A criação de grupos instrumentais (em que se encaixam o que denominamos orquestras no sentido de música erudita ocidental) é uma atividade que costuma ser praticada quando músicos se encontram em determinados momentos da vida. Esses grupos se mantem por um tempo e tendem a encerrar suas atividades. Porém, a resiliência e a insistência das pessoas muitas vezes promovem recomeços e novos agrupamentos surgem.
Conforme o site do Instituto Histórico e Geográfico de Mato Grosso do Sul, o pioneirismo do ensino de música erudita e formação de grupos instrumentais em Campo Grande é atribuído aos músicos Emídio Campos Vidal e Federico Liebermann. Vidal veio de Corumbá na década de 1920 e Liebermann, nascido na Argentina, se estabeleceu em Campo Grande em 1939.
Federico Liebermann foi o primeiro regente do grupo intitulado Orquestra Sinfônica de Campo Grande, que fez sua estréia oficial em 1950 no luxuoso Cine Alhambra, que possuía 28 camarotes e capacidade total para 1.700 espectadores.
Porém, as atividades desse grupo, em uma formação menor, própria para música de câmara, já aconteciam desde o ano anterior, fazendo audições na Rádio Difusora de Campo Grande PRI-7, uma das mais antigas do país, fundada em 1939. Nessas apresentações, o grupo acompanhava cantores e participava de espetáculos diversos.
No início da década de 1960, assumiu a orquestra, o maestro João Corrêa Ribeiro, nascido em Barão do Melgaço, MT. Porém, aos poucos o conjunto foi paralisando suas atividades, que só foram retomadas no início da década de 1980. Conforme informações contidas no programa de concerto da reestreia da Orquestra, nessa ocasião contava em 44 músicos e realizou uma turnê de concertos por 7 municípios de Mato Grosso do Sul. Infelizmente o programa não contem as datas dos concertos, mas fui testemunha do concerto realizado em Campo Grande, no Teatro Glauce Rocha, sob regência de João Corrêa Ribeiro.

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Me lembro que, após o falecimento do maestro João Corrêa Ribeiro, em 1989, o médico e violinista Khalil Rahe tentou manter o conjunto atuante mas, por falta de recursos e apoios institucionais, a orquestra acabou mais uma vez interrompendo suas atividades.
Apenas em 2006, através da Lei Municipal 4.403, a Orquestra Sinfônica de Campo Grande foi recriada, tendo realizado o primeiro concerto em 2007 sob a regência de Eduardo Martinelli. Em 2017 foi declarada Patrimônio Cultural Imaterial de Mato Grosso do Sul mas, infelizmente, continua funcionando precariamente por falta de verbas e estrutura que deveria ser fornecida pela atual administração municipal.
A segunda orquestra em Campo Grande surgiu em 1983 como Orquestra Filarmônica de Mato Grosso do Sul, por iniciativa privada da Rede Centro-Oeste de Rádio e Televisão e da Fundação Barbosa Rodrigues. Com assessoria da Associação Pró-Música e seu presidente José Tarcísio Legal, foi contratado o maestro Vitor Marques Diniz, músico português que, na época, dirigia a Orquestra Sinfônica do Espírito Santo.
O concerto oficial de estréia foi feito no Teatro Glauce Rocha no dia 3 de março daquele ano, agregando a orquestra, com 28 músicos (todos amadores radicados na cidade), ao Coral da Fundação Barbosa Rodrigues, com cerca de 40 cantores.
Em 1985, a Fundação Barbosa Rodrigues encerrou as atividades da orquestra e coral e seus integrantes resolveram, junto com o maestro Vitor Diniz, constituir uma sociedade intitulada Sociedade Coral e Orquestra Clássica de Mato Grosso do Sul, declarada de Utilidade Pública Estadual pela Lei 1.646 de 1995.
O Coro e Orquestra, popularmente conhecido como SCOR (sigla constituída pelas primeiras letras da Sociedade), realizou centenas de concertos (a maioria de cunho didático) no estado e outras regiões do país, tendo gravado uma faixa da coletânea Mato Grosso do Som em 1994, lançado um CD com gravações feitas ao vivo, em 2005, além de ter feito participações no CD “100 anos de sucessos”por ocasião do centenário de Campo Grande e no CD “Ave Marias” da soprano Clarice Maciel. No texto do CD de 2005, consta que “o repertório era escolhido e adaptado às condições técnicas e interpretativas dos solistas, dos coralistas e dos instrumentistas, para que todos os elementos disponíveis pudessem participar dos eventos, e para que as obras pudessem ser executadas com o máximo de qualidade possível”.

Arquivo Pessoal
Esse CD foi lançado como um documento sonoro de suas performances, quando o grupo já havia encerrado suas atividades, o que aconteceu em 2004 por “insuficiência de patrocínio”. Realmente, durante os quase 20 anos de intensa e ininterrupta atividade, o trabalho foi mantido por convênios esporádicos com a prefeitura municipal, governo do estado e UFMS, além de contribuições espontâneas de pessoas físicas e empresas.
O terceiro conjunto de que lembramos, é a Orquestra de Câmara do Pantanal. Não a atual, mantida pelo Moinho Cultural em Corumbá, mas um projeto que surgiu por iniciativa do maestro e compositor João Guilherme Ripper, em 2001. Ripper já havia realizado vários trabalhos na cena musical local, incluindo a coordenação das duas Semanas de Música (em 1992 e 1993), e criado obras para eventos locais como a “Cantata a Céu Aberto”, a opereta infantil “O Menino Que Não Sabia Sonhar” e o espetáculo cênico “Peabiru”.

Arquivo Pessoal
A orquestra realizou mais de uma dezena de concertos em Campo Grande e cidades como Aquidauana, Rondonópolis (MT) e Corumbá. Com um repertório que enfatizava a produção musical brasileira, esteve em funcionamento pelo menos até 2003, conforme os programas que guardo com zelo (mania de guardador de papéis).
Além dessas orquestras, temos e tivemos também grupos menores e bandas sinfônicas, mas isso pode ficar para outro momento e outro desfiar de memórias.