Três funcionárias foram presas; uma tentou sair com medicamentos na mochila, se passando por cliente
Uma clínica de estética localizada na Rua Fraiburgo, no Bairro Vila Cidade Morena, foi interditada na manhã de ontem (28) durante uma operação conjunta da Decon (Delegacia Especializada em Repressão aos Crimes contra as Relações de Consumo) e da Vigilância Sanitária Municipal. A ação surpreendeu moradores e comerciantes da região, que relataram à reportagem não imaginarem a gravidade das irregularidades encontradas no local, que funcionava em um ponto comercial do bairro.
Uma atendente de um comércio próximo à clínica contou que a movimentação no local era discreta e não chamava atenção. Segundo ela, nunca desconfiou de nada, e os funcionários quase não apareciam do lado de fora do estabelecimento.
Outras duas moradoras também se mostraram surpresas ao saber da interdição. Para elas, o local já parecia um pouco suspeito por permanecer quase sempre de portas fechadas, dificultando saber o que realmente acontecia ali dentro.
Segundo a Decon, essa não foi a primeira vez que a clínica foi alvo de ação. Em outras duas ocasiões, as equipes tentaram fiscalizar o local, mas não conseguiram concluir a vistoria. Somente na operação realizada ontem foi possível acessar o estabelecimento e confirmar as irregularidades. Durante a operação, três funcionárias foram presas em flagrante. A proprietária da clínica não se encontrava no local no momento da fiscalização.
De acordo com o delegado Wilton Vilas Boas, foram encontrados produtos utilizados em clientes que continham material plástico de risco à saúde. “Com relação à questão do plástico, segundo a Vigilância Sanitária, trata-se de uma substância que pode causar efeitos negativos”, explicou o delegado.
A operação teve início após uma denúncia enviada à Ouvidoria do SUS (Sistema Único de Saúde), que repassou as informações à Vigilância Sanitária. Conforme o relato, a clínica utilizava produtos importados sem registro na Anvisa, itens vencidos e ainda realizava procedimentos proibidos, por não contar com profissionais habilitados nem com equipamentos adequados. Entre os produtos apreendidos estão Lipostabil, toxina Xeomin, ácido hialurônico, ácido Attive Care e hialuronidase.
Durante a vistoria, uma das funcionárias tentou se passar por cliente e tentou sair do local com uma mochila contendo os medicamentos irregulares, mas foi impedida pela equipe policial.
Todos os produtos impróprios, além das fichas de atendimento, foram apreendidos. As três funcionárias presentes foram presas em flagrante pela prática de crimes contra as relações de consumo. A proprietária deverá ser ouvida e, posteriormente, indiciada pelo mesmo crime.

Seringas e produtos vencidos também foram localizados no interior da clínica, aponta a polícia – foto: Divulgação-PCMS
CRM/MS alerta: paciente deve verificar registro médico antes de contratar procedimentos estéticos
A busca por procedimentos estéticos segue em alta, mas também cresce a preocupação com serviços realizados por profissionais sem habilitação. Segundo a presidente do CRM/MS, Dra. Luciene Lovatti Almeida Hemerly Elias, existem passos essenciais para garantir segurança antes de qualquer intervenção.
“Todo procedimento estético invasivo é um ato médico”, reforça a presidente. Por isso, ela orienta que o paciente sempre confirme se o profissional possui registro ativo no CRM, além do RQE (Registro de Qualificação de Especialista) quando o procedimento exigir. Também é importante verificar se a clínica está cadastrada no CRM/MS e se conta com um médico responsável técnico.
Locais improvisados, sem estrutura adequada ou sem supervisão médica, ampliam de forma significativa os riscos.
Consulta pública e gratuita
A checagem da qualificação do profissional é simples. O CFM e o CRM/MS disponibilizam plataformas públicas onde qualquer pessoa pode verificar se o médico está ativo, se possui especialidade registrada e se a clínica onde trabalha é habilitada.
“É uma consulta rápida, que evita riscos desnecessários”, destaca Dra. Luciene.
Riscos de clínicas clandestinas
Os perigos de realizar procedimentos em locais irregulares vão desde infecções e necroses até deformidades permanentes e risco de morte. Além disso, a ausência de um médico responsável significa falta de avaliação adequada, ausência de esterilização e impossibilidade de manejo de complicações.
“Procedimento estético não é brincadeira — exige ciência, capacitação e responsabilidade”, alerta.
Aumento de denúncias
Com a busca pelo “corpo perfeito”, impulsionada especialmente pelas redes sociais, o CRM/MS percebe um aumento na procura por orientação e em relatos de experiências negativas envolvendo pessoas não habilitadas.
O Conselho só atua diretamente em casos que envolvem médicos, mas encaminha outras denúncias ao Ministério Público.
Na última terça-feira (25), o CRM/MS realizou o 1º Fórum de Prerrogativas Médicas, espaço criado para discutir a segurança do paciente e a responsabilidade profissional.
“Nossa prioridade é proteger a população e fortalecer as boas práticas médicas”, afirma a presidente.
Geane Beserra