O mês de junho começa com friozinho de fim de outono deixando o ar mais leve e o sol mais dourado
No ar começam a circular os aromas típicos das festas, misturando amendoim, cravo, canela, milho e cachaça transfigurada em quentão. Tudo uma delícia para aquecer as almas e aumentar as adiposidades…
Para alegrar os olhos, coloridas bandeirinhas começam a ser dependuradas nas entradas dos prédios de apartamentos e nas fachadas de lojas de armarinhos, utilidades domésticas e quinquilharias. Sem dúvida, o período mais aguardado do ano (depois do Natal).
Os três santos homenageados (Santo Antônio, São João e São Pedro) proporcionam a justificativa para inúmeros folguedos populares como o Bumba-meu-boi e Cordão de Pássaros na região norte, Congadas no sudeste e, claro, as famosas festas juninas com fogueiras, quitutes tradicionais e quadrilhas em que a sanfona é elemento simbólico central, juntamente com as fantasias de caipiras estilizados.
No caso das quadrilhas brasileiras, sua origem remonta às aristocráticas quadrilles francesas do século XIX e, mais remotamente ainda, das country dances inglesas dos séculos XVII e XVIII. Gêneros elegantes de danças de salão, as quadrilhas se espalharam pelas regiões colonizadas, especialmente na América do Sul, tendo sido transformadas e resignificadas no ambiente rural brasileiro e associadas à construção de um estereótipo do lavrador caboclo denominado “caipira”, com forte carga pejorativa que visava depreciar o habitante humilde do interior das regiões sudeste e centro-oeste (obrigado por isso Monteiro Lobato!…).
Mas desta vez, ao avistar as fileiras de bandeirinhas de plástico (antigamente fazíamos em casa cortando papel de seda ou papel crepom) à venda nas lojas, me lembrei de quando fui a Corumbá nos idos anos 1989 por ocasião da festa de São João.
O meio de transporte ainda era o saudoso e romântico trem da Noroeste do Brasil. Fui com mais quatro amigos: Arnaldo Romero, Celso Arakaki, Fernando Camargo e Álvaro Banducci. Cinco jovens animados para se divertirem em uma festa que ainda não era muito divulgada em Mato Grosso do Sul. Hoje, é um atrativo turístico importante e já foi tombada como patrimônio imaterial pelo Iphan. Mas há quase 40 anos atrás era um festejo local bancado pelos habitantes e suas famílias.
Chegamos no dia do banho do santo no Rio Paraguai. Minha querida e saudosa amiga Maria Aparecida Medeiros havia me emprestado uma filmadora VHS, de ombro, enorme e pesada que, na época, era o que havia de mais avançado no segmento. Foi graças a esse equipamento que, despretensiosamente, fui registrando o que foi possível enquanto a sobriedade ainda permitia.

Festa de São João de Corumbá / Arquivo Pessoal
Como não havia um calendário oficial, cada família organizava sua própria festa, procissão e andor. Na casa em que fomos acolhidos, havia muita animação e comida. As quadrilhas levantavam a poeira do chão de terra, a fogueira ardia e iluminava a noite enluarada e o ar estava impregnado do cheiro do quentão e do sarravulho (guisado corumbaense à base de miúdos de boi lentamente cozido no vinho tinto). Busca-pés corriam no terreiro espalhando faíscas e gritos das crianças. A sanfona animava as danças com melodias como a famosa “Festa na roça” do paulista (nascido na Itália) Mário Zan, compositor de rasqueados como “Seriema de Mato Grosso” e “Chalana” (que, aliás, teria sido composta pelo próprio quando visitou Corumbá nos anos 1940).
Lá pelas tantas, com todo mundo já meio embriagado de tanto quentão e alegria, eis que se organiza o cortejo para ir até a beira do Rio Paraguai dar banho na imagem de São João. Um pequeno andor doméstico enfeitado com flores de papel e cetim é levado nos ombros e os convidados da festa acompanham portando pequenas lanternas de papel colorido e velas acesas. Apareceu, não se onde, um pequeno grupo de instrumentos de metal (trombones e trompetes) que tocavam o tradicional Hino à São João, que alterna uma parte lenta devocional (“Deus te salve João Batista sagrado, no teu nascimento nós temos que alegrar; se São João soubesse que hoje era seu dia, descia do céu à terra com prazer e alegria; João batiza Cristo, Cristo batiza João; e foram batizados no rio Jordão”) com uma parte instrumental animada que lembra um frevo, quando todos “soltam a franga”.
Na ladeira do Porto Geral, dezenas ou centenas de procissões se encontravam: umas subindo a ladeira retornando para seus arraiais e outras descendo para banhar o santo no rio. Muitos corriam para passar por baixo do maior número possível de andores para garantir que o santo os ajudassem a arrumar casamento. Pelo visto, o mercado casamenteiro não andava muito aquecido.
Depois do banho, a procissão voltou para a casa dos festeiros anfitriões. Nós cinco ficamos ali por mais um bom tempo, apreciando a multidão que se alimentava nas barraquinhas de comida e bebida. Encontramos também um grupo de senhores com suas violas de cocho e reco-reco que tocavam e dançavam o cururu espontaneamente, no meio do furdunço.
Depois de mais algumas latas de cerveja para rebater o fogo do quentão, ajustei a lente da filmadora para registrar um cardápio aleatório anunciando comida regional em uma barraca. Na medida em que dei o zoom me surpreendi com o principal item em letras garrafais: PIZZA! Globalização e mundialização cultural culinária na veia…
Voltamos para o arraial anfitrião e ali a festa continuou. Quando a fogueira se extinguiu e a madrugada ia alta, a luz da lua inundou o terreiro e a conversa seguiu lânguida sob um céu absurdamente estrelado. Dia seguinte, logo cedo, pegamos o trem de “vorta” para Campo Grande, ainda atordoados de sono e ressaca.
A fita VHS na qual registrei boa parte da festança, tenho guardada em casa como relíquia e documento. Mas quando fui procurar para escrever essas linhas, não consegui distinguir no meio de dezenas de outras fitas, pois as etiquetas estavam desbotadas e ilegíveis. Pronto! Agora terei que conseguir, não sei onde, um aparelho de videocassete antigo pra ver o acervo e catalogar tudo novamente…
Por Evandro Higa
Quem é Evandro Higa?
Professor da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul, pesquisador e músico, Evandro Higa é doutor em Música e um dos principais estudiosos da história musical de Mato Grosso do Sul. Seu trabalho reúne pesquisas sobre memória, patrimônio cultural e a trajetória da música no Estado, contribuindo para a preservação de episódios e personagens que marcaram a formação da identidade sul-mato-grossense.
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