Lojista percebe fim do ‘cliente de passeio’ no Centro de Campo Grande

FOTO: NILSON FIGUEIREDO
FOTO: NILSON FIGUEIREDO

Intenção de consumo das famílias chegou a 108,9 pontos em agosto, com alta de 0,4%

Entrar em uma loja, olhar as vitrines e sair com uma compra não planejada está se tornando cada vez menos comum no Centro de Campo Grande. Com menos pessoas circulando pelas ruas, o cliente que ia ao Centro para passear e acabava consumindo deu lugar a um público mais objetivo, que sai de casa quando já sabe o que precisa comprar.

Na Rua 14 de Julho, o gerente da loja M&M, Elvis Duarte, diz que a procura por produtos não diminuiu. O que mudou, na percepção dele, foi o caminho percorrido pelo consumidor até a compra. Hoje, quem antes ia ao Centro encontra lojas mais perto de casa, além das opções oferecidas pela internet.

“Hoje o cliente tem mais opções também nos bairros. Tem o comércio local, a pequena rede, e também as grandes lojas estão indo para os bairros. Então, se torna mais conveniente comprar ali no bairro dele também”, afirma.

Para Elvis, a compra que antes terminava no Centro pode acontecer em uma loja de bairro, no shopping ou pela internet, sem que o cliente precise enfrentar trânsito, procurar estacionamento ou caminhar pelas ruas da região central.

“O cliente está espalhado, não está mais concentrado igual era antes até no Centro. Aquele grupo que tinha poder para comprar à vista, que tem um limite no cartão, procura outras opções. Ele vai para um lugar mais conveniente, vai para o shopping, para a internet ou compra no bairro dele mesmo”, diz.

Consumo campo-grandense

A consequência aparece no movimento das ruas. “Não tem mais passante como antigamente, você tropeçava nas pessoas. Em dezembro, hoje, dá um movimento dois, três dias antes do Natal. Antigamente, dezembro inteiro você não conseguia andar na 14. Era muito legal, era divertido vir para o Centro”, lembra o gerente.

Na avaliação do gerente, falta um motivo para que as pessoas frequentem a região além de resolver uma necessidade.“Hoje as pessoas vêm em último caso, vêm só por necessidade. Então, você vai eliminando cada vez mais as oportunidades que a gente tem de negociação”, afirma o gerente da M&M.

A percepção do comerciante surge em um momento em que a intenção de consumo das famílias de Campo Grande continua em terreno positivo. Em agosto, a ICF (Intenção de Consumo das Famílias) atingiu 108,9 pontos, alta de 0,4% em relação ao mês anterior, segundo levantamento do Sistema Comércio MS.

O índice permanece acima dos 100 pontos, faixa que indica satisfação e predisposição ao consumo. Entre os fatores que contribuíram para o resultado estão a melhora na avaliação da renda atual, com alta de 1,9%.

A facilidade de acesso ao crédito também cresceu 1,3%. Além disso, 52,6% dos entrevistados afirmaram se sentir mais seguros em relação ao emprego na comparação com o mesmo período do ano passado.

Confiança no bolso

Para o presidente do Sistema Comércio MS, Juliano Wertheimer, a segurança em relação ao trabalho e a melhora na percepção sobre a renda ajudam a explicar o resultado. Segundo ele, esses fatores têm reflexo direto sobre a disposição das famílias para consumir.

“Quando há segurança no emprego e melhora na percepção da renda, o consumo tende a ser estimulado, beneficiando diretamente o comércio e os serviços. Apesar da cautela observada em algumas decisões de compra, especialmente de itens de maior valor, o indicador segue positivo”, afirma.

Na ponta do lápis

No balcão da loja, porém, Elvis diz não ter percebido essa melhora na renda como um aumento da disposição para assumir compras mais caras.

A mudança fica mais evidente na hora de definir o parcelamento. O gerente conta que, antes, era comum apresentar uma compra dividida em 24 vezes e receber uma resposta imediata. Agora, o prazo para terminar de pagar também passou a entrar na conta do consumidor.

“Antigamente você falava assim: vai ficar em 24 vezes. A pessoa dizia: ‘Ok’. Hoje a pessoa já fala: ‘Nossa, mas 24? Eu vou terminar em tal dia, tal ano’. A pessoa calcula. Hoje ela coloca na calculadora: ‘Já pago isso, já pago isso, já pago isso’”, relata.

Para ele, o comportamento está ligado ao peso de outras despesas no orçamento. A compra de uma lavadora, por exemplo, não é analisada isoladamente. Antes de assumir uma nova parcela, o consumidor coloca na conta os boletos, o aluguel, a energia, a alimentação, o combustível e outras dívidas.

