Empreendedorismo feminino cresce, fortalece economia de bairros afastados do Centro e transforma a renda de famílias em MS

Foto/; arquivo pessoal
Foto/; arquivo pessoal

O empreendedorismo feminino avança no Brasil e vem transformando a realidade de milhares de mulheres. Impulsionadas pela necessidade, pelo planejamento e pela busca por autonomia financeira, muitas brasileiras têm deixado o regime da CLT (Consolidação das Leis do Trabalho) para investir no próprio negócio. O movimento tem batido recordes em todo o país.

Segundo o Sebrae (Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas), somente em 2025, mais de 2 milhões de pequenos negócios foram abertos por mulheres no Brasil. O número representa 42% do total de empresas criadas no período e supera em 320 mil os registros de 2024, com destaque para os setores de indústria, serviços e comércio.

Em Mato Grosso do Sul, o cenário acompanha essa tendência nacional. O Estado ocupa a sétima posição no ranking de participação feminina na abertura de empresas, com 41,9%. Atualmente, são 355.199 empreendedores formalizados entre micro e pequenas empresas e microempreendedores individuais. As mulheres representam 44,8% dos MEIs (Microempreendedores Individuais) e 40,1% dos sócios de micro e pequenas empresas. Apenas em 2026, já foram abertas 21.721 empresas, embora a expectativa seja de desaceleração ao longo dos próximos meses, após um início de ano mais aquecido.

Claudio Mendonça

Foto: Divulgação/Sebrae

Para o diretor-superintendente do Sebrae em Mato Grosso do Sul, Claudio Mendonça, o planejamento é peça-chave para transformar ideias em negócios sustentáveis.

“A orientação antes de iniciar um negócio é fundamental para transformar um sonho em um projeto viável. Empreender sem planejamento pode trazer riscos que poderiam ser evitados com o apoio certo”, afirma. Ele destaca que a instituição oferece suporte desde a concepção até a consolidação das empresas, com cursos, capacitações e consultorias especializadas.

Esse crescimento também reflete mudanças estruturais na economia e na organização das famílias. Segundo a economista Daniela Teixeira Dias, o avanço do empreendedorismo feminino está fortemente ligado à necessidade de geração de renda e ao aumento dos microempreendimentos individuais. “A gente nota um aumento significativo do número de empreendimentos femininos, principalmente entre os microempreendimentos individuais”, explica.
Apesar disso, ela alerta para desafios importantes. “Ainda falta bastante planejamento financeiro, e esse é um dos principais gargalos. Muitos empreendimentos acabam não tendo sustentação no longo prazo por conta dessa falta de separação”, afirma. A economista também aponta dificuldades no acesso ao crédito e recomenda cautela diante do cenário econômico. “O cenário exige prudência, principalmente pelos impactos no poder de compra”, diz. Ainda assim, ela ressalta os efeitos positivos. “O empreendedorismo gera efeitos multiplicadores, fortalecendo não só a renda, mas também a comunidade.”

Negócios que crescem longe do centro

Na prática, esse avanço aparece em histórias de mulheres que estão transformando a economia de bairros afastados da região central de Campo Grande em polos de oportunidade.

A esteticista Karina Witt, de 34 anos, decidiu abrir o próprio negócio há dez anos, no quintal de casa, no bairro Serradinho, região oeste da cidade. A decisão surgiu da necessidade de conciliar os estudos com os cuidados com a avó. Com poucos recursos, ela começou com o básico e, aos poucos, ampliou o espaço e investiu em qualificação.

“Foi na raça, na cara e na coragem. Empreendi por necessidade mesmo e também por gostar da área de estética. Aprendi que o que chama atenção é o seu trabalho. Mesmo tendo um empreendimento em bairro, distante de shoppings ou regiões de classe A, você consegue alcançar seu público se oferecer um serviço de qualidade”, afirma.

