Especialistas alertam que baixa educação financeira, dependência do INSS e aumento dos gastos com saúde podem comprometer o futuro de milhões de brasileiros
O Brasil está envelhecendo rapidamente. Em poucas décadas, o país deixará de ser predominantemente jovem para se tornar uma das nações com maior proporção de idosos do mundo. Embora represente uma importante conquista social, resultado do aumento da expectativa de vida e dos avanços da medicina, o fenômeno também traz desafios econômicos e sociais cada vez mais complexos.
A população com mais de 50 anos cresce, permanece economicamente ativa por mais tempo e amplia sua participação no mercado de trabalho. Nesse cenário, questões como aposentadoria, renda, crédito, saúde e planejamento financeiro ganham relevância e colocam em debate a capacidade do país de assegurar qualidade de vida durante o envelhecimento.
Mas afinal, o Brasil está preparado para garantir longevidade financeira à população que envelhece?

Foto: arte gerada por IA
Dados do mercado de trabalho ajudam a dimensionar essa transformação. Atualmente, o país possui cerca de 39,4 milhões de trabalhadores com carteira assinada no setor privado, segundo o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). Em Mato Grosso do Sul, são aproximadamente 585 mil empregados formais. Já o Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) contabiliza mais de 48,5 milhões de vínculos formais em todo o Brasil, dos quais 679.416 estão no Estado.
A diferença entre os levantamentos ocorre porque o IBGE e o Caged (Cadastro Geral de Empregados e Desempregados) utilizam metodologias distintas. Ainda assim, ambos apontam para um mercado de trabalho aquecido. Mato Grosso do Sul encerrou o último ano com taxa de desocupação de apenas 3%, uma das menores do país.
Outro dado reforça o avanço dessa mudança demográfica: cerca de 7 milhões de brasileiros com 50 anos ou mais trabalham atualmente com carteira assinada, o equivalente a aproximadamente 18% do mercado formal. O cenário confirma o envelhecimento da força de trabalho e demonstra que muitos profissionais permanecem ativos mesmo próximos da aposentadoria ou após atingirem a idade para requerer o benefício previdenciário.
No entanto, especialistas alertam que viver mais não significa, necessariamente, viver melhor. O aumento da expectativa de vida exige planejamento financeiro, estabilidade econômica e condições que garantam autonomia e bem-estar ao longo do envelhecimento. Garantir que a população envelheça com renda, independência e qualidade de vida tornou-se uma preocupação que vai muito além da Previdência Social.
A preocupação não é pequena. Na avaliação da economista Daniela Teixeira Dias, o país corre o risco de enfrentar, nas próximas décadas, uma geração de idosos sem recursos suficientes para manter o próprio sustento. Daniela observa que décadas de informalidade, falta de planejamento e dependência exclusiva da aposentadoria pública contribuíram para a formação de um cenário preocupante.
“Eu diria que o país corre risco de ter uma geração de idosos pobres. A questão da educação financeira não é uma questão cultural no Brasil. É uma cultura que ainda precisa ser estimulada”, pontua.
Menos trabalhadores para sustentar mais aposentados
O envelhecimento populacional já produz impactos visíveis no mercado de trabalho. Daniela explica que a redução da população economicamente ativa começa a gerar dificuldades na reposição de mão de obra em diversos setores. O desafio se torna ainda maior diante do aumento da parcela da população dependente da Previdência Social. Segundo a economista, o sistema previdenciário já enfrenta dificuldades para equilibrar receitas e despesas.

