“Não teve tempo de nada”, diz chaveiro em audiência sobre morte de auditor fiscal

Foto: Roberta Martins
Foto: Roberta Martins

Defesa sustenta legítima defesa de Bernal em primeira audiência

A primeira audiência de instrução sobre a morte do auditor fiscal aposentado Roberto Carlos Mazzini, de 61 anos, ocorreu nesta terça-feira (26), em Campo Grande, com depoimentos de sete testemunhas arroladas pelo Ministério Público. O ex-prefeito Alcides Bernal é acusado de matar Mazzini a tiros em março deste ano, durante uma disputa envolvendo a posse de um imóvel no Jardim dos Estados.

A principal testemunha foi o chaveiro Maurílio da Silva Cardoso que contou que havia sido contratado para abrir a residência adquirida por Mazzini em leilão. Segundo ele, a porta da casa ainda nem havia sido aberta quando Bernal chegou ao local. Além disso, afirma que Mazzini aparentava tranquilidade e já estava no local antes de sua chegada.

“Abri o portão e estava iniciando a abertura da porta da casa. Nem chegou a abrir”, relatou.

Maurílio contou que ouviu Bernal gritar momentos antes do disparo. “Ele falou: ‘o que você está fazendo dentro da minha casa, seu filho da puta?’. Em seguida, em questão de segundos, aconteceu o disparo”, afirmou.

A testemunha disse que não ouviu discussão entre os dois homens. “Se houve discussão, foi antes daquele dia. Na hora, absolutamente nada”, declarou.

O chaveiro também afirmou que não viu Mazzini armado ou portando qualquer objeto que pudesse indicar ameaça. “Não tinha nada que parecesse que ele estava armado”, disse.
Após os disparos, Maurílio relatou que correu do local sem sequer retirar o carro da frente da residência.

Filho relata sonho da nova casa
Ouvido como informante, o filho da vítima, Gabriel Mazzini, se emocionou durante o depoimento e afirmou que a aquisição do imóvel representava a realização de um sonho do pai.
“Ele sofreu uma convulsão no fim do ano passado e começou a rever a vida. Queria uma casa térrea porque tinha medo de passar mal novamente”, relatou.

Segundo Gabriel, Roberto Mazzini pretendia levar a mãe dele para morar junto na nova residência.

Ele também afirmou que o pai buscou toda a documentação antes da compra do imóvel em leilão e acreditava que a situação estava regularizada.

“Ele foi atrás da documentação com a certeza de que estava tudo certo”, disse.

Gabriel afirmou ainda que o pai nunca teve contato direto com Bernal, embora tenha tentado obter informações junto à empresa de monitoramento responsável pela residência.

Bernal está abalado
Ao jornal O Estado, o advogado de defesa Ricardo Machado afirmou que a tese apresentada pela defesa segue baseada em legítima defesa e na posse do imóvel por Bernal.

“A conta de água e de luz estavam no nome de Alcides Bernal, o escritório dele adaptado, a empresa de monitoramento contratada por ele, a piscina limpa. Então isso é indiscutível. A posse do imóvel pertencia e pertence a Alcides Bernal”, declarou.

Segundo o advogado, a perícia também reforçaria a versão apresentada pela defesa.

“A perícia também é conclusiva. A vítima estava de pé e partindo para cima de Alcides Bernal. Basta analisar a trajetória dos projéteis e onde permaneceram, o que comprova que a vítima estava em movimento e se dirigindo até Bernal”, afirmou.

Machado disse ainda que a defesa pretende demonstrar documentalmente e por testemunhas que Roberto Mazzini teria invadido a residência acompanhado de um chaveiro.

“Quem inicia a situação, quem invade a residência que possuía Bernal, é a vítima com o chaveiro. O Bernal chegando no imóvel e vendo a ameaça se defende”, sustentou.

Ainda conforme a defesa, o ex-prefeito está abalado com o caso.

“Bernal está confiante na resposta do Poder Judiciário, abalado pela tragédia ocorrida e confiando na resposta do magistrado e da Justiça. Em nenhum momento teve a intenção de provocar o óbito”, completou o advogado.

Empresa de monitoramento confirmou alerta a Bernal
O gerente da empresa de segurança New Line, Francisco Terra, confirmou em audiência que a central identificou movimentação no imóvel e acionou Alcides Bernal.

“A casa é de frente para a New Line. O monitoramento percebeu movimentação e ligaram para Bernal”, afirmou.

Segundo ele, funcionários da empresa chegaram a avisar Roberto Mazzini de que Bernal estava indo até a residência.

Terra disse ainda que a empresa desconhecia qualquer disputa judicial envolvendo o imóvel e que o contrato de monitoramento havia sido firmado pouco tempo após a Caixa Econômica assumir a posse da casa.

Um fiscal de alarme também prestou depoimento e afirmou que, ao chegar ao local, informou que o chaveiro não tinha autorização para abrir a residência.

Segundo ele, Roberto respondeu que possuía a casa e o fiscal informou que Bernal estava a caminho.

O funcionário relatou ainda que Bernal demonstrava irritação ao telefone momentos antes do crime.

Outra funcionária da empresa, responsável pelo monitoramento das câmeras no dia do caso, afirmou ter ouvido apenas um disparo vindo da residência.

Outras 12 testemunhas de defesa ainda devem ser ouvidas nas próximas etapas do processo. A próxima audiência será realizada nesta quarta-feira (27), na 1ª Vara do Tribunal do Júri da Capital.

Reviravolta no caso
O advogado e assistente de acusação do caso, Tiago Martinho, afirmou à imprensa local, que acompanhava as oitivas, que todas as audiências foram proveitosas, mas um detalhe em específico pode mudar o rumo da investigação: o fato de Bernal ter contratado um sistema de segurança após o imóvel estar sob posse da Caixa Econômica Federal, tese sustentada pela empresa New Line.

Tiago afirma que o processo não se trata mais da posse de um bem, mas de um crime bárbaro. “Está muito evidente que o acusado tinha pleno conhecimento de tood o propcesso da Caixa Econômica Federal e hoje ainda surgiu a informação de que ele conhecia o Roberto Mazzini […] Nosso objetivo é alcançar a verdade e a responsabilizaão por esse ato brutal que ceifou a vida de um pai de família”.

Se condenado, Bernal pode ultrapassar uma pena de 30 anos de reclusão, se considerados os crimes de homicídio qualificado, porte ilegal de arma de fogo e invasão de domicílio.

Por Michelly Perez e Maria Gabriela Arcanjo

 

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