“Ela precisa comprar uma lavadora e vai assumir uma dívida. Mas ela não tem uma dívida só da lavadora. Às vezes ela tem um boleto de outra loja e tem água, luz, aluguel, roupa, comida, gasolina”, afirma.

A cautela percebida pelo gerente também aparece na pesquisa. Apesar da alta da ICF, a perspectiva de consumo recuou 1,7% em agosto. Já o indicador que mede o momento para a aquisição de bens duráveis caiu 1,5%, sinal de maior cuidado com gastos de valor mais elevado.

A economista do IPF, Regiane Dedé, afirma que emprego, renda e acesso ao crédito puxaram o resultado positivo do levantamento, mas a redução nos indicadores ligados às compras futuras mostra que o consumidor ainda seleciona melhor onde e como vai gastar.

“Mais da metade dos entrevistados afirma sentir maior segurança em relação ao trabalho, e a expectativa profissional também permanece elevada. Por outro lado, observamos uma redução na perspectiva de consumo e nas intenções de compra de bens duráveis, sinalizando que as famílias estão mais criteriosas em seus gastos futuros”, diz.

O que ainda vende

Mesmo com essa cautela, alguns produtos continuam com boa procura na loja onde Elvis trabalha. Lavadoras e refrigeradores estão entre os itens mais vendidos, principalmente porque são compras ligadas a necessidades do dia a dia.

Os móveis também mantêm procura. Nesse caso, Elvis atribui parte do movimento à preferência de muitos consumidores pela compra presencial. Ver o produto, conferir o material e ter a quem recorrer diretamente em caso de problemas ainda pesam na decisão.

“Se chega alguma coisa danificada, muitas vezes a pessoa até desiste de tentar trocar pela dor de cabeça. Tem que acionar, ligar, mandar e-mail. Na loja física, ela fala com o gerente, fala com o vendedor e a troca é mais rápida”, afirma.

Com a chegada do período de seca e temperaturas mais altas, outros produtos começam a ganhar espaço. Freezers, aparelhos de ar-condicionado e climatizadores passam a ser mais procurados, e, segundo o gerente, os últimos têm conquistado consumidores que antes não viam o produto como uma alternativa.

Chuva não para ambulantes no aniversário de CG

A chuva não atrapalhou a animação dos campo-grandenses que saíram de casa na manhã de ontem (26) para comemorar mais um aniversário de Campo Grande. Mesmo com o mau tempo, a programação da Capital foi mantida enquanto vendedores ambulantes aproveitaram a movimentação para tentar garantir uma renda extra.

A chuva mudou o cenário das comemorações. O tradicional desfile cívico-militar, previsto para ocorrer pela manhã, foi cancelado devido às condições climáticas.
Enquanto parte da programação foi afetada pelo mau tempo, vendedores ambulantes permaneceram no Centro de Campo Grande na tentativa de aproveitar a movimentação.

Felipe Santos foi prevenido. Ao perceber a previsão de chuva, decidiu levar capas para vender durante os eventos. Segundo ele, os produtos haviam sido adquiridos para outra ocasião e acabaram se tornando uma oportunidade de renda no aniversário da Capital. “Eu tinha umas capas de outro evento e resolvi vir vender quando vi que tinha previsão de chuva”, contou.

O mesmo cenário não ocorreu com a vendedora de salgados, Benedita Silva que chegou ao local ainda durante a madrugada do dia 25, para garantir a montagem de sua estrutura. Com o cancelamento do desfile, porém, ela viu a expectativa de vendas diminuir. “O problema é essa chuva. A expectativa era de venda, mas com o cancelamento do desfile fica difícil? É o evento que mais traz pessoas para o Centro”, lamentou a vendedora.

Compras de feriado

Mesmo com o tempo instável, a movimentação não ficou restrita aos vendedores. Consumidores que costumam frequentar o comércio da região central também aproveitaram a data para realizar compras.

Lúcio Oliveira é vendedor na região central e consumidor assíduo do comércio local. Ele aguardou a chuva diminuir para aproveitar a movimentação e fazer compras. “Sou cliente assíduo do Centro, eu trabalho aqui, e costumo comprar bastante, principalmente calças e camisas”, contou.

Ele afirma que, caso tivesse oportunidade ao longo do dia, pretendia continuar circulando pela região após a distribuição do tradicional bolo de aniversário.

Mesmo com a chuva e as mudanças provocadas pelo mau tempo, o Centro de Campo Grande permaneceu como um dos principais pontos das comemorações. Para os trabalhadores que dependem da movimentação das ruas, o aniversário da Capital representa também uma oportunidade de aumentar as vendas e recuperar parte dos investimentos feitos para a data.

Por Djeneffer Cordoba, Ian Netto e Enzo Pereira

 

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