Daniela Teixeira Dias – Foto: arquivo pessoal
“Já percebemos escassez de mão de obra, principalmente qualificada. O mercado começa a sentir os efeitos da redução da população em idade ativa e isso tende a se intensificar ao longo dos próximos anos. Nós já temos um déficit significativo. A Previdência não consegue pagar exatamente aquilo que é necessário e a conta não fecha. Quando projetamos um crescimento ainda maior da população idosa, esse impacto se torna mais expressivo”, explica.
Ela ressalta que muitos aposentados dependem exclusivamente do benefício do INSS e enfrentam dificuldades para arcar com despesas básicas.
“Grande parte dos idosos vive apenas com um salário mínimo. Quando você considera alimentação, aluguel, medicamentos e outras despesas básicas, a conta simplesmente não fecha.”
A conta da velhice não se resume à aposentadoria
Os desafios financeiros do envelhecimento vão muito além da renda mensal. Conforme a idade avança, aumentam também os gastos com saúde, medicamentos, exames e tratamentos médicos. Segundo Daniela, esse custo muitas vezes é ignorado durante o planejamento financeiro. A especialista defende uma visão mais ampla sobre a longevidade, baseada no conceito de envelhecimento ativo.
“Quando falamos de envelhecimento, não estamos falando apenas de aposentadoria. Estamos falando de custos crescentes com saúde e assistência social. Envelhecimento ativo envolve atividade física, menor dependência de medicamentos, acesso ao lazer, viagens, convivência social e bem-estar. Tudo isso exige planejamento financeiro ao longo da vida.”
Outro dado que chama atenção é o momento em que a maioria das pessoas começa a pensar no futuro.
“O brasileiro geralmente começa a pensar na aposentadoria apenas cinco anos antes de se aposentar. Nós não aprendemos sobre aposentadoria nem sobre planejamento financeiro. O resultado é que nos tornamos idosos despreparados para a velhice”, finaliza Daniela.
Segundo os cálculos apresentados pela economista, uma pessoa que deseja complementar a aposentadoria para alcançar renda próxima de R$ 3 mil mensais precisaria começar a investir ainda jovem. Quanto mais tarde o planejamento começa, maior é o esforço financeiro necessário.
A história de quem transformou disciplina em segurança financeira
Enquanto especialistas alertam para os riscos da falta de planejamento, a trajetória do mecânico Pedro Fedossi, de 60 anos, mostra como a organização financeira pode fazer diferença ao longo da vida.
Morador de Campo Grande, Pedro começou a trabalhar formalmente aos 14 anos em uma concessionária de automóveis. Filho de uma família com 13 irmãos, encontrou no trabalho uma forma de ajudar nas despesas domésticas e construir o próprio futuro.
Após cumprir o serviço militar, decidiu empreender. Aos 20 anos abriu o próprio negócio em busca de melhores oportunidades de renda e mais autonomia profissional.

Pedro Fedossi é mecânico de carros há mais de 40 anos – Foto: Juliana Aguiar
A decisão, entretanto, trouxe um aprendizado que ele carrega até hoje.
“Infelizmente, quando decidi trabalhar como autônomo, deixei de recolher INSS por 22 anos, e hoje me arrependo. Mas antigamente a gente não tinha tanta informação sobre essas questões trabalhistas”, explica.
A situação começou a mudar em 2010, quando formalizou a oficina por meio do MEI (Microempreendedor Individual) e voltou a contribuir regularmente para a Previdência.
“Desde 2010, com o surgimento do MEI, formalizei meu negócio e todos os meses pago as taxas obrigatórias, além de também pagar o carnê de contribuição do INSS. Estou com tudo organizado, me preparando para quando chegar a idade de obter o benefício da aposentadoria.”
Ao longo de décadas de trabalho, Pedro conseguiu construir patrimônio de forma gradual. Possui a casa onde mora, seu estabelecimento localizado na Avenida Júlio de Castilho — uma das principais vias da Capital sul-mato-grossense —, um imóvel alugado que complementa a renda da família e alguns veículos. Mas considera que seu maior investimento foi na educação das filhas.
“Graças a Deus, pude custear os estudos das minhas filhas até a conclusão da faculdade, o que, para mim, representa uma vitória inexplicável. Depois que elas começaram a trabalhar e a ter o próprio dinheiro, comecei a juntar um pouco de dinheiro.”
A disciplina financeira sempre foi uma regra dentro de casa.
“Sempre procurei viver de acordo com as condições que tinha. Não compro fiado, procuro realizar apenas compras à vista e faço reservas financeiras mensais.”
Hoje, os gastos com alimentação e saúde representam uma parcela significativa do orçamento familiar. Ainda assim, Pedro afirma que o equilíbrio financeiro construído ao longo dos anos permite viver com tranquilidade. O mecânico garante que, mesmo quando conquistar a aposentadoria, não pretende abandonar a oficina.

Para Pedro, ter responsabilidade financeira é o segredopara ter uma vida tranquila e organizada – Foto: Juliana Aguiar
“Enquanto estiver com saúde, não vou deixar de trabalhar. Quero sim aposentar, até porque é um direito que tenho garantido, mas também quero continuar fazendo meu trabalho, atendendo meus clientes, tendo contato com o público, porque é algo que gosto.”
Entre a sobrevivência e o planejamento, a educação financeira ainda é desafio para grande parte dos brasileiros
Para Vagner Conte, superintendente de Performance Comercial do Banco Mercantil, compreender a longevidade financeira exige olhar para a realidade econômica do país sem simplificações.
De acordo com o superintendente, não existe um único perfil de brasileiro quando o assunto é planejamento financeiro. Há aqueles que conseguem investir e construir patrimônio, mas também milhões de pessoas que vivem sob forte pressão financeira e encontram dificuldades até mesmo para organizar o orçamento mensal.
“Existem clientes que conseguem ter planejamento financeiro, seja porque desenvolveram essa cultura ao longo da vida ou porque tiveram acesso à educação financeira. Mas também encontramos uma parcela significativa da população que vive em situação de sobrevivência, sem margem para pensar no futuro”, diz Vagner.