Com o tempo, Karina percebeu que o sucesso não depende necessariamente da localização. “Eu achava que precisava estar em um lugar nobre para ter clientes. Hoje sei que não importa o lugar, e sim o profissionalismo”, completa.

A enfermeira Mariana Schneider*, cliente da esteticista, fala da admiração pela trajetória da empreendedora.
“Faço minhas sobrancelhas com a Karina há cerca de cinco anos e sempre me sinto muito bem no espaço dela. Ao longo do tempo, construímos uma amizade que vai além do atendimento profissional, o que torna tudo ainda mais especial. É um ambiente acolhedor, onde me sinto à vontade e bem cuidada. Além disso, ela é extremamente profissional, oferece um serviço de qualidade com preço acessível. Recomendo muito o trabalho dela.”

Para Karina, empreender em bairros afastados é uma oportunidade real de crescimento. “Vale a pena. As pessoas vêm pelo seu trabalho, não pelo endereço”, reforça.

Hoje, ela atende clientes de várias regiões da cidade e até de outros estados, além de realizar atendimentos externos em municípios como Miranda, Sidrolândia e Bonito.

A trajetória também evidencia a importância da qualificação contínua. Além dos atendimentos em micropigmentação fio a fio, lash lifting de cílios, brow lamination de sobrancelhas e maquiagem, Karina ministra cursos de automaquiagem e inspira outras mulheres.

Karina com suas alunas, durante ministração de seu curso de automaquiagem – Foto: arquivo pessoal

“O mercado muda o tempo todo e estar atualizada sobre procedimentos, técnicas e tendências faz total diferença no serviço que oferecemos. Pensando nisso, fui em busca de cursos em outros estados, inclusive no Rio de Janeiro e em São Paulo, para trazer novidades para minhas clientes. Muita gente se inspira na minha história. Isso me motiva a continuar”, destaca.

Entre o emprego fixo e o sonho próprio

Outra história que retrata o crescimento do empreendedorismo feminino em bairros fora da área central é a de Juliana Macedo, que decidiu abrir um espaço para festas sem abandonar o emprego formal. Juliana trabalha há 13 anos como CLT em uma empresa de serviços funerários, mas sempre alimentou o desejo de ter algo próprio. Mesmo sendo sua primeira experiência como empreendedora, ela enfrentou o medo.

Juliana Macedo – Foto: arquivo pessoal

“A ideia nasceu de um sonho mesmo, de querer ter algo meu, de construir algo com as minhas próprias mãos. Eu via a oportunidade e pensei: ‘por que não tentar?’ Foi tudo muito no susto, com medo, mas também com muita coragem, conta.”

O negócio nasceu em um momento de necessidade financeira. Juliana precisava melhorar a renda familiar, e acabeou descobrindo uma força interior que eu nem sabia que tinha. A empresária explica que, no início, a ideia era construir kitnets para aluguel. Mas, depois de conversar com o marido, o casal decidiu investir em um espaço para festas por causa do retorno financeiro. O local foi escolhido pela oportunidade de financiamento do terreno em um bairro afastado do centro, o Jardim Inápolis.

“Eu queria um espaço acessível, simples, mas feito com muito cuidado”, relata.

O começo, segundo Juliana, foi marcado por insegurança e sem acesso facilitado ao crédito, o crescimento veio de forma gradual.

Fachada do espaço de festas de Juliana Macedo – Foto: arquivo pessoal

“Teve um momento em que eu olhei e pensei: ‘como vamos construir?’ Foi muito difícil. Medo de não dar certo, preocupação com dinheiro… pensei em desistir várias vezes. Mas algo dentro de mim sempre dizia para continuar. Foi tudo com muito esforço e aos poucos. Nem sempre é fácil conseguir crédito, então cada melhoria no espaço foi feita com muito sacrifício e planejamento. Foi com o nosso salário e cartão de crédito”, explica.

Hoje, ela cuida de praticamente tudo sozinha, atendimento de clientes, organização do espaço, além da divulgação nas redes sociais. Apesar de cansativo, ela afirma que faz tudo com muito carinho, porque sabe o quanto lutou para construir seu empreendimento. Juliana também fala dos desafios de empreender sendo mulher.

