Mudança na jornada 6×1 ameaça setor responsável por 70% dos empregos formais em MS

Foto: reprodução
Foto: reprodução

“Quando a discussão ignora a realidade do mercado de trabalho, o risco é transformar uma promessa em perda de vagas e precarização”, afirma a presidente da FCDL-MS, Inês Santiago

 

Lojas abertas até a noite, prestação de serviços em horário ampliado e atendimento contínuo ao consumidor fazem parte da rotina do comércio e dos serviços em Mato Grosso do Sul, que concentra 70% dos empregos totais gerados no Estado. É esse modelo de funcionamento que coloca o setor no centro da discussão sobre o fim da jornada 6×1, atualmente em debate no Congresso Nacional.

Para a presidente da Federação das CDLs de Mato Grosso do Sul, Inês Santiago, a discussão precisa ser conduzida com responsabilidade e afastada de interesses meramente eleitoreiros. Ela avalia que mudanças impostas sem considerar a realidade das empresas podem acabar empurrando trabalhadores para o desemprego ou para a informalidade.

“Quando a discussão ignora a realidade do mercado de trabalho, o risco é transformar uma promessa em perda de vagas e precarização”, afirma.

Com cerca de 700 mil vínculos formais ativos, Mato Grosso do Sul tem sua base de empregos concentrada justamente em atividades que dependem de escalas contínuas ou horários estendidos. Serviços, comércio, indústria, agropecuária e construção foram os setores que puxaram a geração de vagas nos últimos dois anos e são também os mais sensíveis a mudanças na carga semanal de trabalho.

Além de supermercados, indústrias e prestadores de serviços, atividades típicas da economia urbana do Estado, como farmácias e centrais de atendimento, operam com jornadas ampliadas e tendem a ser diretamente impactadas por alterações na legislação trabalhista.

A preocupação dialoga com projeções nacionais. Estudo do Centro de Liderança Pública (CLP), elaborado pelo economista Daniel Duque, estima que o fim da jornada 6×1, nos moldes atualmente discutidos no Congresso, pode resultar na eliminação de até 638 mil empregos formais no país. O levantamento aponta ainda queda de 0,7% na produtividade por trabalhador e impacto mais intenso sobre construção, comércio e agropecuária.

Segundo a presidente da FCDL-MS, há alternativas mais equilibradas em discussão no Congresso. Ela cita como contraponto a PEC 40/2025, em tramitação na Câmara dos Deputados, que propõe a flexibilização da jornada de trabalho, permitindo que o trabalhador escolha entre o regime tradicional da CLT, de até 44 horas semanais, ou um modelo flexível por horas, sem perda de direitos.

“É uma proposta que prestigia a autonomia da vontade do trabalhador e permite ajustes sem impor um custo que muitas empresas não conseguem absorver”, avalia.

De acordo com o estudo do CLP, o principal ponto de pressão está no custo do trabalho. Caso a redução de horas não venha acompanhada de ajuste proporcional dos salários, o valor da hora trabalhada sobe automaticamente. Parte das empresas consegue absorver esse impacto com reorganização interna ou investimento em tecnologia. Outras, no entanto, tendem a reagir com redução de escala, repasse de preços ou corte de vagas.

Experiências internacionais ajudam a dimensionar o risco. Em Portugal, onde a jornada semanal foi reduzida de 44 para 40 horas, houve aumento do salário-hora, mas também queda no emprego, retração nas vendas e diminuição das horas totais trabalhadas.

 

Acesse as redes sociais do Estado Online no Facebook Instagram

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *