Entre a saudade e o sonho: mães aprendem a amar à distância para ver filhos vencerem

Enzza e o filho Daniel - Foto: Nilson Figueiredo e redes sociais
Enzza e o filho Daniel - Foto: Nilson Figueiredo e redes sociais

O silêncio da casa, a cadeira vazia à mesa, o quarto fechado para evitar lembranças. Para muitas mães de jovens atletas que deixam cedo o lar em busca de uma carreira, o cotidiano passa a ser marcado por ausências que gritam. Não se trata apenas de quilômetros de distância, mas de uma ruptura emocional profunda — um misto de orgulho e dor que redefine o significado de ser mãe.

Aos 17 anos, o nadador Daniel Coelho de Campos trocou em janeiro, a rotina em família por treinos intensos no Flamengo e um apartamento dividido com colegas de clube no bairro do Leblon, no Rio de Janeiro. Para a mãe, Enzza Rafaela Coelho, a decisão veio como uma avalanche. “Quando virei pra ele e falei: ‘e aí?’. Ele respondeu: ‘minha mala tá pronta, eu tô indo’. Aí eu já comecei a chorar ali mesmo”, relembra, com lágrimas nos olhos, a O Estado.

O tempo curto para assimilar a mudança tornou tudo mais difícil. Em menos de dois meses, o que era rotina virou saudade. “Não tivemos tempo pra pensar”, resume. O que mais pesa, segundo ela, não são apenas os grandes momentos perdidos, e sim os pequenos detalhes do dia a dia. “Acho que a gente sente falta de tudo. Até de levantar cedo e fazer café pra ele, que era uma coisa que eu odiava”, conta, com um sorriso que mistura nostalgia e dor.

Se existe uma palavra que une essas mães, ela aparece sem hesitação: amor. Mas não um amor confortável — e sim aquele que exige renúncia.

“Por que eu deixei? Por que eu abri mão, entre aspas, do meu único filho pra estar longe de mim?”, questionou Enzza em diversos momentos. A resposta veio com o tempo, ainda que nunca completamente: “A gente não cria filho pra gente. Só foi muito mais cedo do que eu imaginei”.

Em prol de um sonho
A mesma sensação acompanha Fabiana Valentim da Silva, mãe de Davi Valentim Aguiar, de 15 anos, que em 2023 deixou Campo Grande para tentar a carreira no futebol no Azuriz, clube de Pato Branco, no Sudoeste do Paraná. Para ela, o momento mais duro não foi a despedida em si, mas o instante em que precisou deixá-lo seguir sozinho.

“O difícil foi deixar ele viver o sonho dele. Mas a parte mais difícil mesmo foi quando eu tive que deixá-lo morar sozinho, em uma pensão”, relata, com a voz embargada.

A decisão de permitir que o filho seguisse o próprio caminho nunca passou por imposição. Pelo contrário. “Eu nunca quis ser egoísta. O sonho dele é maior. Eu jamais falaria para ele desistir por causa de mim”, afirma. “A saudade a gente vai levando. Eu não queria que ele um dia falasse que eu não deixei ele seguir seu sonho. O sonho dele é o meu sonho também”, prossegue.

Orgulho que ameniza a saudade
Se a dor é constante, o orgulho surge como contraponto necessário para seguir em frente. É ele que sustenta as mães nos dias mais difíceis.

“O orgulho vem quando a gente vê ele se virando”, afirma Enzza. Pequenas conquistas do filho, como aprender a comer de tudo ou se adaptar à nova rotina, tornam-se grandes vitórias emocionais. “Isso ajuda a amenizar a saudade”.

Fabiana encontra equilíbrio na fé e na confiança. “Eu acredito no potencial dele. Eu olho para a alegria dele, para a felicidade dele, e entrego tudo, até o meu direito de estar perto”, diz.

Curiosamente, ambas adotam uma estratégia semelhante nos momentos mais difíceis: o silêncio. Evitam demonstrar fragilidade para não afetar o desempenho dos filhos. “Eu não ligo pra ele. Porque senão eu só choro e ele fica mal também”, explica Enzza. Fabiana segue a mesma linha: “Eu evitava falar com ele, para não demonstrar tristeza e não prejudicar ele emocionalmente”.

Esse domingo é mais doído
Entre todas as datas, o Dia das Mães ganha um peso especial. A ausência se torna ainda mais evidente, e a saudade, mais intensa. “Estou mais triste, chorando por tudo”, admite Enzza, ao falar sobre a data comemorativa, a primeira que vai passar sem seu filho por perto.

Já Fabiana – que vai passar esse Dia das Mães com Davi, mas já teve que celebrar a data muitas vezes sem a presença do filho – relembra os rituais que ficaram no passado: “Eu tenho três filhos, então preciso ser forte, mas não tem como não demonstrar a tristeza. A gente espera aquele abraço, aquele ‘feliz Dia das Mães’. Eles faziam café da manhã para mim, e sempre ficava faltando ele”.

Mesmo assim, nenhuma das duas cogita voltar atrás. O sonho dos filhos se tornou também o delas.

Saúde emocional balança
A ausência transforma hábitos simples em gatilhos emocionais. Na casa de Fabiana, a mudança mais simbólica aconteceu à mesa. “Eu sempre colocava cinco pratos na mesa, e passei a colocar quatro porque ele não estava”, lembra. À noite, o vazio também se impõe: “Levantar e ver a cama dele vazia. Isso foi o que mais pegava”.

Para Enzza, o impacto foi tão intenso que afetou até sua saúde emocional. “No primeiro e segundo mês, eu não tinha vontade de fazer nada”, conta sobre o período em que enfrentou um quadro de depressão. A recuperação veio aos poucos, com esforço consciente: “Comecei a me forçar a fazer as coisas, colocar despertador pra sair da inércia”.

Ambas descrevem a experiência com uma palavra forte: luto. Mas um luto diferente, sem perda definitiva — apenas distância. “Era exatamente essa sensação”, diz Enzza. Fabiana reforça: “É um luto de alguém vivo, correndo atrás de um sonho”.

Maternidade reinventada
Ser mãe à distância exige uma reinvenção constante. O cuidado deixa de ser físico e passa a ser emocional, mediado por chamadas de vídeo, mensagens e orações silenciosas.

“É sentir falta de tudo. Do cheiro, das pequenas coisas, até de brigar”, define Enzza. Já Fabiana amplia o conceito: “Significa que não importa a distância. Mãe sempre vai pensar no filho. É liberar o filho para viver o propósito dele, mesmo longe”.

Por Ricardo Prado

 

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