Vagner Conte, superintendente de Performance Comercial do Banco Mercantil – Foto: divulgação
O executivo observa que existe ainda uma ampla camada intermediária da população, formada por pessoas que conseguem manter as contas em dia, viajar eventualmente, contratar um plano de saúde ou adquirir bens, mas sem conseguir formar uma reserva robusta para a aposentadoria. Essa realidade, segundo ele, é resultado de fatores históricos.
Décadas sem educação financeira deixaram marcas
Vagner Conte destaca que muitas das pessoas que hoje estão próximas da aposentadoria construíram suas carreiras em um período em que praticamente não existiam debates sobre educação financeira, investimentos ou previdência complementar. Para ele, isso explica por que grande parte dos brasileiros ainda concentra suas economias em modalidades tradicionais de baixo rendimento ou simplesmente não consegue poupar.
“O Brasil de 30, 40 ou 50 anos atrás era muito diferente. Muitas pessoas trabalhavam na informalidade e sequer existia uma cultura de planejamento financeiro. Não se falava sobre investimentos, previdência ou reserva para o futuro”, pontua.
Enquanto países desenvolvidos consolidaram, ao longo de décadas, uma cultura de formação patrimonial baseada em investimentos de longo prazo, o Brasil ainda dá seus primeiros passos nesse processo. Mesmo assim, Conte acredita que a mudança já começou.
“O principal fator que contribui para a construção de patrimônio é o tempo. Nada vence o tempo. Mesmo pequenas quantias guardadas regularmente ao longo de décadas podem fazer uma diferença enorme quando a pessoa chega aos 50, 60 anos ou mais.”

Foto: reprodução/imagem ilustrativa
A nova geração terá uma relação diferente com o dinheiro
Na avaliação do executivo, os avanços tecnológicos e a democratização do acesso à informação financeira devem produzir mudanças profundas nas próximas décadas. Vagner afirma que as novas gerações já possuem mais contato com temas como investimentos, aposentadoria e planejamento financeiro do que seus pais e avós tiveram, e a transformação do mercado financeiro também ampliou as possibilidades para quem deseja construir patrimônio.
“Hoje os pais falam mais sobre dinheiro com os filhos, as escolas abordam o tema e os próprios bancos e plataformas de investimento passaram a incentivar a educação financeira. O dinheiro perde valor ao longo do tempo. Guardar recursos já é importante, mas entender como fazê-los render também será cada vez mais essencial para as próximas gerações”, explica Vagner.
Pequenas economias podem fazer grande diferença
Um dos principais alertas feitos por Vagner Conte é que muitas pessoas acreditam que investir é algo restrito a quem possui renda elevada. Na prática, explica ele, o processo começa com o conhecimento dos próprios hábitos de consumo. O executivo afirma que ferramentas simples podem ajudar nesse processo, desde aplicativos até anotações feitas em papel e também chama atenção para despesas aparentemente pequenas, mas que, acumuladas ao longo dos anos, podem comprometer a construção de patrimônio.
“Cada indivíduo precisa imaginar qual vida deseja ter no futuro e analisar sua realidade financeira. As pessoas precisam escolher qual dificuldade querem enfrentar. Às vezes abrir mão de determinados confortos imediatos pode representar uma segurança muito maior lá na frente.”
Como exemplo, Vagner destaca que uma economia mensal de R$ 200 investida regularmente ao longo de décadas pode se transformar em uma reserva importante para complementar a renda futura.
Previdência privada ainda está longe da realidade da maioria
Embora a preocupação com o futuro da Previdência Social esteja cada vez mais presente, a adesão à previdência complementar ainda é considerada baixa no Brasil. Para Conte, a principal barreira continua sendo a renda. Mesmo assim, ele acredita que o envelhecimento da população deve acelerar a procura por soluções complementares nos próximos anos.
“Para muitas pessoas, especialmente aquelas que vivem sob pressão financeira, assumir um compromisso mensal com um plano de previdência pode ser difícil. Há meses em que sobra dinheiro e outros em que não sobra nada. O Brasil está envelhecendo. No futuro teremos menos pessoas contribuindo e mais pessoas dependendo do sistema previdenciário. Isso naturalmente faz com que as novas gerações procurem alternativas para complementar sua renda na aposentadoria”, explica Conte.
Banco Mercantil aposta em atendimento especializado ao público 50+
Com 83 anos de atuação, o Banco Mercantil tem direcionado parte significativa de sua estratégia ao atendimento da população com mais de 50 anos. Segundo o superintendente de Performance Comercial Vagner Conte, a instituição busca oferecer soluções que atendam desde clientes ainda em fase de construção patrimonial até aqueles que já estão aposentados ou próximos da aposentadoria.
“O nosso diferencial não está apenas nos produtos, mas principalmente na forma como atendemos esse público. Nossos profissionais são treinados para compreender as necessidades específicas das pessoas com mais de 50 anos”, afirma.

