O Carnaval de 2026 chegou ao fim em Campo Grande com um balanço preocupante na saúde pública. Segundo a Sesau (Secretaria Municipal de Saúde), 44 atendimentos foram registrados entre os dias 13 e 17 de fevereiro nos postos da Esplanada Ferroviária e da Praça do Papa. O que mais chamou a atenção das autoridades foi a causa principal das ocorrências: quadros de desidratação e o consumo excessivo de álcool lideraram a procura por socorro médico.
O cenário de jovens ingerindo bebidas alcoólicas nas festividades tornou-se uma realidade alarmante e cada vez mais precoce. Embora a venda para menores de 18 anos seja proibida por lei, dados do Ministério da Justiça e Segurança Pública confirmam um avanço no consumo entre adolescentes de 14 a 17 anos, desafiando as políticas de prevenção.
Sobre isso, o que mais chama atenção é a mudança no perfil: as meninas já ultrapassam os meninos quando o assunto é consumo de álcool. Segundo o levantamento, 29,5% das meninas já consumiram bebida alcoólica ao menos uma vez na vida, enquanto entre os meninos o índice é de 25,8%.
A preocupação com o consumo precoce é reforçada pelo avanço dos transtornos relacionados ao álcool entre adolescentes brasileiros. Embora o índice tenha caído de 8% em 2006 para 4,6% em 2012, os números voltaram a subir em 2023, atingindo 5,7% — hoje, um em cada nove jovens já apresenta critérios de dependência ou uso nocivo.

Eduardo destaca que
o álcool é tão perigoso
quanto outras drogas – Foto: Divulgação
Para o psiquiatra e especialista em saúde mental, Eduardo Araújo, essa tendência reflete a vulnerabilidade de uma fase marcada por transformações intensas. “É a fase da busca por independência, mas também de necessidade de pertencimento. O jovem quer se afirmar, quer ser aceito e, muitas vezes, encontra na bebida uma forma de se integrar socialmente”, afirma.
Segundo o médico, o risco é ainda maior porque o cérebro do adolescente está em desenvolvimento especialmente as áreas responsáveis pelo controle de impulsos, planejamento e tomada de decisão. “O álcool afeta o cérebro do jovem de forma diferente do adulto. Na adolescência, ele pode provocar alterações duradouras no comportamento e aumentar significativamente o risco de dependência na vida adulta”, detalha Eduardo Araújo.
Entre os principais prejuízos associados ao consumo precoce estão dificuldade de aprendizado, impulsividade, problemas de atenção e maior risco de desenvolver ansiedade e depressão.
“Quanto mais cedo começa o consumo, maior é a chance de o jovem desenvolver dependência. O álcool é tão perigoso quanto outras drogas, mas socialmente ainda é tratado com mais leveza e isso é um erro”, alerta o psiquiatra.
Os dados recentes também revelam um ponto sensível: entre adolescentes, a proporção de meninas com transtorno pelo uso de álcool já supera a de meninos. Especialistas apontam que fatores emocionais, pressão estética, ansiedade social e maior exposição a situações de vulnerabilidade podem contribuir para esse cenário.
Além dos impactos na saúde mental, o consumo precoce aumenta o risco de acidentes, violência, relações sexuais sem proteção e gravidez não planejada. Segundo a OMS (Organização Mundial da Saúde), não existe dose segura de consumo de álcool em qualquer idade.
Dia Nacional de Combate ao Alcoolismo
Nesta quarta-feira (18) foi é celebrado o Dia Nacional de Combate ao Alcoolismo, a data que representa um convite à reflexão sobre os impactos do consumo excessivo não apenas na vida adulta, mas também na juventude. O alcoolismo é reconhecido como uma doença crônica, caracterizada pela dependência física e psicológica e, muitas vezes, começa com o primeiro gole ainda na adolescência.
Apesar dos números alarmantes, o tema ainda é tratado com tabu. Para Eduardo Araújo, a prevenção precisa começar cedo e passar pelo diálogo. “Proibir sem dialogar não resolve. O adolescente precisa entender os riscos reais. Escola e família têm papel fundamental nessa construção de consciência”, orienta.
Por Michelly Perez
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