Em exclusiva ao O Estado, Raul Graugnard defende incentivos fiscais e critica barreiras ao capital estrangeiro
Mato Grosso do Sul precisa abrir mais espaço ao capital estrangeiro se quiser a transformação do turismo em vetor de desenvolvimento. A avaliação é do embaixador de Honduras no Brasil, Raul Graugnard, que defende incentivos fiscais e políticas de atração de investidores para que o Estado se torne um polo de negócios, hotelaria e turismo internacional.
Em entrevista exclusiva ao O Estado, o diplomata traçou paralelos entre o potencial econômico sul-mato-grossense e o modelo de Honduras. Ele possui formação acadêmica pela Universidade de Lisboa e acompanha a política brasileira desde os anos 70. O país centro-americano, com extensão próxima à do Ceará, é o 3º maior produtor de café da América Latina e o 6º do mundo.
Um dos pontos centrais que o embaixador abordou foi a necessidade de Mato Grosso do Sul adotar uma política mais agressiva de atração de capital. Honduras oferece até dez anos de isenção fiscal total para investidores. O país mantém tratados de livre comércio com mais de 25 países, lista que inclui gigantes como China, União Europeia e Japão.
“Acredito que uma lei de incentivos seria muito interessante para o Estado facilitar a chegada de capital estrangeiro, de forma a gerar emprego e melhorar a qualidade de vida local”.
Segundo ele, esse modelo permitiu que Honduras recebesse mais de 50 multinacionais. Na hotelaria, a estratégia atraiu marcas como Hilton, Marriott, Princess e Holiday Inn.
O peso do comércio bilateral
Em contraste, o embaixador afirmou que o Brasil ainda mantém barreiras excessivas à entrada de capital estrangeiro e classificou o país como “muito blindado em termos de protecionismo”. Ele avalia que a presença dessas marcas funciona como sinalização de segurança para novos investidores.
Sobre a Rota Bioceânica, acredita que o projeto pode transformar Mato Grosso do Sul em um destino de investimentos em infraestrutura e serviços. Honduras já é um comprador relevante do Brasil e movimenta cerca de US$ 100 milhões anuais em produtos. A lista inclui ônibus Scania e Marcopolo, equipamentos da Tramontina e alimentos.
O desafio, contudo, é a reciprocidade. Graugnard lamentou que, enquanto Honduras abre as portas para o produto brasileiro, o caminho inverso enfrenta barreiras tarifárias. “Para os nossos produtos entrarem no Brasil sempre há um impedimento de impostos altos”, afirmou. Ele citou entraves regulatórios para itens como os charutos hondurenhos, setor que produz 100 milhões de unidades ao ano.
Pantanal como “Safári das Américas”
No turismo, a estratégia defendida é a diferenciação radical. Graugnard propõe que o Estado se posicione como o “safári das Américas” para um mercado de 50 milhões de centro-americanos. Ele comparou o Pantanal à região de La Mosquitia, a
“Amazônia da América Central”.
Considerada a maior floresta tropical ininterrupta ao norte da bacia amazônica, o local é um santuário que abriga a mítica “Cidade Branca” e compartilha com o Pantanal o desafio de manter uma biodiversidade quase intocada.
“A beleza natural do Pantanal e essa rota exótica de animais selvagens são coisas que as pessoas não encontram em outros lugares”, destacou. Ele lembrou que Honduras recebeu 1,8 milhão de turistas via cruzeiros no último ano. Para o diplomata, o principal desafio do Estado é ganhar projeção internacional para superar o estereótipo de que o Brasil se resume ao litoral.
Ele comparou o potencial sul-mato-grossense ao das Ruínas de Copán, sítio arqueológico maia que é o principal cartão-postal de Honduras. “O Brasil é conhecido pelo Rio de Janeiro e pelo Carnaval. Vocês podem oferecer algo exótico que as pessoas não têm acesso. É preciso vender o Pantanal como um lugar que ninguém encontra em outra parte do mundo”, concluiu.
Por Djeneffer Cordoba