Medida que retirou o comando do consórcio completa 60 dias com auditorias em andamento, venda para grupo goiano e discussão sobre o destino da concessão
Dois meses depois de a Prefeitura de Campo Grande assumir temporariamente o controle do Consórcio Guaicurus, o futuro da concessão do transporte coletivo continua sem definição. A intervenção completa 60 dias neste domingo (16), com prazo de até 180 dias, enquanto a equipe responsável pela gestão mantém análises administrativas, financeiras e operacionais e a concessionária enfrenta um novo capítulo com a venda para a HP Mobilidade, de Goiânia.
A medida foi decretada pela prefeita Adriane Lopes (PP) em 16 de junho, após uma sequência de reclamações sobre o serviço, apontamentos da CPI do Transporte Coletivo e conclusões de uma comissão especial criada pelo município. Na época, a prefeita classificou a decisão como “muito difícil, mas necessária”, diante dos problemas acumulados no sistema.
O decreto retirou dos antigos administradores os poderes de gestão do consórcio e colocou a operação sob responsabilidade de uma equipe técnica. Alexandro Adriano Lisandro de Oliveira assumiu como interventor-geral, acompanhado por profissionais responsáveis pelas áreas administrativo-financeira, operacional e jurídica.
Nos primeiros dias, a equipe deixou claro que a intervenção não tinha como objetivo produzir mudanças imediatas na estrutura do sistema, mas entender as causas dos problemas encontrados. “Não vamos entregar uma solução pronta, mas podemos contribuir para a construção dessa solução”, afirmou Alexandro em entrevista concedida no início dos trabalhos.
Auditoria e primeiros apontamentos
A equipe interventora passou a trabalhar dentro das empresas que formam o consórcio, com acesso a documentos e informações que antes eram analisados pelo poder público de fora da estrutura. O objetivo anunciado desde o início foi cruzar dados financeiros, operacionais e administrativos para identificar como a concessionária chegou ao cenário atual.
No primeiro mês, o grupo apresentou um relatório com informações sobre receitas, custos e a situação operacional do sistema. As análises apontaram problemas financeiros e um quadro de dificuldades que, segundo a intervenção, exigia aprofundamento antes de qualquer decisão definitiva.
A situação da frota também permaneceu entre os principais pontos de atenção. Na entrevista realizada no início da intervenção, Alexandro afirmou que 197 ônibus estavam acima da idade prevista contratualmente. “Resolver isso exige recursos e capacidade de investimento, algo que uma intervenção não tem condições de fazer”, disse.
Outro ponto analisado é a alegação do Consórcio Guaicurus de desequilíbrio econômico-financeiro do contrato. Para o interventor, a discussão precisa ser considerada na auditoria, mas não seria suficiente, isoladamente, para explicar a situação do transporte. “Precisamos entender tecnicamente o que levou a esse cenário”, afirmou na ocasião.
Venda abre novo cenário para concessão
No meio da intervenção, o futuro do consórcio ganhou outro elemento. O contrato de compra e venda das quatro empresas que formam a concessionária foi assinado em 18 de julho, em negociação que colocou a HP Mobilidade, grupo com atuação no transporte coletivo em Goiânia, como compradora.
A negociação, porém, não significa que a empresa já tenha assumido o transporte de Campo Grande. A transferência ainda depende das etapas necessárias para a aprovação do negócio, incluindo a análise do Cade (Conselho Administrativo de Defesa Econômica) e a anuência do poder público municipal.
A prefeita Adriane Lopes também condicionou o aceite da Prefeitura à apresentação de um plano de melhorias. Entre as exigências estão a renovação da frota, instalação de ar-condicionado nos ônibus, reforma dos terminais e melhoria da qualidade do serviço. “Não adianta a empresa trocar de dono, mas não fornecer um serviço de qualidade”, afirmou Adriane na ocasião. A venda também não encerra automaticamente a intervenção.
Procurada pela reportagem para fazer um balanço dos 60 dias de trabalho, a equipe interventora informou que está concentrada na elaboração e análise de documentos, além de outras ações relacionadas às funções da intervenção.
A prefeita Adriane Lopes e o Consórcio Guaicurus também foram procurados para comentar sobre os dois primeiros meses da medida de intervenção, mas não haviam retornado até o fechamento desta edição.
Biel Gill
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