A Santa Casa de Campo Grande aprimorou a forma de acessar a prestação de contas do hospital. Agora, com poucos cliques, ficou mais simples conferir os gastos da instituição: a página da transparência pode ser acessada por meio do site oficial da Santa Casa pelo endereço eletrônico santacasacg.org.br/prestacao-de-contas. Essa nova modalidade já contém os dados desde o primeiro mês de 2026 e eles podem ser acessados por qualquer cidadão brasileiro.
Foram oito meses dedicados não apenas a aprimorar a navegação, mas também a garantir que os documentos acessados realmente mostrem alguma coisa. Assim, hoje, podem ser consultadas entradas, saídas, notas fiscais e demais comprovações do fluxo de caixa. Antes a transparência funcionava em forma de balanço.

FOTO: ROBERTA MARTINS
Em entrevista exclusiva ao jornal O Estado, a presidente Alir Terra Lima afirmou que a iniciativa veio após uma análise interna. “Nós sentimos a necessidade de facilitar mais a navegação para que as pessoas possam acessar de fato. Somos uma instituição filantrópica, quanto mais nós conseguirmos abrir as nossas portas em relação à transparência, melhor é para a instituição e para a sociedade”, diz.
Para a presidente, quanto mais o cidadão souber sobre o funcionamento do local, melhor ele compreenderá as dificuldades que o sistema enfrenta. “Muitas vezes, a Santa Casa recebe críticas, e foi por conta delas que nós decidimos avançar lá atrás, sempre buscamos um sistema onde as pessoas possam conhecer o interior do hospital, que é um local muito complexo. Quando a Santa Casa deixa de realizar determinados atendimentos eletivos, as pessoas não conseguem entender, elas acham que a Santa Casa recebe muito dinheiro e querem saber o que estamos fazendo com esse dinheiro. O portal transparência é isso, ele diz o que estamos fazendo com as verbas”.
Superlotação
Alir expõe as dificuldades que a Santa Casa enfrenta e afirma que há pouca compreensão dada à instituição. A superlotação que acontece em várias áreas do hospital não resulta apenas de uma falha estrutural, mas sim de um conjunto de fatores muito maior.
“As pessoas não conhecem a complexidade de um hospital. Por exemplo, nesta terça-feira (17), a área verde da Santa Casa estava com uma ocupação mais de 14 vezes acima do que é compatível com a contratualização. Nesse setor nós conseguimos acomodar confortavelmente sete pacientes. Embora tenhamos feito uma ampliação, não há leito para 100 pessoas”, reforça.
Mesmo quando não existem mais leitos disponíveis, há casos em que a Santa Casa da Capital não pode simplesmente negar um paciente. O hospital é o único no Estado que possui uma RUE (Rede de Urgência e Emergência), então todos os atendimentos que chegam nesse sentido precisam ser feitos. “Como a Santa Casa faz parte da rede, ela não pode recusar o paciente que é colocado lá, ainda que não tenha vaga”, afirma.
Verbas insuficientes
Para a presidente, a maior dificuldade da Santa Casa hoje está no financeiro. Ela comenta que, quando o número de internações ultrapassa o previsto, não é somente com leitos que a gestão se preocupa. “Quem chega também necessita de medicamentos. Como eu vou comprar essa quantidade maior se eu não tenho reajuste do contrato?”.
Segundo ela, os repasses são feitos, mas, hoje, já não acompanham mais as necessidades do hospital, o que justifica os atrasos nos salários dos colaboradores. “Se eu preciso escolher entre comprar remédio e pagar os médicos, minha decisão é por salvar vidas. Um pagamento atrasado eles podem receber depois, uma vida ceifada não tem volta. Nós sempre vamos escolher os pacientes”.
As discussões sobre a contratualização continuam e a presidente informa sobre a necessidade de agilidade nessa questão, já que, enquanto as negociações são feitas, todos os atendimentos continuam. “Pela demanda que o hospital tem, pelo número de pessoas que recebe, o valor do contrato não cobre os custos atualmente”.
Além disso, a diretoria precisa pensar estrategicamente onde as verbas serão utilizadas, já que o valor é insuficiente para atender todas as demandas. “Os recursos que tínhamos para terminar o pronto-socorro foram designados ao pagamento dos médicos, e era necessário porque já estava atrasado há um tempo. Então suspendemos as reformas”.
Auditoria
Em fevereiro deste ano, a Prefeitura Municipal de Campo Grande publicou nomes dos servidores que irão atuar em uma auditoria especial realizada na Santa Casa para analisar o uso de recursos públicos pela instituição.
Sobre as investigações, a gestora não consegue adiantar o resultado, mas afirma que o hospital está tranquilizado. “A direção da Santa Casa vai fornecer todos os documentos necessários e a grande maioria já está no portal”. Mesmo assim, ela discorda do motivo central da ação. “A minha visão, enquanto gestora, é que essa auditoria deveria ser em termos de serviço prestado, o custo do serviço, o valor recebido e se bate”.
Ao finalizar, Alir diz que seu maior desejo é que a instituição seja reconhecida pelo que ela realmente representa. “A Santa Casa precisa ser vista com esse carinho tanto pelos gestores públicos como pela população. Se fala muito do lado negativo da Santa Casa, mas e o que ela já prestou para Mato Grosso do Sul?”.
Por Maria Gabriela Arcanjo