Estado garante estoques de antiescorpiônico e reforça orientação para atendimento imediato após picadas
O relato de uma mãe de Campo Grande sobre a dificuldade para encontrar informação sobre onde buscar o soro contra picada de escorpião para o filho no último final de semana reacendeu a preocupação com a disponibilidade do soro antiescorpiônico e o fluxo de atendimento na Capital. Segundo a SES (Secretaria de Estado de Saúde), Mato Grosso do Sul contabiliza 870 acidentes com escorpiões em 2026.
O alerta ganha ainda mais peso após um caso recente registrado no interior de São Paulo. O menino Bernardo de Lima Mendes, de 3 anos, morreu após ser picado por um escorpião e receber o soro mais de quatro horas depois do acidente, em Conchal (SP), segundo familiares. De acordo com a Secretaria Estadual de Saúde paulista, crianças de até 10 anos devem receber o tratamento em até uma hora e meia após a picada, já que apresentam maior risco de complicações.

Foto: VALENTIN MANIERI
O caso é investigado pela Polícia Civil como possível negligência no atendimento e reforça a importância do acesso rápido ao soro e da identificação ágil da gravidade dos sintomas.
Em resposta ao O Estado, a Secretaria de Saúde de Mato Grosso do Sul informou que mantém, atualmente, estoque regular de soro antiescorpiônico, distribuído de forma estratégica para assegurar o atendimento oportuno aos casos de envenenamento por escorpiões. No momento, não há registro de desabastecimento. O fornecimento do insumo é feito pelo Ministério da Saúde, com reposições periódicas conforme a programação nacional, o que, segundo a pasta, tem garantido a manutenção adequada dos estoques em todo o território estadual.
Conforme o protocolo adotado pela SES, a aplicação do soro é indicada apenas em casos moderados e graves, com base em critérios clínicos como intensidade da dor, presença de manifestações sistêmicas — como náuseas, vômitos, sudorese, alterações cardiovasculares e respiratórias —, idade do paciente e tempo decorrido desde o acidente. Casos leves, em geral, não exigem soroterapia e são conduzidos com tratamento sintomático e observação clínica.
A SES reforça que toda vítima de picada de escorpião deve procurar imediatamente um serviço de saúde, onde será avaliada por profissional capacitado e, se necessário, encaminhada a uma unidade com disponibilidade do soro. Em Campo Grande, a unidade referência é o Hospital Regional, que oferece os atendimentos para Crotálico (contra o veneno de cascavéis), Escorpiônico (Contra picadas de escorpiões), Botrópico (contra o veneno de jararacas), Fonêutrico (contra veneno da aranha-armadeira) e o Loxoscélico (contra picadas da aranha-marrom).
Estatísticas confirmam alta
Os dados mais recentes apontam um aumento sazonal dos acidentes, especialmente em períodos de maior temperatura e umidade. Em 2025, foram notificados 6.749 casos no Estado. Considerando os últimos anos, Mato Grosso do Sul soma 12.190 registros de escorpionismo, sendo 4.838 em 2024, 6.749 em 2025 e 603 até fevereiro de 2026. Desse total, 1.256 casos ocorreram em crianças menores de 10 anos, o equivalente a 10,3% das notificações. Entre 2020 e 2026, foram registrados 53 casos graves, dos quais 32 atingiram crianças com menos de 10 anos, o que representa 60,38% dos quadros mais severos. O Estado também registrou dois óbitos em 2025.
Embora a maior parte dos acidentes seja classificada como leve ou moderada, os casos graves e as mortes se concentram, sobretudo, em crianças, que seguem como o principal grupo de risco para evolução desfavorável. O perfil geral das vítimas, no entanto, mostra maior frequência de acidentes em adultos, principalmente em ambiente domiciliar.
Quando o soro é aplicado?
O biólogo Hugo Rodrigo Barbosa da Silva explica que nem toda picada exige soro antiescorpiônico, mas alguns grupos precisam de atenção imediata. “Geralmente, o soro é indicado em casos mais graves ou em pessoas que já têm algum risco de saúde, como quem tem comorbidades cardiorrespiratórias ou neurológicas, além de crianças e idosos”, afirma.
A orientação inicial, segundo ele, é “lavar bem o local com água e sabão, observar a evolução do quadro e, se possível, guardar o animal para identificação”. Ele alerta ainda que sintomas como febre, enjoo e agravamento da dor exigem busca rápida por atendimento médico.
O risco, segundo o especialista, é ainda maior entre crianças pequenas, que podem evoluir mais rapidamente para quadros graves. “Se for uma criança de dois anos ou menos, é essencial levar imediatamente para uma unidade de saúde, porque o caso pode se agravar em pouco tempo”, pontua.
Em Mato Grosso do Sul, ele destaca a presença de espécies consideradas perigosas para a saúde pública, como o escorpião-amarelo (Tityus serrulatus), apontado como o principal causador de acidentes graves no Brasil, além do Tityus confluens, também encontrado em Campo Grande. “São espécies consideradas perigosas justamente pelo número de encontros com seres humanos e pelo número de acidentes que causam”.
A Sesau (Secretaria Municipal de Saúde Campo Grande), foi questionada pela reportagem sobre os atendimentos em Campo Grande, mas não respondeu até o fechamento da edição.
Por Geane Beserra
