Especialistas detalham os efeitos no motor e ensinam sinais que o condutor deve observar
Um simples engasgo na subida ou a dificuldade de dar a partida pela manhã pode custar até R$ 10 mil ao motorista. Na última semana, um condutor de Campo Grande levou uma garrafa de gasolina a um posto para denunciar suspeita de combustível adulterado — um problema que especialistas afirmam ser silencioso, mas caro. A reportagem do O Estado percorreu oficinas mecânicas para entender o que acontece quando o motor “ingere” o que não deveria.

Especialistas explicam
na prática como os
efeitos prejudicam os
carros – Foto: Nilson Figueiredo
Para o mecânico Cleverson Carvalho, o combustível batizado é um “combo” de destruição. “Não é só o carro falhar. Ele ataca o cabeçote e o catalisador, que é uma peça caríssima”, explica. Quando a mistura é irregular, o sistema de injeção entra em colapso. O processo de limpeza exige o esvaziamento total do tanque, troca de filtros e, em muitos casos, da bomba de combustível. “O resíduo fica ali. Não adianta só colocar gasolina boa por cima”, alerta.
Calebe, proprietário de oficina, coloca os números na mesa e o cenário é desolador para o bolso. Em um carro popular — como um Gol ou Fox — o prejuízo médio para recuperar o sistema de injeção e sensores de nível varia entre R$ 4 mil e R$ 6 mil. Se o veículo for de uma categoria superior, com tecnologia de injeção direta (comum em modelos como Virtus, T-Cross e Polo), a conta escala rápido. “O bico injetor desses carros modernos custa em média mil reais cada unidade. Como são quatro, o prejuízo inicial já é altíssimo”, resume.
Mecânico com anos de experiência no setor, Silson ensina o motorista a “ouvir” o crime. Existe um fenômeno chamado pré-ignição. No jargão das oficinas, o carro “grila” ou “castanha”. É um estalo metálico que ocorre quando o combustível queima antes da hora. “O motorista que usa o carro todo dia sente na hora que o comportamento mudou. Se você acelerar e ouvir aquele barulho de castanhas batendo, pare o carro. É o combustível queimando errado”, orienta.
O problema, segundo ele, é que nem toda adulteração é igual. Se houver água, o carro para quase imediatamente. Mas se houver solvente — o famoso “batismo” químico — o dano é lento e cruel. O solvente deixa resíduos que criam uma borra no pistão, contaminam o óleo e, meses depois, fundem o motor. “O solvente a gente sente pelo cheiro estranho, mas não tem como provar na hora. Só um laboratório diria”, lamenta o mecânico.
O impasse do laudo
Embora a orientação oficial da ANP (Agência Nacional do Petróleo) seja de que o consumidor exija um laudo do mecânico para processar o posto, a prática esbarra no receio jurídico. Nas oficinas consultadas pela reportagem, a resistência em assinar um documento acusatório é grande.
Os mecânicos explicam que o único teste que o posto é obrigado a fazer na frente do cliente é o da proveta, que mede a porcentagem de etanol. Com a nova legislação prevendo um aumento para 35% de álcool na gasolina, o combustível brasileiro está se tornando um desafio de engenharia. “Para nós, mecânicos, é uma catástrofe. O carro não foi feito para isso. O cliente reclama que está gastando muito, mas é a composição química que mudou”.
O benefício da dúvida
Há, contudo, o outro lado da moeda. Nem toda falha é culpa do posto. Os especialistas alertam que muitos motoristas negligenciam a manutenção básica — como troca de velas e cabos a cada 40 mil quilômetros — e, quando o carro para após um abastecimento, a culpa recai automaticamente sobre o empresário. “Às vezes é coincidência. O carro já estava ruim e o combustível novo, mesmo sendo bom, acusa a falha de um bico que já estava no limite”, pondera Silson.
A recomendação final dos especialistas para evitar o prejuízo é quase um mantra de sobrevivência: abasteça sempre em postos de bandeira conhecida, exija a nota fiscal e, se possível, mantenha o histórico de onde o carro foi alimentado.
O que é gasolina adulterada?
A gasolina adulterada é um tipo de combustível manipulado ilegalmente, com a adição de substâncias não autorizadas e em quantidades não permitidas pela legislação.
Essas substâncias podem ser solventes, álcool, água, óleos lubrificantes, entre outros. O uso de gasolina adulterada pode causar danos ao motor do veículo, reduzir sua eficiência, aumentar o consumo de combustível, entre outros riscos que veremos adiante.
Em nota, o Procon se manifestou dizendo que já vem realizando fiscalização em postos de gasolina da cidade há mais de 2 semanas. O órgão reforçou também o canal de denuncias para o consumidor que observar alguma irregularidade. “O 156 opção 6 todos os consumidores podem ligar e formalizar suas denuncias que iremos ao estabelecimento para averiguar”.
No último dia 27, o Procon Municipal junto a ANP (Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis), e a Senacon (Secretaria Nacional do Consumidor) realizaram uma operação como objetivo verificar possíveis irregularidades relacionadas aos preços, à qualidade e à quantidade dos combustíveis comercializados.
Em Campo Grande, três postos de combustíveis foram fiscalizados. Durante a ação, as equipes realizaram testes de qualidade da gasolina e do etanol, verificaram a vazão das bombas e analisaram notas fiscais de compra dos produtos. “Não foi constatada nenhuma irregularidade. Todos os estabelecimentos estavam em conformidade com as normas”, concluiu a fiscalização nas unidades.
Por Djeneffer Cordoba
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