Assunto repercutiu nas redes sociais após conversa sobre tratamento de acne em reality show
Uma conversa entre duas participantes do reality show BBB 26 (Big Brother Brasil 2026) surpreendeu os internautas na última semana ao revelar que o medicamento Roacutan, utilizado no tratamento da acne, pode ser obtido pelo SUS (Sistema Único de Saúde). Em Mato Grosso do Sul, 179 pessoas já estão cadastradas para receber o medicamento pelo SUS. Desse total, 56% são do sexo feminino e 48% têm entre 15 e 25 anos. Em 2024, foram registradas 23 novas solicitações. Já em 2025, o número subiu para 67.
De acordo com o Ministério da Saúde, a acne, conhecida popularmente como espinhas, são extremamente comuns na população e representam o principal motivo das consultas ao dermatologista no país, correspondendo a 14% de todos os atendimentos.
O Roacutan é um medicamento indicado para o tratamento de acne grave. Seu princípio ativo, a isotretinoína, derivado da vitamina A, está disponível pelo SUS para pacientes com indicação de início do tratamento. Para ter acesso ao medicamento, é importante compreender em quais casos ele é prescrito, seus possíveis efeitos colaterais e os procedimentos necessários para a obtenção gratuita.
Para esclarecer essas questões, o jornal O Estado conversou com a SESAU (Secretaria Municipal de Saúde) de Campo Grande. O órgão informou que o tratamento da acne pelo SUS inclui medicamentos tópicos, aplicados diretamente na pele, antibióticos e, nos casos mais graves, com risco de cicatrizes ou sem resposta a tratamentos anteriores, pode ser recomendado o Roacutan, conforme o Protocolo Clínico do Ministério da Saúde.
A pasta explica ainda que quadros graves de acne podem causar dor e deixar cicatrizes. A liberação do tratamento depende de avaliação médica, realização de exames e apresentação de documentação específica para autorização pela Casa da Saúde. O medicamento pode ser concedido em casos classificados nos CIDs (Classificação Internacional de Doenças) L70.0, L70.1 e L70.8.
“Casos moderados podem ser analisados individualmente. O processo começa na Unidade de Saúde da Família, com possível encaminhamento ao dermatologista. Após aprovação, o medicamento é fornecido gratuitamente, e o tratamento pode durar vários meses”, informou a SESAU em resposta à reportagem.
CID L70.0 – Acne vulgar
É a forma mais comum da doença, caracterizada pela inflamação dos folículos pilossebáceos. Manifesta-se por cravos, espinhas, pápulas e pústulas, principalmente no rosto, peito e costas. Está incluída no grupo de doenças da pele (L60-L75) e é uma condição inflamatória frequente, com influência de fatores hormonais.
CID L70.1 – Acne conglobata
Trata-se de uma forma grave e crônica da acne, marcada pela presença de abscessos profundos, nódulos e cistos inflamatórios que podem causar desfiguração. Costuma deixar cicatrizes profundas e exige tratamento médico especializado, como o uso de isotretinoína.
CID L70.8 – Outras formas de acne
Inclui variantes que não se enquadram nas classificações específicas anteriores. É utilizado para casos de acne atípica, ocupacional ou reativa.
Impactos emocionais
Além dos impactos físicos, a acne pode provocar abalos emocionais. Por isso, a SESAU destaca que o SUS também oferece acompanhamento psicológico por meio da Atenção Primária, dos CAPS (Centros de Atenção Psicossocial) e do Ambulatório de Saúde Mental, quando há sofrimento psíquico associado. O público mais afetado é composto por adolescentes e adultos jovens, e a orientação é buscar avaliação precoce para evitar complicações.
A SES (Secretaria de Estado de Saúde) também respondeu ao O Estado e reafirmou os pontos apresentados pela Prefeitura. A pasta estadual acrescentou que, para mulheres em idade fértil, é obrigatória a apresentação de teste de gravidez negativo e a comprovação do uso de método contraceptivo eficaz, já que a isotretinoína apresenta risco de malformações fetais.
Sobre o acesso ao medicamento, o órgão explicou que “ocorre mediante abertura de processo administrativo com apresentação de laudo médico e documentação exigida, sendo a dispensação realizada de forma mensal, conforme manutenção dos critérios clínicos e exames de monitoramento”.
O que diz a dermatologista?
A médica dermatologista Camila Tormena afirma que o acesso ao medicamento pelo SUS pode prevenir cicatrizes permanentes. “Em muitas situações, o custo da medicação na rede privada é elevado e inviável para grande parte das famílias, o que pode atrasar o início do tratamento adequado, ao garantir esse acesso, o SUS possibilita intervenção precoce, controle mais rápido da inflamação e, consequentemente, reduz o risco de sequelas físicas, como cicatrizes atróficas, manchas residuais e deformidades”, explica. A dermatologista ressalta que democratizar o tratamento também significa promover qualidade de vida e saúde mental a longo prazo.
Sobre a duração, a médica afirma que o tratamento é variável, mas geralmente dura de seis a dez meses, tempo necessário para que a glândula sebácea sofra a atrofia adequada e se reduzam as chances de recidiva. Embora exista possibilidade de reincidência, Camila destaca que, em cerca de 80% dos casos, a cura é definitiva. O acompanhamento deve ser mensal durante todo o período de uso da medicação, com realização de exames regulares, incluindo hemograma completo, já que o monitoramento precisa ser rigoroso.
O tratamento também pode causar efeitos colaterais. O mais comum é o ressecamento, que se manifesta por lábios rachados, pele seca, olhos secos e, em alguns casos, sangramento nasal devido ao ressecamento da mucosa. Também podem ocorrer dores musculares leves e fotossensibilidade.
Além disso, o medicamento pode impactar o fígado e alterar os níveis de colesterol. “A medicação é metabolizada pelo fígado e pode alterar as enzimas hepáticas e o perfil lipídico (aumentando o colesterol e triglicerídeos). Por isso, o controle dietético e os exames laboratoriais são indispensáveis”, explica a profissional.
Camila faz um alerta importante: acne não é frescura. “Ela está associada a taxas elevadas de ansiedade, depressão e fobia social. O rosto é nosso cartão de visitas, e as lesões inflamadas podem gerar muita dor e vergonha. O tratamento é transformador. À medida que a pele limpa, percebemos o paciente “florescer”: eles passam a olhar nos olhos, as mulheres voltam a usar menos maquiagem de cobertura e o isolamento social diminui drasticamente”.
Quem utiliza o medicamento deve adotar alguns cuidados, como hidratação intensa, com uso de protetor labial, colírios e hidratantes corporais, proteção solar mesmo em dias nublados e evitar o consumo de álcool, já que ele sobrecarrega o fígado, que já está trabalhando intensamente durante o tratamento.
Por Maria Gabriela Arcanjo
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