O bambu que está colocando em risco a floresta na Amazônia

Uma gramínea está causando sérios danos em uma área de mais de 161 mil km² (cerca de três vezes o tamanho do Rio Grande do Norte) no sudoeste da floresta amazônica, nos estados do Amazonas e do Acre e no Peru e na Bolívia. Trata-se de duas espécies de bambu do gênero Guadua, que crescem até 30 metros – mais ou menos a altura de um prédio de 10 andares – e das quais uma única população pode ocupar até 2.700 mil km² (quase duas vezes a cidade de São Paulo, que tem 1.500 km²).

Desde 2010, a densidade dessas plantas na região aumentou nove vezes, o que eliminou 70% das espécies arbóreas e reduziu em 73% a densidade de árvores e em 73% a área basal das matas (ou seja, o espaço que efetivamente as plantas ocupam sobre o solo).

A descoberta foi feita pela engenheira florestal Elaine Dutra Pereira, da Universidade Federal do Acre (UFAC), durante uma pesquisa para sua dissertação de mestrado, apresentada recentemente. “Estudei o problema da expansão do bambu em áreas afetadas pela ação do homem, mais precisamente naquelas em que havia ocorrido exploração de madeira legal, ou seja, o corte e retirada de árvores permitida pela legislação. Mas também pesquisei clareiras abertas por outras razões, como incêndios e secas.”

A pesquisa também mostrou que nas florestas dominadas pelo bambu, a expansão da área ocupada por ele (considerando a situação pré-exploratória em 2010), foi 50% superior no ano de 2011 (um ano após a atividade de retirada de madeira).

“Onde a espécie não era dominante, o crescimento foi 98,9% para o mesmo período”, conta Pereira. “Observamos ainda que o momento crítico de expansão foi logo após a o trabalho exploratório, já que a gramínea se desenvolve bem em locais alterados e nas infraestruturas deixadas pela atividade de manejo, tornando-as locais mais suscetíveis a sua ocupação.”

O trabalho de Pereira começou no início de 2017, com a análise de uma série histórica de oito anos (2009 a 2017) de imagens dos satélites Landsat-5 e Landsat-8. Os pesquisadores observaram que nas matas dominadas pelo Guadua, a coloração de suas folhas é mais clara e há pouca variação entre as alturas, sendo percebida como uma camada mais “uniforme” que as das árvores ao seu redor. O problema é mais grave ainda por causa do grande percentual das florestas nas quais uma ou outra de duas espécies da gramínea, Guadua sarcocarpa e Guadua weberbaueri, estão presentes.

Pereira conta que no Acre, dentre os 18 tipos florestais identificadas, oito têm o bambu no sub-bosque como elemento florístico principal (dominante) ou secundário (dominado). Elas recobrem mais de 138 mil km² (83,9%) dos 164 mil km² do Estado. “Se desconsiderarmos a área desmatada (10,4% do território em 2017), a gramínea está inserida em 93,7% das florestas no Acre”, diz.

Some-se a essa onipresença da planta outra característica: o rápido crescimento (até 3,4 m por mês durante a estação chuvosa e 1,2 m na seca) e a agressividade para ocupar novos espaços.

“A presença dessas espécies lenhosas de bambu do gênero Guadua nas florestas do sudoeste da Amazônia poderia não ser um problema se elas não fossem tão agressivas no processo de colonização de novas áreas no interior das matas”, diz o botânico Evandro Ferreira, Núcleo de Pesquisas do Acre, do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), orientador de Pereira em sua dissertação de mestrado.

Combinado com o seu crescimento naturalmente muito rápido – típico da maioria das espécies de bambus lenhosos -, esse comportamento oportunista faz com que o Guadua consiga se estabelecer rapidamente em locais que lhe são favoráveis, como clareiras naturais ou aquelas abertas para a retirada de árvores madeireiras, além de áreas que foram afetadas por incêndios florestais. “Essa combinação de fatores parece conspirar para favorecer a perenidade dessas espécies de gramíneas nas matas da região”, diz Ferreira.

Incêndios

A pesquisadora Sonaira Souza da Silva, também da UFAC, estudou os registros dos incêndios na expansão do Guadua e suas consequências no Acre, num período de 32 anos, entre 1984 a 2016. “O fogo altera, de forma profunda, a floresta, e uma dessas mudanças foi a expansão ou invasão do bambu após o fogo”, diz.

Silva conta que inicialmente ela não acreditava que tamanha expansão do bambu era por causa dos incêndios. “Mas conheci uma propriedade em que o dono conseguiu proteger cerca de um hectare, de um total de 10 mil ha de floresta que foram queimados em 2005, e parte também em 2010”, diz.

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