Agência do Banco Mercantil, no Centro de Campo Grande – Foto: reprodução
Ele destaca ainda que o banco tem ampliado sua presença física em um momento em que grande parte do mercado financeiro aposta na redução de agências.
“Acreditamos que o atendimento presencial continua sendo muito importante para esse público. Ao mesmo tempo, investimos em canais digitais para que cada cliente escolha a forma mais confortável de se relacionar com o banco.”
Envelhecer com dignidade é o grande desafio
Para Vagner Conte, o principal desafio do país nos próximos anos será criar condições para que a população envelheça com segurança financeira e qualidade de vida.
“Nosso compromisso é contribuir para que as pessoas consigam envelhecer com dignidade, autonomia e acesso às melhores oportunidades. Planejamento financeiro não é apenas sobre dinheiro. É sobre qualidade de vida, liberdade de escolha e tranquilidade no futuro”, conclui.
Insegurança financeira afeta saúde física e emocional dos idosos
Os impactos da falta de recursos financeiros não se limitam ao orçamento. Segundo Isabela Azevedo Trindade, fisioterapeuta especialista em Gerontologia pela SBGG (Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia) e presidente do Departamento de Gerontologia da entidade, a insegurança financeira está diretamente ligada ao bem-estar da população idosa.

Isabela Oliveira Azevedo Trindade – Foto: divulgação
Isabela explica que aposentadoria, redução da renda e aumento dos gastos com saúde provocam mudanças profundas na rotina de quem envelhece.
“A insegurança financeira é hoje um dos fatores que mais comprometem a saúde emocional da pessoa idosa. Observamos aumento de sintomas ansiosos, depressivos, sensação de inutilidade, medo do futuro e sofrimento emocional relacionado à dependência financeira da família.”
Segundo a especialista, muitos idosos passam a restringir gastos com alimentação, lazer, medicamentos e até tratamentos médicos por receio de não conseguirem arcar com as despesas. Esse cenário tem reflexos diretos na saúde física. O estresse prolongado está associado ao agravamento de doenças como hipertensão, diabetes, problemas cardiovasculares, depressão e distúrbios do sono. Além disso, a limitação financeira pode provocar isolamento social.
“Dificuldades financeiras podem levar ao afastamento de atividades, encontros e espaços de convivência. Esse isolamento aumenta os riscos de depressão, declínio cognitivo e fragilidade física.”
O desafio é transformar longevidade em qualidade de vida
A especialista alerta que o Brasil ainda não acompanhou adequadamente a velocidade do envelhecimento populacional. Ela defende o fortalecimento de políticas públicas voltadas para cuidados de longa duração, apoio às famílias cuidadoras, promoção da autonomia e ampliação da educação financeira ao longo da vida.
“O Brasil ainda não está plenamente preparado para envelhecer com dignidade na velocidade em que a população está envelhecendo. Envelhecer com dignidade envolve moradia adequada, acesso à saúde, mobilidade, segurança financeira, inclusão social e possibilidade de manter independência pelo maior tempo possível.”
A conclusão é unânime entre os especialistas ouvidos na reportagem: viver mais já é uma realidade. O grande desafio das próximas décadas será garantir que essa longevidade venha acompanhada de renda, autonomia, saúde e qualidade de vida. Sem planejamento financeiro, educação previdenciária e políticas públicas adequadas, o país corre o risco de transformar uma conquista demográfica em um dos maiores desafios econômicos e sociais de sua história.
A experiência acumulada pelo mecânico Pedro, ao longo de mais de quatro décadas de atividade também se transformou em conselho para as novas gerações.
“É preciso ter responsabilidade, saber gerir as finanças, não gastar com coisas desnecessárias, pensar sempre no dia de amanhã, para não correr, ou pelo menos diminuir o risco de precisar de algo e não ter como custear. Para mim, esse estilo de vida deu certo e sigo fazendo minhas economias, para não depender apenas da aposentadoria paga pelo governo e poder continuar vivendo com qualidade”, finaliza Pedro.
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