“Polarização PT–PL em 2022 não criou redutos; ela dividiu o eleitorado” avalia pesquisador
Em uma análise histórica que abrange 20 anos, o pesquisador e procurador-geral do Estado, Shandor Torok, avalia as mudanças que o cenário político sul-mato-grossense passou entre 2002 e 2022. Segundo o levantamento, o estado passou da disputa do PT e MDB (na época conhecido como PMDB) para as mãos do PSDB.
O estudo mostrou a dinâmica e mudanças estruturais no comportamento do eleitorado. O dado mais visível é a crescente fragmentação da preferência do eleitor, que dilui a força de lideranças locais que já foram dominantes.
A pesquisa se baseia em duas metodologias de análise diferentes: o Índice de Gini Eleitoral, que mede a desigualdade na distribuição de votos entre os candidatos por município, e o HHI (Índice de Herfindahl-Hirschman), que avalia a concentração do mercado eleitoral.
Houve um aumento na competição entre os candidatos, segundo Torok. Em 2002, a margem de vitória entre o 1° e o 2° candidato para deputado federal era de 11,3%; já em 2022 foi de 9,8%. Brasilândia e São Gabriel do Oeste foram os municípios que apresentaram os maiores redutos políticos, com Brasilândia obtendo 60,7% de margem (o candidato mais votado recebeu 69% dos votos).
Mas Shandor alerta ao jornal O Estado que, mesmo com a fragmentação, a desigualdade continua entre os mais votados. “Há um paradoxo importante: o voto fragmenta, mas continua muito desigual. O Gini eleitoral permanece alto […]. A interpretação é: há mais candidatos dividindo o topo, mas a maioria dos candidatos continua recebendo poucos votos. A fragmentação aumenta, mas a ‘cauda longa’ de candidatos pouco votados mantém a desigualdade elevada.”
Para o último pleito federal em 2022, Torok escreve que a “polarização PT–PL em 2022 não criou redutos: ela dividiu o eleitorado de cada município entre mais candidatos e blocos, resultando em margens menores no agregado”. Isso representa uma tendência de fragmentação crescente entre os candidatos à Câmara dos Deputados.
O HHI dos municípios sul–mato-grossenses corrobora com o dado anterior, caindo de 0,159 em 2002 para 0,102.
Quanto mais próximo de 1, maior a concentração, e a queda é descrita como uma “fragmentação consistente e monotônica” pelo autor.
Um dos dados que mais chama a atenção é a mudança do cenário bipartidário entre o PT e o MDB para o reinado do PSDB em 2022. Em 2022, o MDB dominava 35 dos 77 municípios de MS, seguido pelo PT com 23. Em 2006, o PT passa o MDB e é o mais votado em 26 das 78 cidades; e em 2010, há um equilíbrio entre os dois.
Mas, em 2018, o PSDB destrona repentinamente a competição e leva 62 dos 79 municípios, com o MDB liderando apenas em um.
Deputados estaduais
Em entrevista, o procurador comenta que a disputa para a Alems (Assembleia Legislativa) é mais territorializada, em comparação com a Câmara Federal. “A ALEMS é como um ‘mosaico de redutos’; quase todo deputado estadual eleito em 2022 tem um ou dois municípios-âncora, onde concentra grande parte de sua votação. Isso se aproxima muito da literatura sobre voto pessoal, redutos municipais e conexão territorial”.
Sua pesquisa ainda analisa que “candidatos com base municipal sólida conseguem resistir a mudanças de conjuntura nacional” e classificou como alta a longevidade de deputados estaduais eleitos. Como exemplo, cita Zé Teixeira (PL), que venceu em quatro eleições seguidas, e Reinaldo Azambuja, que foi eleito como estadual em 2006, depois federal em 2010, e elegeu-se governador em 2014.
Em relação aos partidos que ocupavam as cadeiras, 2002 foi o ano no qual apresentou maior fragmentação, com, pelo menos, dez legendas dividindo os 24 deputados da Assembleia. O PT era o partido com maior número de parlamentares, com seis vagas, o que o autor considera como “reflexo do ‘efeito Lula’”.
Porém, entre 2006 e 2014, o então PMDB dominou a Casa de Leis com uma bancada que varia de seis a nove deputados. E, em 2018, empata na casa com o PSDB, com quatro cadeiras cada, e tem o debut bolsonarista na Assembleia, com duas ocupadas pelo PSL de Jair Bolsonaro. Atualmente, o partido do ex-presidente é o que comanda mais vagas, com sete.
Assim como houve entre os deputados federais, os estaduais também passaram por uma queda na força territorial e uma queda na concentração de votos em apenas um candidato por cidade. Mesmo com redutos eleitorais como Dourados, Cone Sul e Pantanal, o eleitor encontra mais opções de votos e diminui a concentração em figuras ímpares.
Por Lucas Artur
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