Pai, filho e negócios: histórias que movem empresas e gerações em Campo Grande

Foto: Nilson Figueiredo
Foto: Nilson Figueiredo

Famílias que trabalham juntas revelam como valores e os ensinamentos passados de geração em geração fortalecem os negócios

 

Em muitas empresas familiares, o Dia dos Pais vai além da celebração da paternidade. A data também representa a continuidade de histórias construídas ao longo de décadas, em que o exemplo dado dentro de casa se transforma em legado, responsabilidade e parceria nos negócios. Em Rio Verde, famílias que trabalham juntas mostram que a convivência no ambiente de trabalho pode ser um elo importante para preservar valores e preparar as próximas gerações.

Há 33 anos, a família Fornari Denardi começou a escrever essa trajetória. O negócio teve início com um posto de combustíveis, criado pelo patriarca, João Osvaldo Denardi, após a divisão de uma sociedade familiar. Anos depois, nasceu o restaurante, que hoje completa 25 anos e se tornou uma referência na cidade.

O atual gestor, João Francisco, o caçula de três filhos, que hoje divide a administração da empresa com o irmão, conta que o contato com o trabalho começou ainda na infância. “Nas férias escolares, um período era para brincar e o outro era para vir ajudar na loja. A gente abastecia carros, ajudava no lava-jato e ia aprendendo como tudo funcionava.”

Segundo ele, essa convivência desde cedo fez com que a sucessão acontecesse de maneira natural. Os pais sempre fizeram questão de envolver os filhos nas decisões e ensinar o funcionamento da empresa, mas sem deixar de acompanhar cada passo. “Eles deixavam a gente trabalhar, mas sempre estavam por perto, orientando e cuidando.”

A preparação fez diferença quando, em 2012, o pai sofreu um AVC e precisou se afastar da rotina da empresa. Apesar do momento delicado, a família conseguiu manter o negócio porque os filhos já participavam da gestão.

Hoje, a empresa conta com quatro postos de combustíveis, um restaurante e duas conveniências. Os pais permanecem no conselho administrativo, enquanto os filhos assumiram o comando do dia a dia.

Mesmo após a sucessão, as decisões continuam sendo tomadas em conjunto. Para o empresário, o diálogo sempre foi a principal ferramenta para evitar conflitos entre gerações. “A gente sempre resolveu tudo na conversa. As decisões precisam ser tomadas em conjunto, mas é importante que exista uma liderança bem definida para que a equipe saiba de onde vêm as orientações.”

Depois de se tornar pai de Vicente, de dois anos, e Teresa, de cinco, ele diz compreender ainda mais as escolhas feitas pelos próprios pais. “Hoje eu dou muito mais valor aos puxões de orelha e aos direcionamentos que recebi do pai. Eles sempre procuraram mostrar o melhor caminho e fizeram questão de colocar a gente em contato com o trabalho desde cedo.”

Assim como aconteceu com ele, o empresário faz questão de levar os filhos para conhecerem a empresa, ainda que de forma lúdica. “Não existe outro caminho para o sucesso além do trabalho e da dedicação. Quero que eles cresçam entendendo isso.”

Ao mesmo tempo, ele reconhece que nem todo herdeiro precisa, necessariamente, assumir os negócios da família. “Todos os filhos podem ser herdeiros, mas nem todos serão sucessores. O mais importante é que estudem, se qualifiquem e, se um dia fizer sentido, possam contribuir pela capacidade que desenvolveram.”

Crescer junto com quem ensinou

Outra história que traduz essa relação é a da família Morelli, proprietária da Autocar Veículos, empresa fundada em 1999.

Os irmãos Daiane e William cresceram praticamente dentro da loja. Enquanto o pai construía o negócio, eles acompanhavam de perto a rotina da empresa. “Com 12 anos a gente já estava trabalhando. Eu ficava no escritório e ele na parte das vendas”, lembra Daiane.

William conta que começou ainda mais cedo. “Com oito anos eu já estava lá. A gente fez faculdade, mas continuou no negócio da família.”

Hoje, os irmãos dividem a administração da empresa ao lado do pai, que continua presente na rotina e, segundo eles, ainda é peça fundamental. “Nem a gente quer que ele saia. Queremos que continue junto por muitos anos.”

Como acontece em muitas empresas familiares, também existem diferenças de opinião. Mas, segundo William, o respeito e a confiança fazem toda a diferença. “É normal ter conflito de gerações. Às vezes ele pensa de um jeito e a gente de outro. Mas ele dá autonomia para a gente. Se der certo, ele apoia. Se der errado, ele puxa a orelha.”

Essa troca entre experiência e inovação, afirmam os irmãos, é justamente o que fortalece o negócio.

Muito além da herança

Nas duas histórias, o patrimônio mais importante não é apenas a empresa construída ao longo dos anos, mas os valores transmitidos de pai para filho.

Mais do que ensinar a administrar um negócio, esses pais ensinaram disciplina, responsabilidade e dedicação. E, agora, os filhos buscam fazer o mesmo com a geração que está chegando.

Neste Dia dos Pais, o maior legado celebrado por essas famílias não está apenas nas empresas que continuam crescendo, mas na certeza de que o exemplo dado diariamente ainda é a maior herança que um pai pode deixar.

Para os filhos, trabalhar ao lado do pai é uma forma de manter vivo tudo o que ele construiu. “O que a gente quer é continuar esse legado, crescer junto e fazer a empresa evoluir.”

 

Enzo Pereira e Ian Netto

 

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