome de Rett. A história clínica do paciente e seu desenvolvimento são avaliados e comparados com critérios de diagnóstico e de exclusão estabelecidos internacionalmente, que irão direcionar para um diagnóstico de Síndrome de Rett Típica (ou clássica) ou Síndrome de Rett Atípica (ou variante) ou irão descartar a possibilidade de Síndrome de Rett. Havendo enquadramento em critérios clínicos para Rett são realizados exames de sangue capazes de identificar mutações no gene MECP2 e ratificar o diagnóstico clínico. Esta etapa é o que chamamos de diagnóstico molecular.

O Estado Play: Quais as manifestações que levam à suspeita da Síndrome de Rett?

Aline Voigt:: Os critérios principais para diagnóstico de Rett são: perda parcial ou total de habilidades manuais funcionais já adquiridas; perda parcial ou total de linguagem falada já adquirida (o que inclui a perda do balbuciar); anormalidades na marcha (não anda, anda com base alargada ou caminha sem destino intencional) e movimentos manuais estereotipados. Estes quatro critérios sempre serão observados em pessoas com Rett na sua forma típica. Para pessoas com Rett Atípica, pelo menos dois destes critérios estarão presentes. O médico também lançará mão de critérios de suporte para o diagnóstico de Rett como distúrbios respiratórios e bruxismo em vigília, sono prejudicado, tono muscular anormal, e outros que compõem uma lista de 11 critérios de suporte e avaliar o enquadramento do paciente em algum critério de exclusão (como traumatismos ou doenças metabólicas). Mas, para ambas as formas de Síndrome de Rett, será obrigatória a presença de período de regressão seguido de melhora ou estabilização. Esse potencial para alguma recuperação de habilidades enfatiza a importância da aquisição de um histórico cuidadoso para determinar a presença de regressão.

O Estado Play: A Síndrome de Rett tem cura?

Aline Voigt:: A Síndrome de Rett é uma condição que ainda não tem cura ou tratamento específico para suas manifestações clínicas. Apesar da atual inexistência de tratamento que mude o curso da doença, é sempre importante frisar que o manejo de condições clínicas associadas como epilepsia, distúrbios respiratórios, distúrbios gastrointestinais e escoliose, são fundamentais.

Outra informação que sempre deve ser ressaltada é que muitas pesquisas estão em andamento mundo afora. Tais pesquisas englobam a redução e o controle de manifestações clínicas que são, geralmente, complexas e graves e englobam a causa genética. Neste último caso, por exemplo, estão pesquisas em terapia genética e reposição daquela proteína MeCP2 defeituosa. O que acontece hoje é um reflexo do ano de 2007, quando pesquisadores mostraram para o mundo a possibilidade de reversão de alguns sintomas em modelos animais já adultos (ratos) com a Síndrome, através do restabelecimento de níveis apropriados de proteína MeCP2, rebatendo a ideia de dano neuronal irreversível. Além de abrir novos caminhos para as diversas pesquisas que hoje estão em andamento, este estudo reforçou ainda mais a percepção de que Rett é uma severa desordem de desenvolvimento e não uma doença neurodegenerativa e que, apesar dos neurônios terem morfologia diferenciada, não há morte neuronal.

O médico Fernando Regla Vargas explicando sobre a Síndrome de Rett – Foto: Divulgação

O Estado Play: Como, então, melhorar a qualidade de vida do paciente?

Aline Voigt:: Há muitas intervenções que podem ajudar essas pessoas a ter uma vida significativamente mais saudável. É sabido que os acompanhamentos médico e terapêutico interdisciplinares e adequados impactam positivamente na qualidade de vida e na longevidade da pessoa com Rett. É importante ressaltar que a gravidade e o conjunto de problemas de saúde causados pela Síndrome de Rett diferem de pessoa para pessoa. Além disso, atenção deve ser dada também às questões relativas à sua faixa etária, como acontece para todo indivíduo. A despeito da idade e da severidade do quadro, toda pessoa com Rett precisa de acompanhamento interdisciplinar com foco preventivo, de forma que estas pessoas tenham uma vida de qualidade e que possam se beneficiar, futuramente, dos resultados das pesquisas que estão, hoje, em andamento. Mas, para que isso seja possível, duas coisas são essenciais: a Síndrome precisa ser mais conhecida e precisa haver políticas públicas que garantam o acesso a este acompanhamento.

O Estado Play: E onde entra o trabalho da Associação, a Abre-te, neste cenário?

Aline Voigt:: O conhecimento sobre as características clínicas e a história natural da Síndrome de Rett evoluíram de maneira surpreendente. Entretanto, ainda se trata de condição muito desconhecida por médicos, terapeutas e educadores que não fazem ideia do que seja a Síndrome de Rett. Em outros casos, observamos uma desatualização grande, por exemplo, em classificar a Síndrome como neurodegenerativa, o que impacta de forma significativa a família e as condutas adotadas. Trabalhamos para conscientizar a sociedade e os profissionais de saúde de que há muito que podemos fazer pela pessoa com Rett, a partir da visão de que cada indivíduo é único e não há como prever a severidade na qual a síndrome se manifestará em cada um. O caminho certo é sempre agir preventivamente, de forma a melhorar a qualidade de vida destas pessoas através da assistência adequada. Relativo ao diagnóstico, percebemos que os casos cadastrados na Abre-te estão aquém das estatísticas internacionais, o que nos leva a crer que muitas pessoas podem, hoje, estar vivendo com Rett no Brasil, sem estarem devidamente diagnosticadas. Isto as impede de ter a atenção de saúde e assistência terapêutica necessárias. Neste sentido, divulgar as características da síndrome está entre os objetivos da Associação, de forma a viabilizar a suspeita diagnóstica e o diagnóstico clínico.

O Estado Play: Alguma mensagem final, para o leitor?

Aline Voigt:: Sim! Para toda a sociedade! Historicamente, a Síndrome de Rett tem sido vista como um distúrbio neurodegenerativo. Hoje, sabe-se que isso é incorreto e que um número expressivo de mulheres está chegando aos 50 anos com assistência médica e suporte adequados. Então, de forma alguma, seu diagnóstico deve limitar seu acesso às terapias e deve ser feito trabalho intenso para manter e até mesmo recuperar algumas habilidades que podem ser perdidas, por exemplo, em períodos de internação ou adoecimento. Além disto, precisamos pensar que a pessoa com Rett não é definida pelo seu diagnóstico. Ela tem sua personalidade, seus interesses, seus desejos. Apesar da maioria não conseguir demonstrar o que deseja e o que sente, pela ausência de fala e de uso funcional das mãos, a pessoa com Rett compreende muito mais do que se imagina e busca intensa comunicação através do olhar. Então, devemos a elas todo respeito e toda empatia, pois suas batalhas são enormes e sua força é gigante. Precisamos estar abertos. Então, Abre-te!

Veja a última live do médico Fernando Vargas sobre a Síndrome de Rett:

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