“Muitas vezes a gente sente que precisa provar mais, mostrar mais, apenas por sermos mulheres. E ainda tem a sobrecarga, porque a gente não deixa de cuidar da casa, da família… é muita coisa ao mesmo tempo. Mas isso também me fortaleceu.”

O ponto de virada veio quando ela passou a acreditar mais no próprio trabalho, por meio do reconhecimento das pessoas e as indicações que eram feitas., fatos que a impulsionaram à buscar orientações e capacitação empresarial.

Espaço interno do salão dee festas de Juliana Macedo – Foto: arquivo pessoal

“Sei da importância de entender todas as etapas e setores de um empreendimento e quero buscar mais conhecimento para crescer ainda mais.”

Hoje, Juliana vê o negócio como uma grande conquista e para o futuro, os planos são claros.

“Mudou tudo. Hoje eu tenho mais responsabilidade, mais preocupação, mas também muito mais orgulho. É diferente quando você olha e sabe que aquilo ali é fruto do seu esforço. Quero crescer, melhorar cada detalhe, oferecer algo cada vez melhor e continuar empreendendo. Futuramente, quero construir outro espaço.”

E o conselho para outras mulheres vem com convicção. “Não esperem o momento perfeito, porque ele não existe. Comecem com o que têm. Vai dar medo, vai ser difícil, mas a gente é mais forte do que imagina. Quando você vê dando certo, vale muito a pena.”

Da CLT ao estúdio próprio

A lash designer Karinna Rodrigues, 32 anos, também faz parte desse movimento. Apaixonada pela área da beleza desde a infância, ela decidiu deixar o trabalho com carteira assinada e apostar no empreendedorismo.

Karinna Rodrigues – Foto: arquivo pessoal

Antes de abrir o próprio negócio, Karinna trabalhou em regime CLT e enfrentou momentos difíceis. Foi nesse período que surgiu a oportunidade de aprender uma nova profissão. “Comecei a trabalhar de CLT, mas chegou um ponto em que comecei a entrar em depressão pela correria, pressão em lidar com multitarefas, entre outros fatores. Sempre fui apaixonada pela área da estética. Quando surgiu a extensão de cílios, eu queria muito fazer o curso, mas não tinha condição. Aí uma amiga me chamou para aprender, e foi onde começou tudo”, relembra.

No começo, ela conciliava o trabalho formal com o aprendizado, mas com o tempo, a rotina se tornou desgastante, especialmente por causa do filho. Mas a virada profissional de Karinna veio com o incentivo da família. Durante o período de aviso prévio, surgiu a oportunidade de montar o próprio estúdio.

“Para você ser conhecida leva tempo. E eu precisava trabalhar. Foi ali que comecei de fato. Eu tinha horário para entrar, mas não tinha para sair. Meu filho ficava me esperando no carro por horas. Ficou muito puxado. Felizmente, no momento certo, minha sogra sugeriu dividir o espaço, e meu esposo me incentivou muito. Ele falou: ‘você é uma baita profissional, está com medo do quê?’”

Mesmo com o receio inicial, ela decidiu apostar no próprio negócio. Hoje, Karinna atua há cerca de seis anos na área e está há quatro anos no próprio espaço, localizado na região central de Campo Grande. Formalizada como microempreendedora, ela ressalta a importância da organização.

“Dá medo começar, mas eu fui. E deu certo. Assim que abri, já fiz o MEI e meu esposo, que é contador, me ajuda nessa parte dessa parte burocrática e, além disso, preciso estar com tudo funcionando em dia, isso é essencial, até por exigência da vigilância sanitária.”

Karinna Rodrigues faz parte do grupo de empreendedoras de trocou o CLT para se trnar MEI – Foto: arquivo pessoal

Apesar dos avanços, ela aponta desafios no mercado local. Karinna diz que tem muita oportunidade, mas falta gente qualificada no mercado de trabalho, além do que a empreendedora considera umaa questão cultural, de as pessoas ainda não valorizam tanto o trabalho na área da estética.

Segundo Karinna, o custo para oferecer qualidade é alto, pois os produtos são caros. Ela afirma que se fosse cobrar o que o serviço realmente vale, o valor sairia em torno de R$ 200, entretanto, para não ficar fora da realidade local, ela optou pormanter um valor acessível. Mesmo assim, muitos acham caro.

Hoje, além dos atendimentos, Karinna já pensa em uma nova etapa, e ao avaliar a própria trajetória, Karinna acredita que empreender amplia horizontes.

“Quero montar uma loja de cosméticos voltados para a minha área. Às vezes, em três horas atendendo uma cliente, eu ganho menos do que poderia vendendo produtos nesse mesmo tempo. Quando a gente trabalha de CLT, tem um teto. No empreendedorismo, a gente vê outras possibilidades. Dá mais trabalho, exige mais dedicação, mas vale a pena porque é algo seu.”

Gestão e capacitação ainda são desafios

A necessidade de profissionalização é reforçada pela administradora Elaine Padilha Barreto Alves, presidente da Comissão ADM Mulher do CRA-MS (Conselho Regional de Administração).

Segundo ela, o principal desafio não está nas vendas, mas na gestão. “O que mais se observa não é falta de ideia ou de venda. Muitas empreendedoras vendem bem. O problema está na gestão do que acontece depois da venda.”

Ela ressalta que ferramentas como fluxo de caixa, planejamento e organização são indispensáveis. “Sem esses pilares, o negócio depende da rotina e do cansaço da dona. Com eles, passa a ter clareza, controle e capacidade de se manter e crescer com segurança.”

 

Elaine também alerta para o risco de crescer sem estrutura. “Mesmo com potencial de mercado, a empresa trava porque não tem estrutura para suportar o crescimento.”

Apesar disso, ela vê um cenário positivo. “A equidade precisa ser tratada como um tema de gestão, e não apenas como discurso institucional.”

Como orientação, ela reforça: “Busquem conhecimento técnico, procurem redes de apoio e façam planejamento.”

Delas Day fortalece o protagonismo feminino

O fortalecimento do empreendedorismo feminino também ganhou destaque no Delas Day 2026, considerado o maior evento do segmento em Mato Grosso do Sul.

Realizado nos dias 24 e 25 de fevereiro de 2026, no Bosque Expo, no Shopping Bosque dos Ipês, em Campo Grande, o evento teve como tema “Nossa identidade, nossa força”.

Durante dois dias, milhares de mulheres participaram de palestras, capacitações e atividades de networking voltadas ao fortalecimento do protagonismo feminino.

Entre os convidados estiveram nomes como Giovanna Antonelli, Natalia Beauty, Pollyana Félix, Pequena Lô, Hortência Marcari, Izabella Camargo e Marcos Piangers.

O evento foi promovido pelo Sebrae em parceria com o Governo do Estado, instituições públicas e privadas, com o objetivo de fomentar a inclusão produtiva e ampliar a rede de apoio às mulheres empreendedoras.

Em comum, as histórias de Karina, Juliana e Karinna mostram que o crescimento do empreendedorismo feminino já não se concentra apenas nas áreas nobres ou centrais de Campo Grande. Em bairros afastados, simples e muitas vezes longe dos grandes centros comerciais, mulheres estão abrindo negócios, gerando renda, movimentando a economia local e transformando a própria realidade.

Entre desafios e oportunidades, especialistas e empreendedoras concordam em um ponto: planejamento, qualificação e persistência seguem sendo fundamentais para transformar sonhos em negócios sustentáveis.

 

Confira as redes sociais do Estado Online no Facebook e Instagram

 

Leia mais

De funcionária a empreendedora: trajetória de sucesso de esteticista reflete boom do empreendedorismo feminino no Brasil

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *